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Conheça Lúcia Mees, a jovem empreendedora que está transformando o futuro das cidades inteligentes
18 de Abril de 2023

Conheça Lúcia Mees, a jovem empreendedora que está transformando o futuro das cidades inteligentes

Executiva desenvolveu projetos com organizações como NASA, Coca Cola, Universidade de Oxford

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Por Prof Jonny 18 de Abril de 2023 | Atualizado 18 de Abril de 2023

. Lúcia Mees é líder de Tecnologia e Inovação na IPM, empresa brasileira de 800 colaboradores focada em Smart Cities e tecnologia para gestão pública (GovTech). Ela é formada em Engenharia Eletrônica e da Computação, Ciência da Computação, e Economia Financeira pela Duke University (EUA), tem especialização em transformação digital pelo MIT, e está iniciando seu mestrado pela Universidade de Chicago, onde também fez especialização em Fintech. Nos últimos 5 anos, Lúcia desenvolveu projetos com organizações como NASA, Coca Cola, Universidade de Oxford, Fundação Bill & Melinda Gates, atuou na construção de drones para pesquisa em áreas tropicais, e na estruturação e aceleração de startups internacionais. Nesta entrevista, ela nos conta sobre algumas decisões de sua carreira internacional, suas principais realizações e muito mais.

 

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Agradeço sua disposição em contribuir com nossa coluna sobre carreira. Considero sua trajetória impressionante, que deve servir de inspiração para jovens profissionais. Quais decisões você considera que foram mais estratégicas no início de sua carreira que contribuíram para lhe levar ao momento atual?

Por mais estranho que pareça, minhas duas decisões mais estratégicas de carreira centram-se em uma temática comum: ir do Brasil para os Estados Unidos, em 2015, e voltar dos Estados Unidos para o Brasil, em 2021. Ou seja, a escolha de ir, e a escolha de voltar. Foram duas decisões bastante impopulares e pouco compreendidas, mas que me permitiram impulsionar minha carreira e impacto em um patamar que eu jamais imaginaria. Vejo que estar onde estou aos 25 anos, ocupando minha posição atual desde os 23, não é algo ordinário.

Já aos meus 17 anos, tomei a decisão de que eu faria tudo ao meu alcance para entrar na melhor universidade do mundo que fosse possível, com foco nas 20 melhores instituições globais. Meu objetivo era aprender com os maiores ecossistemas de inovação do mundo, construir projetos com pessoas que estavam definindo as fronteiras da tecnologia, e me desafiar ao máximo academicamente e profissionalmente, em um ambiente de excelência. Esse pensamento iniciou um pouco antes, quando aos 15 anos conquistei minhas primeiras aprovações em universidades públicas no Brasil, tendo o melhor desempenho nos simulados da escola dentre todos os alunos do Ensino Médio, inclusive dos estudantes 2 anos mais velhos. Então, parti para a busca de um próximo grande desafio, e o encontrei no exterior. Foi uma decisão que firmou minha autonomia e, de certa forma, rebeldia em seguir o que seria melhor para mim, independentemente de percepções externas.

Minha família me apoiou nesse processo, apesar de ter apenas 10 meses para me preparar do zero e praticamente sozinha, competindo com pessoas que estavam se preparando desde o Ensino Fundamental. Eu não tive nada disso, e nem sequer tive apoio da minha escola, que até o último minuto tentou me convencer a trilhar um caminho diferente, no Brasil. Isso tudo em um processo que foi muito além de estudar para os ENEMs estrangeiros, pois os processos seletivos das universidades globais avaliam todo seu perfil: notas, dificuldade do currículo acadêmico, atividades extracurriculares, prêmios recebidos, projetos, pesquisa, entrevistas, cartas de recomendação, redações pessoais, fluência em idiomas, dentre outros. E, nas universidades que eu queria, muitas vezes só havia um brasileiro aprovado por ano. Por que não seria eu?

