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Da Fuga do Irã ao Triunfo no Brasil: A Inspiradora Jornada de Mehran Ramezanali
12 de Março de 2024

Da Fuga do Irã ao Triunfo no Brasil: A Inspiradora Jornada de Mehran Ramezanali

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Por Prof Jonny 12 de Março de 2024 | Atualizado 12 de Março de 2024


Mehran Ramezanali é nascido no Irã e há mais de três décadas reside no Brasil. Ele tem graduação e mestrado em Administração de Empresas pela FURB, Especialização em Gestão Universitária pela UDESC e é doutor em Administração pela UNIVALI. Atualmente, é pró-reitor de administração da UNIDAVI, em Rio do Sul-SC, professor titular da disciplina de Marketing e Pesquisa de Mercado. Membro do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina. Avaliador do curso pelo INEP/MEC. Ele é autor do livro “Rota para Liberdade”, que conta sua jornada como refugiado do Irã ao Brasil. Nesta entrevista, Mehran nos brinda com uma mensagem de fé e coragem.

 

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Muito grato por sua contribuição para nossa coluna. Sua história de vida é inspiradora. Como a experiência de fugir do Irã como refugiado por motivos religiosos influenciou suas escolhas de carreira e seu desenvolvimento profissional? Qual foi exatamente o motivo de ter sido perseguido em seu país?

Acredito que a experiência de fugir do Irã e o seu propósito teve influência total em todas as decisões da minha vida. Iniciei a minha carreira profissional como marceneiro e ainda estudando diariamente a língua portuguesa com o objetivo de participar no vestibular para ingressar no curso superior. Primeiramente, iniciei o curso de engenharia química e depois, ao refletir melhor sobre o futuro e também de certa forma, aquele curso estava dentro das minhas condições econômicas na época, ingressei no curso de administração com intuito de trabalhar na área administrativa na indústria. Em condição de refugiado no Brasil, não poderia estudar nas universidades públicas e as mensalidades nas universidades particulares na época eram bastante significativas na decisão da escolha de curso.

O principal motivo de sair do Irã na década de 80 foi a perseguição religiosa exercida pelo governo islâmico sobre os bahá’is. Outro fator que teve influência na minha decisão de fugir do país foi a guerra entre Irã e Iraque, que impossibilitava jovens com 18 anos de idade de trabalhar sem ter concluído o serviço militar. Nesse sentido, sempre estaria fugindo dos guardas militares para não ser abordado nas ruas da cidade, obrigando assim os jovens a participarem na guerra.

 

Ao chegar ao Brasil, você teve que superar desafios significativos, incluindo a barreira do idioma. Como você encarou esses obstáculos e como eles moldaram sua trajetória acadêmica e profissional?

O idioma foi um dos desafios, pois eu não tinha conhecimento da língua portuguesa e da cultura brasileira. Apesar de ter conhecimento da língua inglesa, isso não foi útil para mim, mesmo morando numa cidade de imigrantes alemães. Para vencer esse desafio, dediquei-me diariamente a estudar português e o fato de trabalhar desde o início da minha permanência em Blumenau também me ajudou a aprender o português popular, mas confesso que ainda não tenho fluência na língua portuguesa. Sempre sonhei em ingressar na universidade, ter um diploma universitário e isso me motivou muito a aprender o idioma.

 

No seu currículo Lattes, consta que já sua graduação foi realizada no Brasil. Portanto, qual era seu nível educacional e experiência profissional quando chegou ao país? E quais atividades profissionais teve antes de concluir a graduação?

Quando saí do Irã, tinha terminado o segundo grau, mas, em função de ser bahá’i, não poderia ingressar no curso superior. O governo não permitia que os jovens bahá’ís prestassem vestibular para ingressar nos cursos superiores, e ainda hoje os Bahá’ís não têm esse direito de estudar curso superior nas universidades públicas e também privadas no Irã.

Quando cheguei ao Brasil, após dois meses residindo em Mogi Mirim, especificamente no Centro Educacional Bahá’i, até escolher uma cidade para me estabelecer, mudei-me para Blumenau, em Santa Catarina. Comecei a trabalhar em uma marcenaria como auxiliar marceneiro, a única experiência profissional que tinha e poderia aproveitar. Em função da instabilidade e perseguição permanente no Irã, tive que trabalhar em diversas empresas informalmente para aprender alguns ofícios, como soldador e marceneiro.

 

Como sua trajetória de professor e pró-reitor de administração na UNIDAVI tem contribuído para sua visão sobre o ensino superior e a gestão universitária? E quais foram os principais desafios enfrentados na pró-reitora?

