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De engenheiro a consultor na ONU em Direitos Humanos, a inspiradora carreira de Iradj Eghrari.
26 de Abril de 2023

De engenheiro a consultor na ONU em Direitos Humanos, a inspiradora carreira de Iradj Eghrari.

Uma conversa sobre carreira e os processos de tomada de decisão, sobretudo, nos estágios iniciais da vida profissional

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Por Prof Jonny 26 de Abril de 2023 | Atualizado 26 de Abril de 2023

 

Iradj Eghrari, nascido no Rio de Janeiro, é engenheiro eletrônico e mestre em engenharia eletrônica. É bacharel em Administração de Empresas, todos pela PUC/RJ, também é coach credenciado pela International Coaching Community do Reino Unido. Tem formação em compliance pelo CEDIN – Centro de Estudos em Direito e Negócios. Recentemente, ele assinou um contrato como consultor na ONU no tema de Direitos Humanos. Ele é autor dos livros Guia Ação Política e Juventude-Caminhos e Desafios e 25 Maneiras de Abandonar Suas Crenças Limitantes e ampliar seus horizontes. Uma semana antes de viajar para reunião em Genebra, ele conversou conosco sobre suas experiências profissionais em compliance e direitos humanos, e sobre esta recente consultoria para a ONU.

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Agradeço muito por sua disposição em contribuir com nossa coluna sobre carreira. Como a intenção aqui é também compartilhar sobre os processos de tomada de decisão, sobretudo, nos estágios iniciais da vida profissional, gostaria de saber se você chegou a atuar como engenheiro? Se sim, por quanto tempo isto se deu?

A primeira coisa que preciso dizer é que sempre fui apaixonado pela engenharia, que é a minha eterna paixão. Trabalho como engenheiro e uso a engenharia como instrumento para muitas coisas na minha vida. Desde garoto, a eletrônica chamou muito minha atenção, me matriculei no curso de técnico em eletrônica no Instituto Universal Brasileiro. Comecei a atuar como técnico aos 12 anos consertando rádios e gravadores. Entrei na faculdade em 1975 e me formei em 4 anos e meio, fazendo administração ao mesmo tempo. Gostei muito de estudar administração, pois acredito que todo engenheiro deve ter essa paixão obrigatória. Dentro do departamento de física, coordenava 20 jovens da estação científica, mesmo sem ter formação na graduação de engenharia eletrônica. Terminei o curso de engenharia eletrônica e fui crescendo. Eu trabalhava na área de física do estado sólido, que era a área que tratava de supercondutividade, que se tornou a minha paixão. Comecei a trabalhar então na pesquisa com dispositivos de física de estado sólido projetados para medir campos magnéticos do coração de baixíssima intensidade. Entrei no mestrado não por interesse em lecionar, mas por querer fazer pesquisa. Atuei no departamento de física. Fui convidado pelo departamento de física para ser o primeiro engenheiro pesquisador da PUC, onde trabalhei num dispositivo de medição em paralelo ao mestrado em engenharia eletrônica. Na verdade, já estava fazendo engenharia biomédica, pois trabalhávamos com dispositivos magnéticos do coração. Toda corrente elétrica tem um campo magnético associado a ele, e medir o campo magnético do coração fornecia melhores informações sobre a saúde fisiológica do coração do que medir o campo elétrico. Depois do mestrado, trabalhei como engenheiro pesquisador no Incor – Instituto do Coração de São Paulo no campo da engenharia biomédica e estudos do coração. Em seguida, fui fazer o doutorado. Fiz os créditos do doutorado e tinha a tese pronta, mas faltava alguém mais velho para me aconselhar a defendê-la e me tornar um doutor. Recebi um “convite” em 1982 de um homem mais alto do que eu, com um 38 cano longo, que queria levar meu carro no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Decidi deixar o Rio e, com minha esposa Valéria, nos mudamos para o interior de Minas Gerais, onde compramos terras e começamos a trabalhar com agricultura e pecuária. Fui professor na Federal de Uberlândia por um tempo, mas o grande problema de estar lá foi que atrasou o término do meu doutorado. Eu me encantei com a ideia de ser fazendeiro e decidi largar tudo para me dedicar à agricultura…Bem, estas foram as atividades mais relacionadas à engenharia, o que compreendeu ao todo uns seis anos após a formatura.

