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Construindo uma Carreira com Significado: Reflexões de Ismar Becker
23 de Maio de 2024

Construindo uma Carreira com Significado: Reflexões de Ismar Becker

Empresário tem especialização em instituições como Harvard e Insead

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Por Prof Jonny 23 de Maio de 2024 | Atualizado 23 de Maio de 2024

 

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Ismar Becker é Administrador, Empresário, Conselheiro e Palestrante. Ele tem especialização em instituições como Harvard e Insead, tendo dirigido empresas no Brasil e exterior. Considero que ele seja um visionário que desbravou mercados internacionais e superou crises econômicas. Nesta entrevista, ele nos oferece uma visão única sobre gestão estratégica e outros aspectos. Suas histórias inspiradoras e lições valiosas são um guia para aqueles que buscam sucesso em suas carreiras.

 

Agradeço muito por sua contribuição para nossa coluna. Considero que será de grande valor ao nosso público. Em relação ao início de sua jornada, seu estágio na Alemanha nos anos 80 foi influenciado pelo conselho de seu pai sobre correr riscos. Como essa experiência moldou sua abordagem em relação ao risco e às oportunidades ao longo de sua carreira?

Na minha página do LinkedIn, compartilho que minha vida é uma sucessão de planejamento e oportunidades, uma lição que aprendi com meus pais. Essas oportunidades, porém, nem sempre são previsíveis. Em 1978, morava em Brasília e estudava na UnB, onde era comunista. Lembro-me de uma frase de Roberto Campos, avô do atual presidente do Banco Central, que dizia: “Quem não foi comunista quando jovem não tem coração, e quem continua depois não tem razão”. Sei que minha jornada política pode desagradar algumas pessoas, mas é importante destacar que, na juventude, participei ativamente de movimentos estudantis. Na UnB, durante o governo militar do General Geisel, houve uma greve em que me envolvi. Após essa experiência, meu pai, que na época era Senador da Arena, partido de apoio ao governo militar, decidiu me enviar para um estágio em uma fábrica de porcelana na Alemanha. Essa oportunidade foi transformadora. Em 1980, embarquei para a Alemanha, minha primeira viagem internacional. A chegada foi um desafio, pois não falava alemão fluentemente. Com dificuldade, consegui me comunicar e seguir viagem para Nuremberg, onde iniciei um estágio de três meses. Essa experiência não só aprimorou meu alemão, mas também mudou minha perspectiva de vida. A partir daí, enfrentei os desafios com mais tranquilidade e determinação. Essa jornada de superação e aprendizado moldou minha forma de encarar os desafios e oportunidades da vida. Acredito que, mais do que decisões, são os acontecimentos inesperados que nos moldam e nos fazem crescer.

 

Você liderou as exportações da Oxford Porcelanas em um período de crise econômica no Brasil, expandindo esta operação para mais de 90 países. Diante da crise econômica enfrentada pelo Brasil nos anos 80, como você utilizou seu conhecimento para reverter a situação e expandir as exportações? Quais foram as três principais ações realizadas?

Meu pai era uma pessoa brilhante, mas enfrentou desafios difíceis desde cedo. Perdeu o pai aos 13 anos, o que causou instabilidade financeira na família. Mesmo assim, ele se tornou um empreendedor nato e, quando retornei da Alemanha, comecei a trabalhar em outra empresa em Joinville. Após um ano, comecei a trabalhar na empresa da família, inicialmente na área de compras e depois na área industrial. Na época, o mercado brasileiro estava em alta, e a Argentina era um grande comprador. Porém, houve uma mudança de governo na Argentina, seguida por uma desvalorização da moeda, o que afetou severamente nossos mercados na América do Sul. Para lidar com a crise, decidimos expandir para mercados nos Estados Unidos e Europa.
Mesmo sem experiência internacional, meu pai me incentivou a liderar essa expansão. Com pouco planejamento, comecei a viajar, aprendendo na prática. Primeiro, nos Estados Unidos e depois na Europa. Essa abordagem “learning by doing” foi fundamental para o sucesso da nossa expansão. Quando saí da empresa em 1997, estávamos exportando para mais de 90 países, um crescimento significativo em relação aos seis países para que exportávamos em 1982. Essa experiência mostrou a importância de estar aberto a novas oportunidades e de aprender com os desafios que a vida nos apresenta. Foi uma lição valiosa que carrego comigo até hoje.