Nessa época, em Florianópolis, eu vivenciei uma resistência enorme em relação à ideia de buscar algo diferente: até a formatura no Ensino Médio, passei por conversas com professores e tentativas de me convencer a focar nos cursos mais competitivos da UFSC, especialmente a Medicina. Afinal, eu tinha um excelente desempenho acadêmico, então na visão da escola e das pessoas, o caminho de sucesso seria ir estudar no curso mais competitivo de uma federal. Não faria sentido eu abandonar as excelentes instituições que temos em SC e no Brasil por algo incerto, algo que as pessoas não conheciam e nem entendiam muito bem. Mas meu foco e pensamento era outro: ‘até onde consigo chegar para construir meu futuro, e quais as melhores oportunidades que consigo conquistar?’

Resolvi então me dedicar para entrar nas universidades de ponta globais. Essa foi a primeira grande decisão, que culminou em aprovações em algumas das instituições mais renomadas do mundo, incluindo a melhor universidade para computação, a melhor de administração, e por aí vai. Escolhi a Duke University por ser uma instituição mais inovadora e mais focada na graduação, enquanto outros grandes nomes tendiam pelo lado mais tradicional e focado em Mestrados e PhDs. E detalhe: fui a única pessoa vinda do Brasil dentre todos estudantes de graduação de todos os cursos que entraram em Duke naquele ano. Algo nada trivial, e que só descobri ao chegar no campus e receber o livro com nomes e origens de todos os 1632 estudantes da Class of 2020 (turma que se formaria em 2020, incluindo todos os cursos de todos os departamentos de Duke).

Eu considero essa decisão extremamente estratégica porque fugiu do senso comum, envolveu uma enorme dedicação e perseverança, precisando realmente ignorar todo o ruído e incentivos externos contrários, e foi o ponto que iniciou diversas outras oportunidades. Logo na primeira semana de aula, fui eleita presidente da Classe de 2020, me tornando líder desses 1632 estudantes, dentre todos os cursos. A partir dali, iniciei projetos com a Coca Cola, NASA, Oxford, XPRIZE, criei duas startups, assumi a liderança de algumas organizações estudantis, trabalhei em Nova York, Detroit, Durham, São Paulo, dentre muitas outras iniciativas. Foi, com toda certeza, um período que me permitiu construir uma trajetória excepcional onde os limites dependiam somente de mim.

A segunda decisão estratégica foi ao final de 2020, quando eu já estava com uma carreira bem estabelecida em um cargo e empresa dos sonhos em Nova York. Eu trabalhava com fusões e aquisições (M&A) com foco em empresas de tecnologia, participando de projetos internacionais em uma equipe de profissionais fora da curva, e exposição direta ao ecossistema de inovação global. Eu estava tendo um desempenho excelente em meu time, em trajetória de crescimento acima do meu tempo de casa. Ou seja, para qualquer pessoa que olhasse externamente, eu estava em um momento dos sonhos! E é aí que tomei minha decisão mais impopular e incompreendida de carreira: pedi demissão, arrumei as malas, e decidi vir trabalhar no Brasil. Isso, para piorar, em plena pandemia.

Aqui, eu imagino que você também possa não estar entendendo muito bem o que aconteceu, e por isso explico. O mesmo motivo que me levou aos EUA foi o que me trouxe de volta para o Brasil: o desejo de construir uma carreira de impacto e propósito, em ambientes onde eu pudesse realmente fazer a diferença e encontrasse desafios motivadores. Enquanto em 2015 esse ambiente era os EUA, após formada eu vi a oportunidade de ter uma contribuição maior no Brasil, onde a minha trajetória até então me permitia um destaque maior, e minha idade ou nacionalidade não seriam empecilhos. Afinal, na América do Norte, eu sempre teria algumas limitações pelo fato de não ser cidadã americana, e precisaria navegar ambientes muito mais restritos e engessados por isso. Mas eu não decidi voltar somente por esse motivo, claro.

Além disso, eu buscava um ambiente mais saudável, ou ao menos sentir que o que passo tanto tempo fazendo é algo que importa para a sociedade. Meu padrão nos EUA era estudar ou trabalhar mais de 100 horas por semana, 7 dias por semana, virando noites com frequência. Parece exagero, eu sei, mas tínhamos tudo registrado para alinhar prioridades e projetos quando a jornada semanal se aproximava ou ultrapassava as 120h. Isso, infelizmente, aconteceu algumas vezes.