 

Como você decidiu deixar a engenharia eletrônica e se dedicar à consultoria a direitos humanos? Quais foram as suas motivações para esta transição?

Morava no Triângulo Mineiro, a 400 km de Brasília. Nessa época, fui eleito membro da Assembleia Nacional Baha’i, o órgão máximo da Comunidade Bahá’í no Brasil. Essa religião era bastante perseguida no Irã no início da década de 80, e nós sentimos a necessidade de ajudar os iranianos baha’is que sofriam perseguição em seu país. A Assembleia decidiu trazer alguns desses para receber refúgio aqui. E fui a pessoa encarregada de ir para Brasília para negociação com o governo. Só que na época, já entendia de boi, vaca, plantio de soja, milho e engenharia. Havia pedido licença sem vencimento da Universidade Federal de Uberlândia, mas não entendia de direitos humanos. Em 1986, começa a vinda dos refugiados iranianos ao Brasil, e eu era a pessoa que fazia as negociações com o governo brasileiro. Me apaixonei por essa área de relações com o governo e impactar o governo em políticas públicas que viessem ao benefício da sociedade. Tive que falar com vários ministérios, como o Ministério do Trabalho, Educação, Justiça e Itamarati. Comecei a trabalhar nisso enquanto ainda era apenas um membro da Assembleia Nacional. Me mudei do Rio de Janeiro para Brasília, quando fui eleito secretário nacional, que é o cargo executivo da instituição. Comecei a usar planejamento estratégico para fazer as coisas funcionarem. Decidi deixar de ser o executivo da assembleia nacional em 2002 e queria voltar a atuar no mercado, mas já não era mais um engenheiro eletrônico, pois essa área tinha sofrido uma reviravolta.

Precisava fazer uma transição de carreira e não tinha a quem apelar. Minha pergunta era: o que sei fazer, já que não me identifico mais com a profissão da engenharia? Cheguei à conclusão de que o que aprendi ao longo desses 16 anos (de 1986 a 2002) foi defender direitos. Então, junto com alguns amigos, criei uma ONG para servir de plataforma de defesa de direitos e fazer advocacy, ou seja, a defesa dos direitos de terceiros. Trabalhamos com questões raciais, de juventude, de mulheres, de crianças e adolescentes e de educação. Trabalhamos muito tempo com capacitação à distância, o que não existia naquela época (início dos anos 2000). Treinamos mais de 45 mil pessoas em projetos que receberam financiamento governamental do MEC, Ministério dos Direitos Humanos e outros para treinar gestores e defensores de direitos humanos. Essa ONG se chamava AGERE.

Nessa época, recebi um convite inusitado de um centro universitário de Brasília, porque um amigo meu trabalhava lá e o pessoal do departamento de relações internacionais queria me contratar para ser professor de Direito Internacional dos Direitos Humanos no curso, porque eles queriam a prática. Aí apareceu a prática dentro do sistema ONU de todos esses anos, com conferências sobre direito da criança, a conferência das Nações Unidas pelo meio ambiente (Eco-92/93), direitos humanos e população. Sempre estive envolvido com questões sociais, entendia direito internacional e Direitos Humanos e falava sobre como funciona o sistema ONU, quais são os mecanismos internacionais que operam dentro desse sistema, quais são as obrigações do Estado brasileiro perante o sistema e como se influencia o sistema através de uma incidência política dentro dele. As pessoas me viam trabalhando na ONG e fazendo os cursos de capacitações, e ao mesmo tempo tive a volta à vida acadêmica em que fiquei durante seis anos como professor universitário em Brasília. Onde criei o centro de estudos em direitos humanos, na UNIEURO.

