ARTIGO | Lições de Henzel: sobrevivente da tragédia da Chapecoense

17 de Julho de 2017

Foto: Divulgação

por João Paulo Borges*

Faz quase oito meses, mas parece que foi ontem. Logo que acordei e peguei o celular não acreditei na notícia que “bombava” nas redes sociais. No twitter registrei incredulidade com o trágico acontecimento. Até hoje é difícil acreditar que o sonho de disputar a final da Sul-Americana terminou com a morte de 71 pessoas e apenas 6 sobreviventes.

Na segunda-feira, 10 de julho, encontrei com um dos “milagres” do acidente com o avião da Associação Chapecoense de Futebol, ocorrido no dia 29 de novembro, na Colômbia. Foi emocionante ver a força e a iluminação do colega jornalista Rafael Henzel – único profissional da imprensa que sobreviveu à tragédia. Do rápido momento ao lado dele para receber o autógrafo no livro “Viva como se estivesse de partida” e registrar algumas fotos recebi seu primeiro ensinamento: “Viva com o coração leve. Sempre!!” – escreveu ele na dedicatória.

Da leitura do livro, anotei muitas outras oportunas reflexões de alguém que ficou entre a vida e a morte, permaneceu 5 horas no meio do nada, esperando pelo resgate, está vivo e não desistiu de viver. Sobrevivente e guerreiro, Henzel aprendeu muito com a trágica e milagrosa experiência e deixou algumas lições que servem para todos:

1 - Nada é impossível, só a morte não tem volta – e, se pararmos para pensar um pouco, nós estivemos quase mortos e voltamos.
2 - Nós pensamos tanto no futuro que nos esquecemos do presente. E, inesperadamente, não estamos aqui para viver o futuro. Às vezes, fazemos planos mirabolantes que não conseguimos completar e nos decepcionamos. Vamos viver o presente em primeiro lugar.
3 - A esperança é indispensável, desde que nos esforcemos para atingir o objetivo. Temos que sair da zona de conforto. Precisamos agir.
4 - Nós estamos neste mundo com um proposito. E qual seria ele? Eu acho que é fazer o bem ou tentar mostrar que se pode fazer o bem, ser gentil, alegre.
5 - Para todas as decisões que você tem de tomar, é preciso antes de qualquer coisa tomar coragem e ter consciência de que vai dividir seus ganhos e suas consequências com os outros. Lembre-se: ninguém é uma ilha.
6 - Precisamos respeitar os momentos de transição na vida. Respeitá-los para voltar à nossa rotina normal o quanto antes.
7 - Devemos aprender a transformar qualquer contratempo em motivação.
8 - Sempre que pudermos motivar os outros, também estaremos contribuindo para que o ambiente fique muito melhor.
9- Vai chegar uma hora em que a exceção vai cobrar o seu preço. A exceção não pode se tornar uma regra.
10 - Motivação e esperança são tudo na vida.
11 - Você pode fazer muito com nada.
12 - A gratidão é uma das maiores qualidades que se pode ter.
13 - A oportunidade não volta.

Termine-se a agradável leitura do livro com a mesma sensação de Henzel ao narrar um gol da Chapecoense: “O meu coração transborda”, como grita ele quando o verdão do Oeste marca e está bem na partida.

Além dele, outros dois personagens marcantes da história também deixaram duas reflexões. A chefe do corpo clínico do Hospital colombiano que atendeu aos sobreviventes, Adriana, compartilhou com ele um ditado de lá: “Para trás, nem para tomar impulso. Olhe para a frente”. E o zagueiro Neto, outro milagre do acidente, resumiu bem o aprendizado da tragédia: “não espere um avião cair para pedir desculpas, para dar um beijo”. Por fim, Henzel faz um convite: “comemorem a possibilidade de viver.”

* João Paulo Borges, jornalista