Não posso dizer que estava tudo bem, mas o pior era trabalhar em um ritmo insano, sem tempo para comer ou dormir direito, e sentir que meu trabalho não era algo com um impacto positivo na sociedade, ou ao menos não me permitia aproveitar meu potencial da forma como gostaria. Isso, pra mim, foi decisivo na hora de fazer as malas e retornar ao Brasil, mas sei que era uma realidade que as pessoas não viam e nem compreendiam, o que tornou a decisão de voltar bastante impopular. E esse retorno, é claro, abriu uma série de outras portas, e por isso foi uma decisão de extrema importância. No Brasil, eu avancei alguns anos de carreira em um, e não teria tido essa mesma oportunidade nos EUA.

 

Como você decidiu estudar engenharia eletrônica e ciência da computação na Duke University? Qual diferencial você acha que foi este curso lá, comparado ao que encontraria em uma boa universidade no Brasil? Como você acha que essa combinação de conhecimentos da graduação lhe ajudou em sua carreira?

Vou decepcionar bastante gente e dizer que a principal diferença não está nas aulas em si, ou mesmo no curso! Há diferenças bastante significativas entre fazer a graduação lá e aqui, inclusive em termos de conteúdo, mas os diferenciais vêm de um contexto mais amplo de filosofia de ensino, infraestrutura, objetivos da graduação, método de seleção, e alcance do corpo estudantil. De arrancada, em uma universidade de ponta nos EUA, você não é aprovado para o curso: você é aprovado para a universidade, e somente no 2º ano da graduação escolhe de forma definitiva qual curso você fará. Isso garante um altíssimo nível do corpo estudantil a nível global e independentemente da área, e fomenta um ambiente de exploração e valorização do conhecimento, em que o estudante pode realmente escolher com mais propriedade o que quer estudar. Não considero que alguém aos seus 17-18 anos tenha maturidade ou exposição suficiente às diferentes profissões e áreas do conhecimento para escolher em que irá se formar, e não concordo com a forma como as diferentes áreas do conhecimento são tratadas como silos no Brasil. Em Duke, seja você um estudante de Economia, Psicologia, Engenharia, ou Computação, você passou pelo mesmo crivo na entrada, e colabora com todas as áreas do conhecimento. Isso é essencial pois as principais áreas de tecnologia emergente hoje em dia, como a Inteligência Artificial, não conseguem ser resumidas a uma só área do conhecimento, ou um curso. O mundo mudou, e exige essa interdisciplinaridade que a graduação nas instituições globais tem como pilar.

No meu caso, além de estudar Engenharia, Computação, e Economia, consegui explorar disciplinas de Política, Neurociência, Inteligência Artificial, Psicologia, e Estratégia. A carga de trabalho era bastante elevada, já que eu segui mais de uma grade curricular ao mesmo tempo, mas essa possibilidade de ter mais autonomia e protagonismo em meu aprendizado foram essenciais na minha formação. Em Duke, eu pude escolher não só os cursos que faria, mas também cada matéria que faria parte da minha grade, dentro de requisitos mínimos, é claro. Quais opções de aula de inteligência artificial vou fazer? Escolho talvez um foco maior em Machine Learning, talvez um foco na intersecção com robótica, ou algo com viés mais teórico? Isso se repetiu para todo o currículo, pois até disciplinas estruturantes como Algoritmos poderiam ser puladas se você por acaso já tivesse um domínio avançado da área e o comprovasse.

Outra diferença importante foi a metodologia de ensino e o objetivo do ensino superior. Vejo que o Brasil também está passando por essa mudança, com metodologias de PBL (Problem Based Learning), estudos de caso e aulas invertidas se tornando mais comuns, e essa já é a realidade no exterior há décadas. Eu diria que uns 90% do aprendizado teórico precisávamos fazer fora da sala de aula, reservando o tempo com o professor para discutir novos desenvolvimentos naquela área, trabalhar em projetos práticos e experimentos de laboratório, discutir tópicos mais controversos da disciplina, ou se aprofundar para além do que os livros didáticos chegam. Na minha aula de Dispositivos Nanoeletrônicos Emergentes, por exemplo, o conteúdo ainda não estava nos livros didáticos, pois a área de pesquisa que estávamos explorando era literalmente o conhecimento sendo construído naquele momento, liderado pelo próprio professor, pesquisador da Intel. Não encontrei essa e outras disciplinas nas universidades brasileiras a nível de graduação.

