Foi o título do artigo que lhe chamou a atenção ou foi o nome do autor? Difícil para profissionais do ecossistema da Comunicação se depararem com o nome de Washington Olivetto e ignorarem o assunto. O AcontecendoAqui já publicou uma grande quantidade de conteúdo, onde aparece o nome do eterno Golden Boy da propaganda brasileira. O artigo que você irá ler a seguir foi publicado por ele, no Brasil, no jornal O Globo. Um texto leve, calmo, com assunto delicioso, como deve ser o dia-a-dia dele em Londres, onde vive há alguns anos. Boa leitura!
A designer japonesa Rei Kawakubo é um fenômeno único no mundinho dos chiques e famosos.
A ponto de conseguir manter sua grife, a Comme des Garçons, como marca de vanguarda há mais de meio século. De ajudar a revitalizar regiões como Soho e Chelsea, em Nova York. E de colocar no roteiro dos modernos lugares tidos como caretas, como a Rue du Faubourg-St-Honoré, em Paris.
Moda é um negócio complicado porque vive saindo de moda, mas, com Rei Kawakubo, isso nunca acontece.
Além das roupas da Comme des Garçons, já faz muito tempo que ela vende também, nas suas lojas de Tóquio, Nova York e Paris, roupas desenhadas pelo seu apadrinhado Junya Watanabe, além de algumas outras um pouco menos caras, mas da mesma qualidade, feitas pela sua marca de combate, a Black, criada no período da crise econômica de 2008.
Rei Kawakubo, que foi durante anos namorada do designer Yohji Yamamoto e depois se casou com Adrian Joffe, hoje CEO das suas empresas, já era mais do que consagrada quando, em 2004, resolveu criar em Londres a Dover Street Market.
Uma loja que começou na Dover Street, em Mayfair, vendendo os produtos da Comme des Garçons e de algumas outras marcas escolhidas por ela, que fazia uma espécie de curadoria elegendo o que merecia ser exposto na sua Dover. Podia ser uma bolsa da Hermès, um casaquinho da Chanel ou um tênis da Adidas. Podia ser qualquer coisa, desde que aprovada por ela.
A Dover Street Market cresceu rapidamente, a ponto de ganhar filiais como a de Nova York, no número 160 da Lexington Avenue, e outras em Tóquio, Pequim, Cingapura e Los Angeles.
A Dover mais espetacular do mundo continuou sendo a de Londres, que cresceu e precisou mudar do pequeno galpão da Dover Street para um prédio de cinco andares em West End, entre os números 18 e 22 da Haymarket.
Nesse prédio, um edifício com arquitetura georgiana, daqueles que têm elevador com porta pantográfica, você encontra as roupas da Comme des Garçons e o melhor das melhores marcas do planeta.
No térreo, existe uma sessão de joias de designers consagrados. No quinto andar, além das araras com roupas masculinas e femininas, existe um pequeno café com comidas naturebas.
No subsolo se vendem coisas de menor preço, para um público adolescente.
O ponto em comum em todos os andares é a qualidade do design, dos tecidos, dos cortes e dos acabamentos.
Frequentam a Dover Street Market, pessoas que preferem comprar coisas mais caras, mas em menor quantidade, porque sabem que essas coisas vão durar para sempre.
Absoluta verdade: conheço homens e mulheres que têm paletós e vestidos da Comme des Garçons comprados há mais de 30 anos, que se mantêm atuais até hoje.
Os vendedores e vendedoras da Dover Street Market jamais abordam quem quer que seja tentando vender alguma coisa. Só se aproximam quando chamados pelo cliente.
E a loja conta com um profissional contratado para escolher a disposição das roupas, a música que toca, o cheiro que tem, as vestimentas e o comportamento da equipe de vendas.
Esse profissional foi inventado por Rei Kawakubo, muitos anos atrás, e batizado por ela de “diretor de atmosfera”.
Lembrei-me da Dover Street Market outro dia, folheando umas revistas que me mandaram do Brasil.
Numa delas havia uma matéria sobre o presidente Jair Bolsonaro e sua esposa Michelle, que haviam inaugurado um memorial no Palácio do Planalto em Brasília, com as roupas que eles usaram no dia da posse em 1º de janeiro de 2019.
Achei o fato bastante exótico, ou no mínimo surpreendente, e resolvi ir até a Dover Street Market para ver se encontrava roupas parecidas com aquelas.
Não encontrei.