A vontade de estudar me motivou logo depois de terminar o curso de graduação em administração a fazer uma pós-graduação na área para conseguir melhores oportunidades de trabalho. Depois, pensei em ingressar em um mestrado com o intuito de lecionar futuramente. No decorrer do curso, surgiu a oportunidade de lecionar uma disciplina na Unidavi em Rio do Sul e aceitei o desafio, mesmo residindo a quase 100 quilômetros de distância. Acredito que isso foi o início da minha carreira acadêmica, pois logo em seguida assumi a coordenação de um setor (laboratório de turismo) na instituição e, meses depois, mudei-me com a família para a cidade de Rio do Sul. Anos depois, assumi a coordenação do curso de administração e, posteriormente, na atual gestão, tive o privilégio de ser nomeado pró-reitor de administração. Tem uma frase do Rumi que me marcou: “Quando você começa a caminhar, o caminho aparece”, e a minha trajetória sempre foi dessa forma, confiando no destino que Deus me traçou.

A pró-reitoria de administração é bem desafiadora, pois além de ser responsável pela infraestrutura física da instituição, também tem o desafio da gestão financeira e da sustentabilidade da Unidavi. A pandemia de Covid-19 foi o desafio mais importante no início da gestão; em seguida, enfrentamos outros desafios climáticos na região que exigiram alto investimento e adaptação da estrutura física e tecnológica.

 

Desde 2023, você atua como membro do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina. Quais são as principais responsabilidades desse cargo?

Tive a honra de ser nomeado como conselheiro do Conselho Estadual de Educação em 2023. Outro desafio importante na minha caminhada acadêmica, posso dizer que estou aprendendo com os colegas conselheiros experientes a trabalhar nesse órgão tão importante, que tem um papel relevante e indispensável na educação catarinense. A minha responsabilidade é honrar a oportunidade concedida pelo governador e contribuir da melhor forma possível na execução da missão com a minha experiência acadêmica como professor, gestor e avaliador de cursos pelo INEP.

 

Seu livro “Rota para a Liberdade” certamente deve inspirar muitas pessoas. Qual foi a motivação para escrever este livro e qual mensagem você espera transmitir aos leitores através dele?

A ideia de escrever o livro vem de muito tempo, desde que cheguei ao Brasil, motivado por amigos e também desejado por mim, pois pensei em compartilhar a minha aventura e os desafios que enfrentei para fugir pelo deserto em busca de uma oportunidade para estudar, independentemente de país ou localidade. Sempre imaginei que a minha história pode, de certa forma, divulgar a história de milhares de jovens bahá’i que estão passando pela mesma situação no Irã, para os leitores no Brasil, e servir de estímulo para os jovens brasileiros fazerem curso superior e seguirem seus sonhos.

 

Como alguém que escolheu o Brasil há mais de três décadas, e conseguiu obter êxito em sua jornada profissional, qual seria sua mensagem final para esta entrevista, visando contribuir com alguém em início ou fase de transição de carreira?

Escolhi o Brasil sem conhecer e sem ter informações antecipadas sobre a cultura, o idioma e a economia. Hoje, tenho o Brasil como a minha segunda pátria e não me arrependo de ter escolhido este país, mesmo com os desafios e obstáculos que enfrentei nessas três décadas. A minha mensagem para os jovens seria de não desistirem dos seus sonhos e de confiarem no seu potencial e inteligência. A questão mais importante é ter fé em Deus e acreditar nas escolhas que Ele nos proporciona. Aprender e estudar constantemente, pois quanto mais conhecimento e habilidades você adquirir, mais sorte terá na vida profissional.

 

Lições de carreira

A jornada de Mehran Ramezanali é um exemplo vivo de como a determinação pode transformar desafios em oportunidades. Sua coragem em fugir do Irã como refugiado, sua dedicação em aprender português e sua ascensão acadêmica e profissional no Brasil inspiram-nos a enfrentar nossos próprios obstáculos com resiliência e esperança. Sua mensagem final, de confiar no potencial e na inteligência, ressoa como um convite para nunca desistirmos de nossos sonhos.

Em recente oportunidade que tive, ao visitar a UNIDAVI em Rio do Sul, declarei tanto no podcast quanto durante a palestra que lá proferi para os professores da Instituição que tenho gratidão de poder chamar Mehran como amigo. Na atual realidade da sociedade, acredito que pessoas que norteiam suas vidas por princípios têm muito a nos ensinar. A proibição do acesso à educação superior no Irã é algo inimaginável para sociedade ocidental, mas é uma realidade muito dura para ser esquecida.

Espero que esta entrevista tenha lhe servido como inspiração para persistir com coragem e fé em sua carreira.

Nos encontramos no próximo artigo!

Abraço, Jonny

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