Nesse contexto, é claro que há diferenças curriculares. Independentemente de onde você faça a graduação, você vai seguir uma grade curricular mínima e estruturante para Engenharia, e isso não muda. O que fez a diferença aqui é até onde o professor conseguia chegar em termos de conteúdo, a forma como ele foi apresentado, com foco mais na inovação e criação, e o objetivo da graduação, que era vista como uma forma de formar novos líderes em tecnologia. Meus colegas de classe eram ingleses, alemães, japoneses, chineses, indianos, americanos, franceses, enfim, pessoas de mais de 100 países do mundo aprendendo juntas, e que haviam sido destaque em seus países. Naturalmente, o conteúdo precisou ser bastante difícil e aprofundado para manter esse público engajado. Essa exposição global foi fundamental, e sei que nós no Brasil temos muito a avançar nesse quesito, mas com limitações. Afinal, uma universidade em inglês, com investimentos bilionários e séculos de história terá um alcance global maior que uma em português, investimento mais limitado, e menos anos de existência.

Sei que isso é algo menos falado, mas vi também diferenças de objetivos para o ensino superior. A vida universitária no Brasil ainda é muito ligada à pesquisa, ou então vista como porta de entrada para uma profissão, e há uma ênfase maior na integração com a sociedade, como é o exemplo dos hospitais-escola que servem à comunidade. Nos EUA, o foco é no mercado e na aplicação, a competição é maior, e a educação é vista como sendo para a vida, com um viés de fomentar autonomia, liderança, e visão interdisciplinar maior.

Essa combinação de escolher engenharia, um curso altamente rigoroso e focado na resolução de problemas, em uma instituição que explora os limites do quão desafiador o ensino pode ser, e com enfoque no protagonismo e construção de liderança e visão global, para mim, foram essenciais para toda a minha carreira, e ainda estou começando a colher os frutos disso. Estar em um ambiente como esse aos 18 anos realmente mexe com a sua formação e maneira de pensar, para a vida. Sai de lá com a sensação de que conseguiria encarar qualquer desafio profissional, e tem sido verdade. E não pelo conhecimento adquirido em si, pois o mundo é muito dinâmico e as coisas evoluem, mas sim por ter aprendido em um ambiente onde desde cedo eu fui protagonista da minha jornada e, independentemente do desafio, precisava ir atrás do conhecimento, explorar conteúdos e áreas sem muitas fontes mais didáticas, e construir uma solução.

 

Considerando a notoriedade mundial desta instituição, é natural perguntar sobre o MIT. Como foi sua experiência de educação executiva no Massachusetts Institute of Technology? Quais foram as principais capacidades adquiridas neste curso de Transformação Digital?

Foi uma experiência muito enriquecedora, especialmente porque envolveu um público em um momento de vida diferente da graduação, afinal foi um programa de educação executiva! A turma era formada por líderes, C-levels, e diretores de grandes empresas de tecnologia, a maioria já com pós-graduação. Assim, as discussões foram muito mais focadas na aplicação do conhecimento em transformação digital no contexto corporativo, em que todos compartilhavam desafios da jornada profissional e liderança em tecnologia. Eu diria que o mais interessante foram as trocas que tivemos juntos, conhecendo e construindo uma rede com líderes de outras empresas. E mesmo eu sendo a mais jovem da turma, consegui contribuir de igual para igual. Eu tinha experiências mais avançadas em alguns pontos, como nuvem, e menos avançadas em outros, como blockchain, então consegui aprender com pessoas cujos conhecimentos complementam os meus.

