Coluna Ligia Fascioni | A história do aperto de mãos
16 de Novembro de 2021

Coluna Ligia Fascioni | A história do aperto de mãos

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Por Ligia Fascioni 16 de Novembro de 2021 | Atualizado 16 de Novembro de 2021

Mas como é que não descobri essa mulher antes, minha gente? Foi o que pensei quando peguei nas mãos, por pura curiosidade, o livro “The Handshake: a gripping history”, que, numa tradução livre seria “Aperto de mãos, uma história emocionante”. Mas gripping é literalmente agarrar (a história “agarra” você), então o jogo de palavras ficou bem divertido.

 

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Fui obrigada a levar o volume para casa depois que li a segunda orelha, com o currículo da autora, Ella Al-Shamahi: é formada em genética, taxonomia e biodiversidade, está agora fazendo um doutorado em paleantropologia, e atua como comediante stand-up. A moça é especialista em Neandertais, escavações em ambientes hostis, além de ser apresentadora de TV na BBC e exploradora da National Geographic. Descendente de uma família do Iêmen radicada em Londres, Ella foi muçulmana fundamentalista a maior parte da vida, mas depois de anos estudando, viu que essa herança familiar não estava de acordo com sua visão de mundo.

 

A escrita de Ella é leve e engraçada (não à toa a moça é comediante) e a ironia fina permeia todo o texto. O livro foi escrito em 2020, em meio à pandemia do Covid-19, quando o aperto de mãos foi praticamente banido das relações humanas. Em conversas com colegas cientistas, alguns apostavam que nunca mais iríamos apertar as mãos de desconhecidos (imunologistas, inclusive, recomendavam); a autora acreditava que não — o gesto já passou por outras crises e essa é só mais uma; depois ele volta (como sempre). Foi aí que teve a ideia, como boa antropóloga, de estudar o tema mais a fundo.

 

Ela começa desmontando o mito de que a origem do aperto de mãos era um protocolo  entre cavalheiros para demonstrar que não estavam armados. Ok, mas e se a arma for invisível, como um vírus?

 

Ella diz que o aperto de mãos, como uma unidade de toque, é uma questão pessoal. Para a autora, que foi muçulmana fundamentalista até os 26 anos de idade. Até então, ela seguia rígidas leis que diziam que mulheres não deviam tocar homens que não fossem seus parentes próximos ou esposo. Quando se tornou secular, Ella passou a apertar a mão de todo mundo, mas no começo foi uma sensação estranhíssima. Ela conta que o que não estava realmente preparada era para os abraços; a primeira vez que abraçou um colega (seu melhor amigo) ela teve que se controlar muito para não sair correndo. Um ano depois, conversando, os dois riram até se acabar porque ele confessou que detestava abraços e só tinha feito isso porque era o que se esperava naquela situação… mas a moça reconhece que o contato humano faz muita diferença. Agora ela não vive mais sem.

 

Bom, mas afinal, como surgiu o aperto de mão? Os abraços e beijos, também unidades de toque, presentes em várias culturas e inclusive em outras espécies, são demonstrações de afeto e carinho. Mas o aperto de mãos é diferente; ele é quase um pacto, um compromisso, um reconhecimento do outro, mas sem o afeto estar envolvido necessariamente.

 

Ella pesquisou tribos em lugares distantes, como Guiné Bissau e Amazonas, que praticavam o aperto de mãos muito antes do contato com estrangeiros. Mas ela queria ir mais além: será que os Neandertais também se apertavam as mãos? Pelas pesquisas, é praticamente certo que sim. Não que se tenha registro direto, mas os ancestrais comuns entre nós e os Neandertais, que são os bonobos, usam um gesto bem parecido. Então é possível afirmar que o aperto de mãos é praticado há 7 milhões de anos!

 

Outra coisa curiosa é que o gesto não envolve apenas o tato; ele libera ocitocina, o hormônio da conexão social, que faz com nos sintamos acolhidos. As mãos contém muitos receptores nas palmas e nos dedos; é uma área do corpo muito sensível ao toque. As mãos habilidosas, em especial por causa do polegar (o dedo opositor) são as responsáveis por podemos colocar em prática tanta imaginação. Se um pato fosse muito mais inteligente que o ser humano, mesmo assim não conseguiria construir uma máquina (nem mesmo uma ferramenta). Você já tinha pensado nisso?

 

Ao longo do tempo e praticado por diferentes culturas, o gesto também adquiriu simbolismos diversos, mas no mundo ocidental ele significa civilidade, amizade, solidariedade, aliança e paz entre inimigos.

 

O livro traz ainda muitas curiosidades sobre líderes mundiais, sobre a questão dos abraços e beijos como cumprimento, sobre o machismo, sobre as culturas que não costumam se tocar (como os japoneses) e até sobre equivalentes ao aperto de mão em algumas culturas e gestos adicionais.

 

Por exemplo: em Gana, o aperto de mãos culmina com um estalo de dedos; na Nigéria, o mais usado é estalar ou apertar somente os dedões (e quanto mais sonoro, melhor!); na Namíbia o aperto de mãos é precedido por um aplauso; os indianos combinam o gesto levando a outra mão ao coração.

 

Na Papua Nova Guine, um antropólogo conta que dar uma leve sugada no seio da mulher do chefe da tribo é visto como um cumprimento de boas vindas. Mas, para mim, o mais bizarro de todos é o aperto de pênis (sim, você leu direito), praticado em outra tribo da Papua Nova Guiné e funciona assim: quando um homem de outra tribo chega para uma cerimônia, ele oferece seu pênis em num ritual para os anfitriões. Se o anfitrião se recusar a pegá-lo completamente com a palma de sua mão, significa que ele deve lutar ou fugir (ou seja…rs). Por isso, o visitante sempre prefere oferecer seu pênis para um anfitrião que ele já conheça.

 

Em outro capítulo, Ella apresenta a receita do aperto de mãos perfeito desenvolvido pelo professor de psicologia da Universidade de Manchester, Geoffrey Batte, a pedido da Chevrolet, em 2010. A fórmula é complicadíssima e tem mais de 10 variáveis com as respectivas gradações. Por exemplo: o nível do sorriso (com os olhos e a boca) pode ir de zero (sorriso falso) ao “duchenne” (aquele em que os olhos também sorriem); tem também variáveis como a secura da mão, a posição, a temperatura, se há contato visual, a “pegada”, o vigor, a duração, etc

 

Mas no final, observei uma coisa que fugiu à autora (naturalmente porque sua língua mãe é o inglês). É que aperto de mãos em inglês é handshake (shake é algo como sacudir, balançar). Então a ênfase é em balançar as mãos; em português falamos apertar. Nas outras línguas latinas, como o espanhol (apretón de manos), o francês (poignée de main) e o italiano (stretta di mano), a ênfase é em pegar com firmeza ou apertar; no alemão (Händedruck) também (“Druck” é apertar). Por que será que em inglês é diferente? Se alguém souber ou tiver um palpite, por favor, compartilhe!

 

Enfim, o livro é diversão garantida e vou acompanhar mais o trabalho dessa moça.

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