 

Você poderia explicar melhor o que significa “compliance em diversidade” e como isso se relaciona com os direitos humanos?

Quando comecei a me interessar pelo compliance? As Nações Unidas criaram um movimento chamado “business and human rights” (empresas e direitos humanos) e eu me interessei por essa área. Escrevi até um artigo para uma revista internacional e fui galgando muito nessa área do setor corporativo e direitos humanos.

Nessa época, em 2004-05, fui convidado pela VALE SA, que estava revendo a sua política de direitos humanos, para produzir o manual de direitos humanos da empresa. Esse material pode ser encontrado no site, mas não aparece meu nome nos créditos, pois fiz como contratado. Tive a alegria de ter minha filha, Mariana, que acabara de se formar em direito, como minha assessora e consultora para trabalharmos juntos nesse material.

Quanto à diversidade, se uma empresa valoriza a diversidade, ela exige e monitora a presença da diversidade em todos os departamentos, pois acredita que a diversidade é um ativo importante para o crescimento da empresa. Por outro lado, uma empresa que não é consciente da sua diversidade não valoriza a diversidade e não permite que pessoas com valores extraordinários revelem esses valores em seu quadro funcional. Um dos fundamentos da vida corporativa é a empresa ser capaz de oferecer espaço para que todos os seus colaboradores revelem seu verdadeiro potencial. Isso é importante para o sucesso da empresa e para o planeta como um todo. A desvalorização ou segregação de pessoas impede que elas revelem todo o seu potencial dentro da empresa. O compliance fez com que as empresas tivessem um código de conduta, que define o que se espera da empresa e como seus funcionários devem se comportar no trabalho. Além disso, o compliance ambiental também se tornou uma parte importante do código de conduta da empresa.

 

Como você ajuda as empresas a promover a ética e os valores humanos em seu ambiente de trabalho? Você poderia compartilhar exemplos de projetos bem-sucedidos que você implementou nesse sentido?

A questão de promover a ética e os valores humanos em ambiente de trabalho passa por como ajudar as empresas a fazer isso numa perspectiva contra o racismo, voltada a Direitos Humanos ou empresas e direitos humanos. Por que as empresas chegaram à conclusão de que existe um deficit na questão de direitos humanos? Porque ao longo do tempo, essa dimensão de promoção e defesa de direitos no ambiente corporativo começou a ganhar relevância. As empresas estavam sendo processadas por discriminação, e o custo legal da defesa no judiciário era duplo. Primeiro, porque você tem que contratar vários advogados para defender a sua empresa, sendo que ela pode ser praticamente destruída, por praticar uma política contrária aos direitos humanos. Segundo, porque você destrói a sua imagem. Ninguém quer associar sua imagem a uma empresa violadora.

Quero compartilhar uma experiência engraçada sobre o que significa conhecer o outro dentro da empresa, pois a valorização da diversidade só é possível quando conhecemos as pessoas. Dei uma consultoria para uma empresa de grande porte, sem mencionar o nome, em uma planta no interior de um estado brasileiro em uma cidade pequena com menos de 20 funcionários. Pedi para que formassem pares, se apresentassem e falassem um pouco da sua história para se conhecerem de outra forma. O superintendente disse que não era necessário para ele, pois já conhecia todos. Achei estranho e perguntei se ele conhecia a vida pessoal de cada um. Ele respondeu que não, mas sabia o que cada um fazia na empresa. Este superintendente acabou fazendo par com um jovem operador de uma máquina de alta tecnologia que produzia itens específicos. E depois disse algo como “me envergonhei por ter dito que conhecia todos”, e com lágrimas nos olhos apresentou que o jovem era um pianista clássico que tocava no conservatório da cidade. Foi aí que ele percebeu que não sabia quem eram as pessoas com que estava trabalhando e como poderia falar em diversidade se nem sabia quem são as pessoas? Neste momento, disse que poderia encerrar a reunião e pedir um táxi para me levar embora. A partir dessa experiência, entendi que a valorização da diversidade só é possível quando conhecemos as pessoas e suas histórias.