 

Ao assumir a direção da Oxford Ireland, você enfrentou desafios significativos devido à economia aberta e à baixa inflação. Quais foram os maiores desafios que enfrentou e como essas experiências moldaram sua visão sobre administração de negócios em economias estrangeiras?

Essa fase da minha vida teve um início totalmente inusitado em 1992, quando a Comunidade Econômica Europeia estava prestes a se tornar a precursora da União Europeia. Como a Europa era nosso principal mercado na época, a diretoria considerou importante termos uma base lá. Compramos uma empresa na Irlanda, minha ida foi uma decisão tomada rapidamente, pois um executivo designado para ir à Irlanda teve que desistir da viagem uma semana antes, devido à esposa.
Como eu era o único que falava inglês, acabei sendo enviado para a Irlanda com minha esposa e dois filhos pequenos. A mudança foi um desafio, especialmente porque a inflação na época era muito baixa, algo que eu não estava acostumado, vindo do Brasil. Pouco depois de chegar lá, aprovei um aumento de dois e meio por cento referente ao ano anterior e este aumento iria vigorar por mais um ano, enquanto a nossa situação no Brasil era de 1% ao dia. Fui chamado a atenção com uma observação: “Você sabe quanto foi a inflação do ano passado?” (de fato, esta tinha sido de 1,2% no ano). Felizmente, desde o plano Real, não temos mais hiperinflação, pois ela quebra todas as leis de negócio e por mais incompetente que você seja na produção, se o custo subiu 10 então aumenta 15, mas sem esse tipo de inflação, a realidade torna-se bem diferente para as empresas.
A vivência na Irlanda foi enriquecedora. Éramos uma das poucas famílias brasileiras lá, o que nos tornava exóticos. O país era acolhedor e tinha uma cultura “meio latina”, o que facilitava a adaptação. Hoje em dia, há muitos brasileiros na Irlanda, mas naquela época éramos uma minoria. Foi uma experiência única que ampliou significativamente minha visão de mundo e de negócios.
Quando retornei, tentei mostrar aos outros diretores, que a abertura do mercado, e a reduçao sa inflação iam mudar as regras do jogo. Lamentavelmente não consigui passar a mensagem, ate porque a empresa era muito lucrativa. Decidi que deveria sair, mais acabei ficando mais quatro anos. Foi um dos maiores erros da minha vida.

 

O Programa de Gestão Avançada (PGA) no Insead ampliou sua visão sobre práticas comerciais e networking. Como a participação neste programa impactou sua abordagem de negócios e networking, especialmente em relação às práticas comerciais que viriam a ser adotadas no Brasil?

Em 1992, surgiu a oportunidade de participar do Programa de Gestão Avançada (PGA) da Fundação Dom Cabral, que na época estava começando, diferente do que é hoje. O INSEAD, uma das melhores escolas de negócios do mundo, foi a primeira escola de negócios da Europa a oferecer cursos em inglês, algo revolucionário na época. Eu participei da turma 2 do PGA, que ainda contava com tradução simultânea devido à presença de muitos participantes que não falavam inglês fluentemente.
O nível de conhecimento e networking lá era excepcional. Foi um ambiente muito enriquecedor, mas também desafiador, especialmente quando voltei ao Brasil após dois anos. Decidi sair da empresa da família para empreender, o que gerou conflitos na relação com meu pai, o que me fez perceber que deveria ter saído antes para preservar nossa relação familiar.
A experiência no INSEAD foi fundamental para minha formação como empreendedor. O curso foi caro, cerca de 20.000 dólares em 1992. Minha esposa apoiou minha decisão de sair da empresa depois. Acabei ficando mais tempo na empresa do que deveria, enfrentando desafios na implementação de mudanças que havia visto na teoria. Essa experiência me ensinou a importância do networking e da capacidade de comunicação na gestão de mudanças em uma empresa.

 

A criação da Shiva Export&Import foi inspirada na filosofia hindu de “destruir tudo ao final do dia para começar melhor o dia seguinte”. Como essa filosofia influenciou sua abordagem empreendedora ao fundar sua própria empresa?

