Há mais de três décadas trabalho com storytelling em marketing político para a construção da imagem de candidatos e autoridades. Tenho a convicção de que essa construção é feita ao longo de uma vida de atuação profissional, social e familiar de um candidato, e não como uma mágica de véspera de eleição.
Existem, porém, estratégias e ferramentas que podem potencializar e destacar a história de um candidato, se bem utilizadas e de maneira coordenada. Ao longo da minha trajetória, tenho aplicado esses recursos em projetos de posicionamento político, construção de narrativas, planejamento estratégico de comunicação e gestão de imagem pública para candidatos e autoridades. Entre elas, destaco o data storytelling, recurso que tenho aplicado em campanhas bem-sucedidas nos mais diversos níveis eleitorais, de vereador a presidente da República.
Data storytelling, ou a construção de uma história que impacte as pessoas com base em informações reais e disponíveis, tem algumas nuances e considerações que precisam ser levadas em conta dentro de uma campanha de marketing eleitoral.
Em uma campanha eleitoral, dados não servem apenas para medir intenções de voto. Eles ajudam a compreender preocupações, expectativas e prioridades da população. O papel do data storytelling é transformar essas informações em narrativas capazes de gerar identificação, sempre respeitando a realidade dos fatos e a trajetória do candidato. Dados sem narrativa são números. Narrativas sem dados são opiniões. O encontro entre ambos é que produz comunicação estratégica.
Mas é importante lembrar que dados não substituem reputação. Eles ajudam a identificar temas relevantes para a população e a construir pontes entre o candidato e o eleitorado, mas não têm o poder de criar uma trajetória que não exista. O data storytelling potencializa histórias verdadeiras. Não inventa histórias.
Para que isso funcione, a história a ser contada precisa ter base real e coerência com a trajetória do candidato, além de estar em consonância com o espírito da época da cidade, estado ou país e com os desejos da população local.
Importar argumentos que ‘bombaram’ na internet na expectativa de reproduzir o mesmo sucesso em sua campanha eleitoral pode trazer sérios riscos à candidatura. Pode soar falso, por não combinar com o estilo do candidato, como também parecer oportunismo, querendo aproveitar a onda do momento para se promover.
Outra questão importante a considerar quando abordamos o uso do marketing digital para campanha política é planejamento e hierarquia. O marketing digital já traz, em si, uma velocidade e ansiedade de produção e publicação superiores às ferramentas e plataformas que ele sucedeu. Em uma campanha política, que também tem uma velocidade de produção e respostas acima do habitual, essa soma é nitroglicerina pura. Se não houver uma equipe bem dimensionada, com as tarefas e hierarquias estabelecidas e seguindo um planejamento pré-aprovado, a probabilidade de erro é grande. E um erro pode custar uma campanha. Ganha quem erra menos.
Se essas questões destacadas aqui devem ser evitadas para diminuir a chance de erros, o que mais podemos fazer para ter êxito em uma campanha?
Uma das questões primordiais é ter fontes confiáveis. A fidelidade dos dados é questão de honra para ter uma história bem contada, verdadeira e que impacte o eleitorado. Tenha atenção especial com suas fontes e questione as origens das informações antes de publicá-las. No decorrer de uma campanha há muitos amigos querendo ser úteis e passando informações achando que aquele argumento será uma bala de prata que dará a eleição.
E, para finalizar, duvide de mágicos.
Eles sempre aparecem, em todas as campanhas. Muitos vêm de longe (talvez porque de onde são ninguém mais acredita), trazem uma ferramenta “inédita” que garantirá a eleição. Apresentam credenciais de grandes campanhas de outros estados, mas não conhecem nada da realidade local.
Nada contra a mágica em si. É bonita de ver. No circo, na TV, mas não quando pode pôr em risco uma eleição.
Cuide bem da sua história, que foi construída com tanto esforço e dedicação.
Carlo Manfroi é escritor, publicitário e estrategista em storytelling para pessoas e marcas. Fundador e CEO do Carlo Manfroi Story Studio e da Qualé Digital, é mestre e doutorando com ênfase em data storytelling no PPGEGC / UFSC.
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