 

É interessante notar que além de engenheiro e administrador, você é coach. Em sua opinião, como o coaching pode ser útil para profissionais que desejam melhorar sua compreensão e prática dos direitos humanos?

O coaching leva à autoanálise e ao autoconhecimento, pois se não se conhecer durante o processo, não se alcançará bons resultados. É um processo de autoconhecimento das verdadeiras capacidades e potencialidades, bem como das crenças que limitam ou impulsionam. Não é um processo da psicoterapia ou análise psicanalítica. Quando se conhece a si mesmo, reconhece-se a dimensão humana do outro. Caso contrário, perde-se essa dimensão, já que não se conhece a si mesmo como humano. O processo de coaching inclui tudo isso, pois se não for assim, não se consegue ajudar. Sendo assim, pode auxiliar muito na compreensão e prática dos direitos humanos.

 

Você poderia compartilhar desde quando tem interação com a ONU? E quais são as principais características de sua atual função como consultor na área de Direitos Humanos?

A minha atuação mais impactante no sistema ONU foi em 2001, na Conferência Mundial contra o Racismo que aconteceu em Durban, na África do Sul. Em 2009, houve a avaliação de resultados, numa outra conferência, onde participaram os estados nacionais que compõem a ONU. Eles escolhem um presidente do comitê principal, cinco vice-presidentes e um relator do comitê principal. O Estado brasileiro convidou-me para representá-lo como relator, e tive a validação da sociedade civil brasileira, principalmente o movimento de mulheres negras, que é o mais atuante nessa questão da defesa da questão Negra.

Em 2021, fui contratado para fazer uma resenha, na forma de livro, do que foram os 20 anos pós-Durban, o que suscitou um movimento novo no Brasil de retomada de todos os preceitos, de todas as propostas que foram aprovadas em Durban, para levarmos estas propostas de uma forma mais contundente dentro do próprio sistema.

Houve uma iniciativa de resgate e reforço da agenda de Durban em 2020, coordenada por quatro organizações negras, incluindo a organização Geledés, a Rede de Mulheres Negras Crioula do Rio de Janeiro, e a Coalizão Negra por Direitos, que é uma colisão de várias organizações negras. A Comunidade Baha´i também foi convidada. Estas organizações trabalharam muito fortemente numa incidência junto às Nações Unidas em novembro do ano passado quando o Brasil foi avaliado com relação à sua política para com a população negra brasileira e a eliminação do racismo no Brasil.
Minha atual função é empoderar e fortalecer a capacidade das pessoas, notadamente no Instituto Geledés, para que possam atuar e gerar seus próprios quadros. Me sinto muito feliz com esse momento de carreira.

 

Qual seria sua mensagem final para esta entrevista?

Meu primeiro conselho para todos é: estude o que você ama, não importa o que seja. É o seu amor que revela o seu potencial. Depois, lembre-se que você tem um par de ouvidos e apenas uma boca, fique atento para onde as coisas se direcionam e veja onde você pode ofertar o melhor que tem de si. O estudo que você realizou poderá lhe conduzir por esse caminho. Esteja atento às oportunidades. Em terceiro lugar, seja ousado. Ouse arriscar. Se você ama o que faz, revelou o seu potencial e está com os ouvidos abertos, escutando tudo ao seu redor, você vai ouvir um chamado. Quando ouvir esse chamado, siga e seja feliz.

Lições de carreira

Ao longo desta entrevista, Iradj Eghrari compartilhou sua trajetória profissional inspiradora, que o levou de engenheiro eletrônico a consultor na ONU em Direitos Humanos. Sua experiência em compliance e direitos humanos o capacitou para assumir este importante papel de consultor e trabalhar em prol de um mundo mais justo e igualitário. Acredito que a história de Iradj possa servir como um exemplo inspirador para todos que buscam seguir carreiras impactantes em diversas áreas e fazer a diferença no mundo.

Grato pela leitura. Nos encontramos no próximo!

Abraço, Jonny

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