11/08/08
A interatividade, que permite serviços parecidos com os da internet no televisor, era o único componente genuinamente brasileiro do sistema nipo-brasileiro de TV digital.
>>> No lançamento da tecnologia em São Paulo, no mês de dezembro de 2007, ela não estava disponível. Primeiro, houve demora na especificação do software de interatividade, batizado de Ginga. Depois, o Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD) descobriu que existiam problemas de royalties, que deveriam ser pagos a uma empresa estrangeira por componentes de software empregados em parte do Ginga.
Enquanto os grandes fabricantes debatem o que fazer com o software de interatividade no Fórum SBTVD, uma pequena empresa da Rua Santa Ifigênia, que concentra lojas de eletrônicos no centro de São Paulo, lançou um conversor de TV digital com a parte do Ginga que não tem problemas de royalties. O aparelho, que converte o sinal digital para ser visto em televisores analógicos, se chama ZBT-620, e é fabricado pela Neo Security.
“?? o único do mercado com o software interativo”, disse José Carlos de Souza, sócio da Central Santa Ifigênia, uma das lojas que vendem o aparelho. “A receptividade do Ginga é interessante. Vendo mais desse aparelho do que outros.” Ele custa cerca de R$ 600. Um modelo de outro fabricante, sem o Ginga, é R$ 100 mais barato.
Segundo Souza, os consumidores preferem comprar o conversor com Ginga, apesar de as emissoras ainda não estarem transmitindo programas interativos. Ele chegou a vender 150 peças em junho, mas, no mês passado, a procura pelo aparelho caiu, e foram vendidos menos de 100. O lojista apontou como motivo o anúncio do conversor de R$ 200 pela Proview. “As pessoas vão às lojas dispostas a pagar esse preço e não acham o produto”, disse Souza.
A Neo Security preferiu não comentar o produto, limitando-se a informar que a Mopa Embedded Systems, que tem escritórios em João Pessoa e Natal, foi quem forneceu o Ginga para o seu conversor. A Mopa foi fundada por ex-alunos do professor Guido Lemos, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), um dos criadores do Ginga.
“Já tenho acordos com cinco fabricantes”, disse Luiz Eduardo Cunha Leite, diretor-executivo da Mopa. Ele explicou que não poderia comentar o produto da Neo, por causa de cláusulas de confidencialidade que tem com seus clientes. Leite está animado com as perspectivas do Ginga. Segundo o executivo, a Mopa foi procurada até por uma empresa que atua no mercado europeu, interessada no software.
O Ginga é dividido em duas partes: Ginga-NCL (que é uma linguagem de marcação, parecida com o HTML usado para as páginas de internet) e o Ginga-J (uma linguagem de programação, parecida com o Java). Houve problemas de royalties com o Ginga-J, criado na UFPB. O Ginga-NCL, disponível no conversor da Neo, foi criado na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, e não embute propriedade intelectual internacional.
Moris Arditti, vice-presidente do Fórum SBTVD, ficou surpreso ao saber do conversor da Neo. “Não tenho informações sobre esse aparelho”, disse Arditi. “Não é impossível, porque as especificações já existem.” Ele disse que lançar um conversor de TV somente com o Ginga-NCL contraria as determinações do fórum.
“Não existe meio Ginga”, explicou o executivo. “Até o fim do ano, é possível que apareçam no mercado máquinas com o Ginga como deve ser.”
Houve alguma resistência dos radiodifusores ao Ginga durante o processo de definição da tecnologia de TV digital no País. Eles temiam que os espectadores pudessem achar as aplicações interativas mais interessantes que os programas. Mas a resistência ficou para trás. As emissoras têm se preparado para a interatividade, que vêem agora como uma ferramenta para conquistar audiência.
Todas as iniciativas de interação com o público que fazem usando o celular, o telefone fixo e a internet podem ser reforçadas e feitas diretamente pelo controle remoto, com o Ginga. Além disso, muitas outras aplicações podem ser criadas.
“A maioria das emissoras já está preparada”, afirmou o professor Valdecir Becker, da Universidade Metodista. “Está na hora de mostrar ao mercado que a interatividade existe e é viável, que está pronta para ser lançada comercialmente.” No dia 25 deste mês, a Metodista vai realizar um evento de TV digital, onde serão demonstradas as aplicações em Ginga desenvolvidas pela primeira turma do curso de especialização em produção de TV interativa.
Becker também é diretor da empresa ITV Produções Interativas, que oferece treinamento de programação em Ginga. Ele já ministrou o curso para mais de 350 pessoas, a maioria delas de emissoras de televisão.
Fonte: O Estado de S.Paulo