Pedir demissão da empresa foi uma decisão difícil, mas necessária. Durante os seis meses de aviso prévio, preparei um sucessor e, no último dia, uma coincidência incrível aconteceu: um assessor nosso me presenteou com o livro (Vivendo na Luz , de Shakti Gawain escreva aqui o título, pois houve corte na gravação). Esse livro inspirou o nome da minha empresa, baseado na filosofia de Shiva, o deus da destruição na tradição hindu. Algum tempo depois, em Buenos Aires, vi uma loja com uma estátua enorme de Shiva. Decidi comprá-la, e o vendedor me alertou sobre a força do deus Shiva, dizendo que ele poderia mudar minha vida. Ele estava certo. A influência de Shiva na minha vida e na empresa tem sido transformadora.

 

Sua decisão de cursar o Owner/President Management (OPM) na Harvard Business School resultou na aquisição da massa falida da Leipold na Alemanha. Como essa decisão impactou suas escolhas de carreira subsequentes?

Essa experiência foi mais um divisor de águas em minha vida. Em 2013, aos 55 anos, percebi que estatisticamente tinha mais passado do que futuro, e decidi me reciclar. Fiz o Owner/President Management (OPM), um “mini MBA” muito renomado no Brasil, onde tive a oportunidade de aprender com grandes nomes, como John Davis, referência em gestão de empresas familiares. O OPM é uma experiência intensa, onde você passa por uma verdadeira lavagem cerebral, mudando totalmente sua visão de negócios.
Durante os três anos do curso, percebi a importância do aprendizado contínuo, algo que compartilho em minhas postagens no LinkedIn. Um livro que me marcou nesse posteriormente foi “Lifelong learners – o poder do aprendizado contínuo”, de Conrado Schlochauer, que recomendo vivamente.
No primeiro ano do curso, você avalia o que fará com o seu negócio, seja expandir, vender, fazer fusões, entre outras decisões estratégicas. No segundo ano, aprofunda suas ferramentas de gestão com base no aprendizado do primeiro ano, enquanto o terceiro ano foca em questões mais holísticas, como equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Após o primeiro módulo do curso, decidi fazer mudanças significativas em meus negócios. Fechei duas empresas e foquei em uma de decalcomania, que percebi ter mais potencial. Essa decisão foi um desafio, mas me trouxe mais satisfação e alinhamento com minhas habilidades e objetivos.
Quando retornei para o segundo ano do curso, já pude perceber os impactos positivos que ele teve em minha vida e carreira. A coordenadora do curso, Lynda Applegate, ficou surpresa com a seriedade que levei as mudanças propostas, mas para mim, foi claro desde o início que essa era a direção que eu queria seguir.

 

Sabemos que existe uma considerável demanda no Brasil para Conselheiros Consultivos, por outro lado, ainda existem várias empresas que sequer formaram seus conselhos. Quais ações você recomendaria para os empresários que desejam criar seus conselhos, mas têm desafios a enfrentar?