Assim, foi uma experiência muito diferente de uma graduação ou mestrado, que tem uma duração maior e exigem dedicação exclusiva e em tempo integral durante alguns anos. Nesse programa, todos estávamos trabalhando, e buscando aprendizado contínuo. Certamente não será minha última vez participando de programas como este!

 

Como você descreve as principais atribuições de sua atual função na IPM? E como você considera que está contribuindo para o desenvolvimento de soluções tecnológicas que impulsionam a administração pública no Brasil?

Minha atuação é bastante abrangente, com foco em tecnologia e inovação. A tecnologia, por si só, não resolve tudo: ela precisa de pessoas, times, processos e tudo mais. Então, ao longo dos últimos dois anos na IPM, minha missão tem sido buscar o que há de mais moderno e eficiente por aí e trazer para a nossa realidade, atuando na transformação digital da gestão pública. No meio disso, atuei na modernização e reestruturação também de RH, Marketing, Vendas, Pré-Vendas, Atendimento, Customer Success, Infraestrutura e da operação como um todo. Eu prezo muito pela eficiência operacional e inteligência do negócio, então onde eu consigo usar meu conhecimento para impulsionar nossa missão, eu tenho feito, independentemente da área. Para ilustrar de forma mais específica, em uma semana estou focada em reestruturar a área de Gente da IPM, inserindo Inteligência Artificial na seleção de talentos, criando programas de formação de líderes, e novas práticas de gestão. Logo na próxima semana, posso estar focada no entendimento do mercado e produto na área de gestão da saúde pública, por exemplo. Esse primeiro projeto culminou em nossa premiação como um dos 5 melhores times de RH do Brasil no Gupy Destaca, na categoria Encantamento, e premiação como uma das 25 melhores empresas do Brasil para mulheres pela consultoria global GPTW. Já esse último projeto culminou em nossa premiação como a melhor solução do Brasil para cidades inteligentes, no Prêmio Connected Smart Cities, onde representei a IPM com outros dois líderes.

Ou seja, atuo em iniciativas para transformação, evolução e continuidade do negócio. Iniciei com foco mais interno e agora estou partindo para uma atuação mais externa, sempre assumindo a responsabilidade de identificar onde a operação precisa amadurecer para atingir nossos objetivos-macro, em um contexto de desenvolvimento de cidades inteligentes e transformação digital na gestão pública por todo o Brasil. Estamos em um crescimento acelerado e contamos com uma equipe extremamente talentosa, então nada disso é um trabalho individual, é claro. É mérito de um time do qual tenho honra em fazer parte!

 

Quais são os três melhores cases no Brasil que você possa apresentar de clientes da IPM nessa abordagem de administração pública e/ou cidades inteligentes?

Hoje, temos cerca de 700 clientes, e desenvolvemos um sistema completo e único para gestão pública, o Atende.Net, incluindo áreas como Saúde, Educação, Contabilidade, Fiscal, Tributário, Vigilância, Procuradoria, Governo Digital, dentre muitas outras. Fomos os primeiros do mundo a desenvolver sistemas de gestão em nuvem, então respiramos tecnologia e inovação. Impactamos hoje mais de 30 milhões de brasileiros. Um case muito interessante é Cachoeirinha (RS), que reduziu em 80% as filas de espera em suas unidades básicas de saúde utilizando nossa solução de gestão da saúde pública. Rio do Sul (SC) é hoje a cidade mais ágil do Brasil na abertura de empresas, realizando o processo em 21 minutos em média, frente a 1 dia na média nacional, graças ao Atende.Net. Araucária (PR) é um case nacional de transformação digital da gestão pública, disponibilizando 331 serviços de forma 100% digital. Com isso, reduziu em quase 85% os gastos com papel, o que trouxe muito mais agilidade e aumentou o alcance do serviço público, com quase 3 milhões de autoatendimentos online em 2022. Novo Hamburgo (RS) reduziu de 480 dias para 10 minutos o tempo para abrir uma empresa em casos de menor complexidade. Campo Belo (MG) teve um crescimento de 228% na arrecadação municipal com a tecnologia IPM. Um exemplo mais perto de casa é São José, na Grande Florianópolis, em que trabalhamos na migração de 76 bancos de dados diferentes, usados por 12 entidades, para nossa solução única, 100% em nuvem, e 100% integrada, que hoje permite uma gestão realmente efetiva e mais inteligente. Isso tudo em 8 dias!

