Juntando a atrofia mental de muitos ao comportamento maligno da humanidade, manipuladores de plantão deram início a uma nova ordem mundial.
por Daniel Argolo*
Publicitário de longa data, aprendi desde cedo que construir audiência nunca foi uma tarefa fácil. E que, uma vez construída, conseguir manter os números em alta, qualquer que fosse o meio de comunicação, era uma luta diária. Para jornais, revistas ou programações de rádio e TV voltados para notícias e acontecimentos do dia a dia, o caminho era um só: trazer furos e a verdade dos fatos, promover análises precisas e entregar conteúdos e opiniões de credibilidade. Só assim os veículos de comunicação conseguiam valorar e vender espaços publicitários. Agências e anunciantes buscavam, sempre, pela qualificação da audiência. Afinal, ao anunciar, estavam associando a sua imagem ao veículo e a programação entregue ao público alvo. Um ciclo virtuoso, que promovia a incessante busca pela verdade.
Fato é que os meios de comunicação foram mudando de plataformas. Jornais e revistas passaram a ter seus públicos nos meios digitais, limitando as versões impressas aos assinantes mais ortodoxos. E a programação televisiva de qualidade foi sendo direcionada para os canais fechados, banalizando os conteúdos abertos para a população menos favorecida. Não à toa vimos um avanço de canais e programas de televisão invadidos por igrejas neopentecostais, cujos recursos provêm da fé de um povo desprovido de atenção e proteção. E uma enxurrada de programas de baixíssima qualidade intelectual, apelativos ou sensacionalistas, cauterizando a inteligência de seus telespectadores. O meio rádio também sofreu este reflexo, perdendo uma grande fatia da programação para conteúdos de cunho gospel, bem como a expressiva perda de audiência por conta das plataformas de streaming.
Diante da mediocrização das programações abertas e gratuitas, somada ao avanço tecnológico dos celulares e à ampla adesão da população nas redes sociais, qualquer usuário de smartphone passou a ser um potencial difusor de conteúdos e opiniões. As redes sociais facilitaram o alcance e a conquista de audiência passou a ter preço, independente da qualidade do conteúdo. O famoso: pagou, eu entrego. No fundo, nada é mais verdadeiramente orgânico. Aliás, nada mais precisa ser verdadeiramente relevante. E, por fim, nada mais precisa ser verdade.
As fake news espalhadas ao redor do mundo são resultantes deste universo digital idiotizado e raso, que encontra eco em pessoas que buscam respostas e opiniões prontas em motores de buscas, como o Google. Afinal, questionar e pensar dá muito trabalho. Melhor mesmo é receber uma luz do algoritmo, que coleta e difundi informações sem validar se a fonte é realmente segura.
Juntando a atrofia mental de muitos ao comportamento maligno da humanidade, manipuladores de plantão deram início a uma nova ordem mundial. Afinal, o que gera engajamento são factoides e não fatos. Fofocas e não opiniões. Conspirações fantasiosas e não, por vezes, a desestimulante realidade. E assim, meio ao caos e a crise da verdade, conseguiram dividir o país entre nós e eles. Cloroquinistas e cientistas. Fascistas e comunistas.
Outra febre resultante da crise da verdade são os famigerados anúncios de cursos online 100% gratuitos. Aqueles “me engana que eu gosto”, prometendo resultados rápidos e fáceis. Seja ficar milionário investindo na bolsa, emagrecer e trincar o abdômen em poucas semanas, ganhar vitalidade sexual com exercícios secretos, influenciar pessoas, atrair riquezas com as leis do universo, parar de roncar, etc. Um bombardeio de ofertas pautadas, também, na manipulação da verdade.
Saudades do tempo em que propaganda enganosa era o tamanho real do sanduíche em relação a foto do anúncio. Não é verdade? proprietário da Love Brand, empresa especializada em branding estratégico e planejamento de comunicação.
*Daniel Argolo – CEO da LOVE BRAND – Daniel tem mais de 26 anos de mercado, trabalhando em grandes agências nas áreas de atendimento e planejamento. Atuou em diferentes frentes de negócios, contribuindo para a construção e consolidação de relevantes marcas. Ao longo da carreira, passou pelas agências Z. Publicidade, OpusMúltipla, Next Direct, D/Araújo, além dos grupos Ogilvy e Propeg. Argolo traz em seu histórico profissional o atendimento de marcas, como: HSBC, FIAT, Extra Hipermercados, Ford, Votorantim, Electrolux, Tigre, GVT, Liquigas, entre outros. Como profissional de planejamento, sempre buscou a criatividade como diferencial. Atualmente é proprietário da Love Brand, empresa especializada em branding estratégico e planejamento de comunicação.