Essa é uma pergunta difícil de passar a mensagem. Eu fiz o curso no CELINT depois do primeiro ano de Harvard, apareceu uma oportunidade de comprar uma empresa na Alemanha e foi uma irracionalidade total, porque eu soube que tinha quebrado no dia 27 de novembro e comprei ela no dia 6 de janeiro. Fazer isso não tem manual nenhum de administração, que a gente precisa fazer um negócio desse foi uma experiência incrível. Temos uma estrutura enxuta da empresa no Brasil, Eu faço o papel de Chairman, mas eu estou meio no conselho então não estou no dia a dia da empresa. Então pensei: o que que eu vou fazer com o meu tempo? Eu não sou workaholic, eu sou o workalover, é uma outra categoria, uma doença no nível um pouco mais elevado. Acordo 4:00 da manhã, vou para a academia as 05:00hs e durmo lá pelas 11 horas meia-noite. Daí quando eu voltei da Alemanha vi um conflito de gerações na Associação Empresarial, da qual tinha sido presidente com 27 anos. Ai a velha guarda (mais do que eu) sugeriu que eu poderia ser um caretaker entre jovens, como é que eu vou falar? E foi muito legal, Tivemos uma evolução incrível, e implantamos um projejto de sucessão na Entidade. São Bento é um município pequeno, em torno de 82 mil habitantes. Este mudança da Associação chamou a atenção e, por isto, fui lançado candidato à prefeito . Felizmente não ganhei. Daí meu filho mais velho sugeriu que poderia atuar como conselheiro, o que em geral precisa de uma marca.
Então, acabei fazendo uma mentoria no LinkedIn, tenho 40.000 seguidores. Escrevo um post por dia. Que é um exercício incrível de aprendizagem, e quando você ensina, aprende mais, você sabe isso melhor do que eu. E fiz um curso no CELINT, que foi espetacular. Estou no conselho de uma empresa. Existe evidentemente uma definição sobre o papel para o conselheiro, mas dependendo da empresa, resolvi me especializar em empresas familiares que é um do trabalhei não tem uma receita “one size fits all”, ou seja não existe uma receita única, cada caso é um caso. Tem uma citação de Tolstói, em um dos livros dele, que todas as famílias felizes são felizes iguais e todas infelizes são infelizes à sua maneira, se você aplicar isso para empresa familiar cada uma é a sua maneira uma constelação familiar, uma cultura. E hoje eu faço isso numa empresa só. Quero fazer uma coisa onde eu posso realmente agregar valor e hoje tenho um padrão de vida muito bom e posso me dar o luxo fazer aquilo que eu gosto quando eu faço que eu gosto eu faço melhor. Enfim, é uma carreira muito interessante, mas não é um Nirvana. Enfim, existe um processo de evolução da governança que pode começar com assessor, mentor, depois migrar eventualmente para consultivo, deliberativo ou de administração. Para empresas familiares, a melhor visão é a de John Davis, que é o modelo dos três círculos: propriedade, gestão e família. Você pode ser propriedade familiar e pode ser executivo, e cada um tem uma visão do negócio.

 

Com base em sua larga experiência profissional, como empresário e conselheiro, qual seria sua mensagem final para esta entrevista?

Fazer um resumo disso é complicado. Cada pessoa evidentemente tem seus sonhos, suas ambições. Eu não recomendo para todo mundo fazer o que eu fiz, porque eu falei da parte boa. Podia falar fácil da parte ruim, mas teríamos que ter mais umas 3 horas, mais ou menos. Brincadeiras à parte, quando escrever uma biografia, vai ter dois terços assim, as besteiras que eu fiz, e um terço o que deu certo, mas só deu certo por causa das dores. Vamos voltar para a base da pirâmide de Maslow, a segurança, organização. Só faço uma coisa que realmente me sinto bem fazendo, porque aí eu sei que eu posso contribuir. Eu acho que essa é uma lição que vale para todo mundo, na hora que você faz alguma coisa que você se sente bem, sempre está contribuindo, está agregando valor. Toda a nossa história é isso que dá valor, você vai fazer melhor, nesse momento, você está entregando mais do que você recebe, você está bem com você mesmo. Há pessoas que financeiramente estão muito melhor do que eu, mas são infelizes. Eu não troco dinheiro por satisfação de trabalho. É importante ter visão sobre suas forças, Peter Drucker, que deveria ser leitura obrigatória em todos os cursos superiores, diz: “foque nas suas fortalezas, saiba quais são suas fraquezas, mas tenha foco nas suas fortalezas”. Isto me lembra da frase “encontre uma coisa que você gosta de fazer e você nunca mais irá trabalhar na vida”. Um bom professor, um bom gestor, um bom médico, um bom dentista, enfim, um bom profissional, se ele está feliz com aquilo que ele faz, ele faz melhor.

 

Lições de carreira
Conheci Ismar Becker num evento sobre Governança em Joinville no final de abril, em que ele era um dos palestrantes. Durante nossas conversas, descobri que tinhamos um contato em comum, pois seu filho havia sido meu aluno no curso de Engenharia Mecânica alguns anos antes. Também percebi um genuíno interesse dele em compartilhar conhecimento e prontamente o convidei para esta entrevista.
Suas experiências e insights nos mostram que a verdadeira riqueza está na satisfação e no significado que encontramos em nosso trabalho. Suas palavras nos inspiram a buscar o equilíbrio entre ambição e realização pessoal, lembrando-nos de que, ao fazermos o que amamos, alcançamos não apenas sucesso, mas também felicidade e plenitude.

Grato pela leitura. Nos encontramos no próximo artigo!

Abraço, Jonny

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