ESTREIA |  Jornalista Rogério Kiefer é novo colunista do portal
03 de Agosto de 2022

ESTREIA | Jornalista Rogério Kiefer é novo colunista do portal

Literatura para quê?

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Por Rogério Kiefer 03 de Agosto de 2022 | Atualizado 08 de Agosto de 2022

Olá Pessoal!

Com grande satisfação apresento a vocês o nosso mais novo colaborador: Rogério Kiefer, jornalista, sócio da All Press, empresa especializada em comunicação com sede em Florianópolis. Rogério vai escrever sobre literatura a cada 10 dias.

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Bem-Vindo Rogério Kiefer!

Jailson de Sá
Editor

“Logo no início da faculdade de jornalismo, depois do fracasso retumbante em uma das primeiras aulas de redação, o professor comentou que eu poderia pensar em seguir outro caminho na vida profissional. Talvez investir na física quântica, na matemática pura, no estudo da rotina de acasalamento dos insetos – enfim, apostar em qualquer área que me mantivesse a uma distância segura das palavras.
Tempos depois, relendo o texto entregue em sala, o vergonhoso relato de uma luta de boxe onde quem mais apanhou foi o redator, quase dei razão ao professor. Mas não desisti. Em vez disso, apostei que a leitura poderia me transformar em jornalista. Não sei se deu certo. Mas a paixão pelos livros me ajudou a ter uma carreira e, agora, me dá a oportunidade de ocupar um espaço no Acontecendo Aqui, leitura obrigatória por aqui desde sempre.
Espero que gostem do papo que vamos ter por aqui.”

Rogério Kiefer
Colunista


 

A presença da humanidade sobre a terra é fruto do acaso, resultado de bilhões de combinações aleatórias de proteínas que ao longo de milênios “criaram” também o gato, mais ágil que qualquer homem; a tartaruga marinha, mais longeva; o orangotango, mais forte, e a sucuri, que pode se transformar no Véio do Rio e dar conselhos e lições de moral para a Juma. Mais fraco, mais lento e menos resistente do que seus vizinhos, o humano encontrou caminhos próprios para driblar a seleção natural e desenvolveu linguagens e capacidades intelectuais que o diferenciam.

Homo sapiens são animais como os outros, mas com a capacidade de refletir sobre a realidade, antecipar cenários e planejar soluções. Tudo por causa do cérebro desenvolvido durante milênios e essencial para a sobrevivência da espécie. Uma máquina de pensar que ganhou complexidade graças, entre outros fatores, ao surgimento e uso de diferentes linguagens: o rosnar, ainda comum entre alguns bípedes saudosos das cavernas; a fala, os desenhos, as letras, os registros escritos do cotidiano, os “livros técnicos” sobre colheitas e regimes fluviais e a ficção.

Em tempos de individualismo e utilitarismo em alta, quando tudo que não tem alguma função visível e óbvia corre o risco do descarte, talvez seja importante lembrar desse papel da criação artística – e literária – na evolução da espécie. Aliás, no inconsciente de cada um, responsável pela imensa maioria de nossas reações, essa percepção está solidificada. Basta atentar para o efeito imediato, mais rápido que qualquer pensamento racional, causado por aquelas estantes de livros tão comuns no cenário de fotos e lives de autoridades. A impressão causada pelas lombadas acumuladas é tão inescapável que incentivou a criação de um papel de parede do tipo biblioteca. A solução desobriga o proprietário do inconveniente de limpar a poeira acumulada ou ter que ler letras e linhas e páginas a perder de vista e já ganha espaço entre pensadores modernos.

No dia a dia, a literatura tem outras utilidades. Em geral, quem lê escreve melhor, organiza as ideias de forma mais clara e adquire alguma cultura geral. Um forte lobby de leitores também contribuiu para criar a falsa ideia de que a exposição a livros é capaz de tornar as pessoas mais empáticas e “melhores”, seja lá o que significa isso. Há, aí, equívoco enorme. Livros não tornam necessariamente uma pessoa melhor. O bom leitor que seja também um canalha ancestral, como poderia ter dito o Nelson Rodrigues, será apenas um canalha capaz de citar escritores para dar alguma aparência de profundidade a suas palavras.

 

“Toda Biblioteca é uma autobiografia”

Mas aí surge uma função prática inegável da literatura. Alberto Manguel escreve que acha úteis as listas de leitura “porque podem nos dizer quem é nosso amigo e quem não é”… “Podemos saber de quem se trata e se queremos conhecer tal pessoa examinando a lista de seus livros preferidos. Toda biblioteca é uma autobiografia”.

Para quem quiser decidir se vai acompanhar as próximas colunas, uma breve lista de gostos do autor (fora de ordem de preferência e marcada por esquecimentos e pelo indesculpável desequilíbrio entre gêneros): Carta ao Pai e A Metaformose (Franz Kafka), O Efeito Lúcifer (Philip Zimbardo), Patrimônio (Philip Roth), Memórias do Escrivão Isaías de Caminha (Lima Barreto), Tevie, o Leiteiro (Sholem Aleichem), O Sol é para todos (Harper Lee), Pilatos (Carlos Heitor Cony), Condições Nervosas (Tsitsi Dangarembga), Os homens preferem as louras (Anita Loos), O homem que corrompeu Hadleyburg (Mark Twain), É isto um homem? (Primo Levy), O Alienista (Machado de Assis) e Frankstein (Mary Shelley).

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