Coluna Fabrício Wolff | As mudanças sociais comunicam novos tempos

27 de Julho de 2019

A sociedade comunica, em ações, estar vivendo um novo tempo. Resta saber quais serão os resultados futuros para esta e as novas gerações.

A sociedade comunica o tempo todo. Não só entre seus agentes, chamados de seres humanos, mas também comunica, como grupo, suas próprias mudanças. De tempos em tempos, a sociedade dá guinadas para um lado ou para o outro, comunicando a todos os seus agentes um novo modus vivendi, um novo tempo... Se isso é bom ou ruim, só se descobre depois deste grupo social passar pela experiência. E uma nova guinada para outro lado nunca está descartada. 

Talvez o contraponto mais visível das dicotomias da sociedade possa ser visto, agora, na relação entre pais e filhos. De uma forma geral, há 40, 50 anos, a maioria dos pais impunha sua vontade sobre os filhos de tal forma que muitos dos adolescentes e jovens chegavam a ser subjugados pela hierarquia familiar patriarcal. Os filhos, não raro, eram “empregados” dos pais nos momentos de lazer e proibidos de fazer qualquer coisa que os pais não concordassem, por não compreenderem ou não considerarem adequado diante de sua visão de mundo.

Passados esses 40, 50, 60 anos, vemos a situação se inverter. Os filhos têm tudo o que precisam, muitas vezes sem demonstrar qualquer esforço. Têm muitos direitos e pouquíssimos deveres. Em geral, fazem aquilo que têm vontade e aproveitam ao máximo dos benefícios que os pais podem proporcionar. Nem sempre contribuem para a própria sobrevivência mesmo em idade adulta e cada vez mais dependem financeiramente dos pais. Praticamente inverteram a hierarquia familiar. Agora, são eles que mandam – embora com o consentimento (muitas vezes tácito e omisso) dos progenitores.

Este contraponto está visível em atitudes simples como, por exemplo, a idade em que os jovens deixam o lar paterno. Há algumas décadas, os meninos e meninas deixavam a casa da família mais cedo. Por motivos aparentamente diferentes, buscavam fugir do subjugo paterno. Ambos queriam liberdade. Buscar uma vida própria, além de uma novidade que beirava a aventura, era também uma maneira de sair de casa e criar as próprias regras. Era até motivo de orgulho. Atualmente, os jovens ficam em casa até mais tarde. Não há o subjugo; não há porque ter pressa. 

O mundo (a sociedade) mudou. A vida familiar se tornou mais carinhosa e compreensiva, os filhos não se sentem mais sufocados. Conquistaram a liberdade dentro do lar paterno, não há por que fugir. Em contrapartida, esta nova geração de jovens parece mostra-se despretensiosa, malemolente, com dificuldades de se enquadrar na dura vida cotidiana pós formação escolar. É uma vida de concorrência, de disputa, onde comunicação pessoal, determinação e auto-estima fazem toda a diferença. Onde muito mais do que uma palestra motivacional, a ação do dia a dia separa homens de meninos. Onde saber não é suficiente. É necessário saber fazer. 

O que teria tudo para ser um tempo de comemorações, onde os jovens podem ser mais felizes dentro da casa dos pais, coloca uma incômoda questão: teremos exagerado na dose do contraponto e ido de uma estrutura familiar opressora a uma estrutura libertária com prejuízos ao futuro de nossas crianças? Que homens e mulheres estamos preparando para a vida?  Saberão eles contrapor as facilidades do caminho da casa em família para enfrentar e domar as dificuldades da vida real que os espera lá fora? 

Não é surpresa nem exagero dizer, no experiente caminho da vida social, que as dificuldades encontradas na adolescência e juventude costumam forjar um adulto mais forte. Assim como ferro forjado é mais resistente e maleável do que o ferro fundido, o ser humano que é colocado à prova durante o caminho se torna mais forte e experiente para os desafios futuros. Com esses desafios minimizados ao máximo em forma de amor familiar, é de se perguntar se este exagero para o bem não pode vir a causar o mal exatamente daqueles a quem se quer proteger. 

A sociedade comunica, em ações, estar vivendo um novo tempo. Resta saber quais serão os resultados futuros para esta e as novas gerações.  

Fabrício Wolff

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    Possui graduação em Jornalismo e Direito. Pós graduado em Educação. Experiência profissional na Comunicação desde 1980, tendo atuado tanto nos principais veículos de comunicação do estado especificamente na área de Jornalismo, como também em agências de publicidade. Profissional multimídia, professor universitário nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Administração. Natural de Porto Alegre, radicado em Blumenau desde 1983, mudou-se para Florianópolis em 2019.