Apesar de nossos 26 anos de história, ainda estamos começando, e temos um potencial gigante de transformação e impacto pela frente.

 

Diante das várias opções na tecnologia, o que lhe levou a atuar com os temas de cidades inteligentes e governança?

O que mais me motivou e motiva até hoje é saber do enorme impacto positivo que nosso trabalho faz. Ou seja, aquilo que faço todos os dias tem realmente feito a diferença, e dentro de uma temática que é de interesse meu, explorando as fronteiras da tecnologia para transformar a gestão pública. Essa questão de propósito era algo que já estava vivendo nos Estados Unidos, onde eu já trabalhava com algo que gostava, mas não sentia que meu trabalho tinha esse impacto, tanto é que retornei ao Brasil. Focando nas cidades, consigo melhorar os serviços mais essenciais que existem, como a educação pública, saúde, planejamento urbano, gestão financeira, fomentar o empreendedorismo, e gerar mais qualidade de vida para as pessoas.

Pouca gente sabe, mas o Brasil é o 2º país mais avançado do mundo em termos de maturidade do Governo Digital. Assim, estou no lugar certo para trabalhar com essa temática, propiciando exemplos a nível nacional de como usar a tecnologia para criar um futuro melhor para a sociedade. No entanto, não é de hoje que tenho interações com a Gestão Pública. Nas minhas primeiras férias de verão em Duke, participei de um projeto da universidade em parceria com a Fundação Bill e Melinda Gates, focado no reaquecimento econômico da cidade de Detroit, que declarou falência em 2013. Lá, o serviço público não conseguiu até hoje sozinho reerguer a cidade por completo, então atuei com startups e aceleradoras justamente nesse meio.

 

Em seu perfil no LinkedIn, você também se apresenta como empreendedora. Pode nos contar um pouco sobre esta sua atuação?

Claro! Sou sócia e co-fundadora de uma empresa de tecnologia financeira para gestão pública, ou seja, uma FinTech e GovTech, atuante no Brasil. Ainda não tenho divulgado muito sobre ela pois o foco é realmente escalar a operação! Em Duke, também fundei outras startups com colegas de classe, como a Sânea, com foco em soluções para reaproveitamento da água, e que ficou em terceiro lugar em uma competição internacional. Seguimos em um projeto de aceleração com uma grande empresa de consultoria, e estávamos nessa competição para conseguir recursos para escalar a operação, mas acabamos descobrindo na prática que talvez não era aquilo que nenhum de nós queria focar. Todos nós tínhamos outras demandas. Houve ainda outra startup, uma EdTech, que também chegou à etapa final de uma competição com foco em empreendedorismo com impacto social, o Hult Prize, em Duke. Ainda não era algo tão relacionado à minha área de interesse como gostaria, e nem meu foco durante a graduação, então também encerramos o projeto. Tive essas duas experiências passadas que conflitaram com minha disponibilidade de tempo na graduação, mas me ensinaram bastante sobre negócios na prática.

 

Em seu perfil são mencionados projetos desenvolvidos para NASA e a Universidade de Oxford. Poderia rapidamente descrever suas realizações com nestes projetos?

Ambos foram consequência de minha primeira decisão mais estratégica de carreira, sobre a qual conversamos: ir fazer a graduação no exterior. O resto foi história, pois busquei aproveitar as oportunidades ao máximo!

