Coluna do Zillmer | Na guerra das paixões, quem perde é a lógica
18 de Abril de 2016

Coluna do Zillmer | Na guerra das paixões, quem perde é a lógica

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Em tempos de paixões ideológicas à flor da pele, muito me incomoda a falta de argumentação lógica nas defesas simplórias de determinados pontos de vista. Seja por incapacidade de manter um raciocínio coerente entre início e fim da argumentação, seja por desonestidade intelectual com o intuito de confundir a plateia, o fato é que chega a ser patética a construção argumentativa em muitos casos. Em meio a esse jogo, é preciso estar atento para não cair nas armadilhas retóricas que buscam apenas validar uma argumentação insustentável e na qual o falso parece verdadeiro e o verdadeiro se torna automaticamente falso.

Toda a argumentação lógica, pelo método dedutivo ou pelo método hipotético-dedutivo, tem como base a hipótese – aquilo que apresenta possibilidade de acontecer – e segue pela conjectura até que se possa estabelecer como verdadeira ou falsa. A argumentação, portanto, deriva de uma cadeia de raciocínios limitados por um conjunto de premissas e uma conclusão. Como dizia Aristóteles, a lógica é a prova e a lógica é o estudo sistemático das provas. Na ausência dos limites e da conclusão, temos a falácia. A falácia é uma crença errônea ou um processo errôneo de chegar a uma crença. 

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É natural da vaidade humana não querer aceitar aquilo que se acredita como verdadeiro se mostre falso. No entanto, isso exige pensar primeiro e falar depois. Na ânsia de sustentar seu argumento, ainda que falso, torna-se comum a pessoa associar a deslealdade à verborragia para parecer ter razão em seus argumentos. É isso que o filósofo Schopenhauer define como dialética erística, ou seja, a arte de discutir de modo a vencer por meios lícitos ou ilícitos. Schopenhauer lista 38 estratagemas dialéticos e muitas delas estão explicadas aqui neste infográfico produzido pelo site Thou Shalt Not Commit Logical Fallacies.

São muitos os exemplos possíveis de falácias, como no caso de alegar que quem fura fila comete o mesmo crime que aquele que desvia 90 bilhões de uma petrolífera estatal. Não se pode atribuir aos dois erros a mesma gravidade na tentativa de diluir a culpa e minimizar a gravidade de um erro sobre o outro. É certo que uma falha não invalida a outra, mas não fosse pelo diferente grau de danos causados à sociedade entre uma e outra, não haveria necessidade de os legisladores atribuírem penas diferentes para diferentes crimes. Fosse assim, o sujeito que não atravessa na faixa teria a mesma punição que aquele que bebe a mata ao volante.

Em uma argumentação lógica, comparar salsicha com bacalhau equivale a dizer que dois e dois são cinco. Começar com uma premissa (a presidenta foi eleita democraticamente) e terminar em outra (o vice não tem legitimidade) me parece um caso de falta de ética em matéria de discussão, uma vez que ambos foram eleitos na mesma chapa e coligação, pelo mesmo número de eleitores, na mesma eleição e escolhidos por vontade própria para fazerem tal composição. Por isso, é preciso estabelecer condições mínimas de compreensão recíproca em uma debate de ideias, sem a qual,  a paixão inevitavelmente vai agredir a razão.

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