Durante a pandemia, em 2020, eu já tinha mapeado um intervalo de tempo entre o término da graduação e o início do meu trabalho em fusões e aquisições, devido ao alinhamento dos calendários da graduação e do mercado profissional. Assim, participei de uma equipe entre engenheiros de Duke e um estudante de medicina de Harvard para participar de um desafio relacionado à Missão Artemis da NASA, que visa levar astronautas à Lua. Especificamente, nosso foco era desenvolver tecnologias de saneamento para microgravidade e gravidade zero: nada glamuroso, mas certamente desafiador! O outro projeto, relacionado à Universidade de Oxford, foi uma extensão da EdTech, em que exploramos de forma mais aprofundada a problemática da inserção no mercado de trabalho de populações estrangeiras, especialmente refugiados, nos EUA, dentro da iniciativa Global Challenges. Apesar dos nomes de peso, ambos foram projetos de uma importância de exploração e aplicação do conhecimento, para mim, e parte de uma série de outros projetos que desenvolvi através de Duke para aprender na prática. Não me atenho a nomes específicos, e sim à oportunidade de me desenvolver na prática.

Em meu último ano em Duke, montamos também uma equipe para competir na XPRIZE, uma das principais criadoras de desafios de engenharia para estudantes universitários. Esse, pra mim, foi meu projeto mais interessante em termos de engenharia, pois envolvia a construção e desenvolvimento de drones de ponta a ponta: sensores, voo autônomo, motores, dentre várias outras frentes, sob a supervisão e orientação de um professor. A pandemia iniciou no meio do projeto, então tivemos que pivotar e adaptar o desenvolvimento para um formado remoto, contando somente comigo, dentre toda a equipe, conseguindo estar presente no campus. Afinal, como eu iria me formar em questão de meses, e iniciaria a trabalhar em Nova York, eu não poderia retornar ao Brasil naquele momento pois perderia minha autorização de trabalho nos EUA. Assim, tive tempo de sobra para iniciar e entregar esse projeto em meio ao lockdown. Após minha formatura, sei que ele foi continuado por outros estudantes, pois era uma iniciativa que envolveria vários anos anos ainda, e eu já estava de mudança.

 

Como você avalia o sucesso dos projetos de inovação que você lidera na IPM? Quais são as principais métricas que você usa para medir o êxito destes projetos?

Os projetos são bastante variados em suas áreas de aplicação, mas tem um objetivo comum: tornar a operação mais eficiente e inteligente através da tecnologia. Então, toda métrica que uso para medir isso se relaciona à facilidade e a assertividade na resolução do problema inicial: prazos e SLA, satisfação dos impactados, redução de gastos, aumento de processos finalizados com êxito, tempo para lançamento, eficiência operacional, e por aí vai. E eu trato cada projeto como se fosse a única oportunidade que tenho de entregar valor, ou seja, eu levo muito a sério. Não tem como ser diferente.

Para mim, toda implantação de inovação e tecnologia deve partir de um problema muito bem definido e, com isso, passar pela definição das métricas que comprovarão ou não essa resolução. Meu interesse não é simplesmente implantar uma solução e trazer uma novidade que é tendência no mercado, pois não necessariamente o que tem funcionado em outros lugares será adequado em nossa realidade. Muitas vezes, a tecnologia inadequada ou implementada de forma ineficaz pode criar mais problemas do que resolver! Assim, sou bastante cética especialmente quando uma tecnologia acaba virando tendência na mídia, como foi o caso do metaverso e da blockchain. Não é por estar em alta nas discussões que será positiva ou mesmo útil nos desafios que temos hoje. Será que não é apenas moda?

Então, o que eu considero é o quanto aquilo que trouxe conseguiu simplificar o processo e trazer resultados mais efetivos, melhorando a experiência dos envolvidos e permitindo a escalabilidade da operação. Afinal, de nada adianta trazer alguma tecnologia emergente que, na prática, é muito cara e não poderá ser usada onde necessário. As métricas específicas variam bastante conforme a área envolvida, pois o foco é no resultado final. Pensando em processos digitais, por exemplo, analiso tempo do trâmite, número de processos, taxa de processos reabertos, número de pessoas impactadas, taxa de sucesso no fechamento, satisfação do usuário, redução de gastos, dentre outros. Isso, claro, além dos indicadores tradicionais de sucesso do negócio. Tenho apenas um projeto que está nessa fronteira entre o êxito e a necessidade de pivotar, que foi iniciado agora em março, então ainda é muito recente. Os demais foram considerados um sucesso por todas essas métricas quantitativas, e também em uma análise qualitativa. A opinião final das pessoas, afinal, por mais subjetiva que seja, é extremamente importante.

 

Sinta-se livre para descrever algum ponto que não foi abordado acima, e que você considera relevante para inspirar pessoas com as lições que já obteve em sua carreira.

Acredito que um tema que feche bem nossa conversa, e que estive refletindo muito a respeito recentemente, é sobre a realidade de ser jovem em posição de liderança. É preciso um certo nível de determinação e até rebeldia para se posicionar e mostrar seu valor com colegas de trabalho com mais tempo de experiência profissional do que você tem de vida, reconhecendo onde os contrastes da inovação e da tradição conseguem colaborar e se complementar. Embora possa contar nos dedos as pessoas que conheço em posição semelhante, são pessoas que realmente têm criado seu legado e feito a diferença.

Veja bem, esse não é um caminho natural. O natural é ir aprendendo com a experiência ao longo de anos, e, quem sabe, se desenvolver naturalmente como líder, aos poucos. Quando você é jovem e se vê à frente de grandes iniciativas, precisou acelerar todo esse processo e aprender ainda mais com cada ação e cada resultado, tendo uma abordagem ainda mais reflexiva, pois você precisa avançar muito, e muito rápido. E parece que cada falha teria uma ênfase maior, pois representa uma proporção maior do que você fez, ao mesmo tempo em que muitos esperam que você falhe por ser muito novo. Isso cria uma dinâmica diferente, mas eu também acredito que se tudo está sempre dando 100% certo, é porque estamos sempre fazendo as coisas como sempre foram feitas. Embora eu tenha uma taxa de êxito alta em minhas iniciativas, também reconheço os erros como oportunidade de aprendizado e parte intrínseca de um processo de inovação. O importante é melhorar e não cometer o mesmo erro de novo!

A rebeldia à qual me refiro se insere justamente aqui, pois você precisa compensar a menor experiência com mais inovação e assertividade nas contribuições. Isso tudo, claro, lutando contra os vários estereótipos relacionados à Geração Z, e às vezes lidando com questionamentos ou comentários inadequados do público externo. Isso não é uma realidade da IPM, que tem uma presença diversa em termos de idade entre os líderes, mas sim uma realidade da sociedade. Já fui perguntada em uma reunião com um fornecedor externo quem seria o “cara mais experiente na IPM que tomaria essa decisão por mim”, e hoje considero essa interação e mentalidade tão trágica como cômica, pois respondi que “esse cara mais experiente”, na verdade, sou eu, uma menina. É por isso que comentam que tenho uma personalidade forte, mas também não tenho como agir de forma diferente.

Fico honrada especialmente por atuar em um meio e empresa que valorizam as pessoas independentemente da idade, cor, gênero, etnia, origem, e outros, e que focam no que importa: como essa pessoa vem contribuindo, e como podemos avançar ainda mais, juntos? Ao final das contas, é isso que importa!

No que depender de mim, seguirei construindo e transformando o futuro das cidades e das pessoas, aproveitando o melhor da tecnologia. E, de quebra, sei que consigo inspirar e motivar outras meninas por aí a também seguir uma trajetória de protagonismo, impacto e propósito. Muito de nossos futuros só depende de nós mesmos.

 

Lições de carreira

A entrevista com Lúcia Mees revelou não apenas sua impressionante trajetória profissional, mas também sua paixão por tecnologia e inovação, bem como seu compromisso em contribuir para a construção de um futuro mais sustentável e inclusivo por meio de projetos impactantes. Sua experiência nos inspira a seguir em busca de nossos objetivos profissionais, enquanto buscamos fazer a diferença no mundo. Ainda em sua juventude, Lúcia demonstra uma combinação de dedicação, inteligência e propósito que é muito rara. Espero que as ideias compartilhadas possam inspirar todos, principalmente os jovens, a buscarem voos mais altos.

Registro também o agradecimento ao colega Rogério Kiefer, responsável pela Coluna Leitura no Portal Acontecendo Aqui, por ter feito esta incrível indicação para entrevista.

Grato pela leitura. Nos encontramos no próximo!

Abraço, Jonny

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