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Coluna Carreira | Reflexões sobre propósito e resiliência-prospectando fontes desta conexão.
20 de Julho de 2022

Coluna Carreira | Reflexões sobre propósito e resiliência-prospectando fontes desta conexão.

Tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude

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Por Prof Jonny 20 de Julho de 2022 | Atualizado 20 de Julho de 2022

Vivemos tempos nada comuns. No país, enquanto parte da população se encontra em situação de desemprego, outro considerável contingente pede demissão. Este fenômeno, muito marcante com a pandemia, está sendo conhecido como “the great resignation” ou a grande debandada (ou renúncia). Segundo esta matéria publicada na InfoMoney em abril, citando a entrevista com a psicóloga da USP, Ana Volpe: as novas gerações não estão mais interessadas em reconhecimento financeiro apenas, mas na realização pessoal e reconhecimento. O trabalho passou a ser visto como um dos aspectos da vida de alguém, e não como o todo. Neste artigo, abordamos a conexão entre propósito e resiliência.

Para tratar deste tema, vejamos este texto: “Ontem, tive um sonho terrível com helicópteros militares… Tenho tido esses sonhos desde o lançamento da operação militar … Minha mãe preparou o café da manhã e eu fui para a escola. Eu tinha medo de ir à escola porque um decreto havia sido emitido proibindo todas as meninas de frequentarem as escolas. Apenas 11 alunos participaram da aula de 27. O número diminuiu por causa do decreto … Meus três amigos se mudaram… com suas famílias após este decreto. No caminho da escola para casa, ouvi um homem dizer ‘vou matar você’. Apressei o passo e depois de um tempo olhei para saber se o homem ainda vinha atrás de mim. Mas, para meu alívio, ele estava falando no celular e devia estar ameaçando outra pessoa pelo telefone”. Este trecho é extraído da matéria publicada pela BBC em 2009, sob o título “diário de uma estudante paquistanesa”. O diário havia sido escrito por Malala Yousafzai, na época com 11 anos, enviado com pseudônimo. Nos anos seguintes, com a repercussão deste e outros textos, inclusive nas redes sociais, suas ações em prol da educação das meninas ganharam cada vez mais impacto, tanto que em 2011 ela recebeu o Prêmio da Paz da Juventude em seu país. Em outubro de 2012, ela foi baleada no caminho para escola, ficando seriamente ferida, sofrido coma por alguns dias, sendo transferida no mesmo mês para o Reino Unido. Em 2014, Malala Yousafzai tornou-se a mais jovem pessoa a receber o Prêmio Nobel. De certo, sua história mobilizou diferentes esforços em prol da educação universal em seu país e em outros. O leitor pode estar se perguntando, ok, já ouvi falar desta história, mas qual é a relação disto com o tema carreira?

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O motivo de ter escolhido iniciar com o trecho é que esta trajetória enceja vários aprendizados, mas gostaria de focar em duas qualidades que considero mais relevantes: propósito e resiliência.
Quantos já lutaram por um propósito tão nobre quanto o acesso à educação?
Quantos teriam a coragem de persistir nesta causa mesmo diante do risco que Malala correu?
Quantos demonstrariam tamanha resiliência para continuar depois de quase perecer?

Ainda mais incrível é ter a consciência que tudo isto ocorreu com uma jovem de tão tenra idade.

 

Foto: Getty Images

Talvez, devido às facilidades da vida de classe média ocidental, nossa sociedade tenha se tornado pouco resiliente. É evidente que o leitor pode discordar disto, dizendo que já enfrentou graves problemas, aprendendo duras lições na vida. Sim, todos nós, em menor ou maior grau, já enfrentamos nossas batalhas pessoais. O ponto aqui é que a reflexão sobre situações extremas, como o ocorrido com Malala, pode nos ajudar a redimensionar nossa visão sobre “nossos problemas”, mudando o foco, ou seja, analisando a situação sobre outro ângulo.

Em sua palestra TED, com mais de 28 milhões de visualizações, Dan Pink, escritor e especialista de carreira, defende a ideia que existem três elementos principais que merecem maior destaque ao refletir sobre o que as pessoas estão buscando no mundo atual do trabalho, sendo eles: autonomia, maestria e propósito. Segundo ele, autonomia se relaciona ao desejo de dirigir nossas próprias vidas. Quanto à maestria, diz respeito à vontade de buscar o aprimoramento em algo que importa. Já o propósito reflete a aspiração de estar a serviço de algo maior do que nós mesmos. Estes três aspectos atuariam como pílares intrínsecos da motivação. No meu entender, se alguém descobre estes elementos, ou pelo menos está trilhando este caminho de descoberta, este indíviduo dependerá menos de estímulos externos para se motivar. Cá entre nós, depender de algo externo, na realidade atual (tanto de país quanto de mundo) não é uma boa estratégia para obter inspiração. A questão é como conseguimos fazer isto?

Esta é uma reflexão complexa, não existe uma resposta simples, mas muitos defendem que o começo do processo passa por uma alteração no nível da percepção. Esta é a proposta do artigo, publicado na Forbes pela socióloga Tracy Brower. Ela defende a ideia que o indivíduo deve assumir que a responsabilidade de criar propósito em seu trabalho é sua, ou seja, não deve cair na armadilha de procurar o trabalho ideal, ou mesmo que seja dever do chefe ou da empresa definir seu propósito. Cada trabalho tem dignidade. Portanto, caberia ao indivíduo encontrar seu propósito e criar significado para si mesmo. Para busca de propósito, a sociológia sugere focar em três pontos: sentir-se conectado a algo maior do que si mesmo, saber que seu trabalho importa e entender como seu trabalho afeta outras pessoas, ou seja, não apenas os resultados da organização, mas buscar refletir sobre os resultados diretos de seu trabalho. O fundamental seria conectar o que você faz com a missão maior da organização. Por outro lado, recomenda ainda a socióloga, é necessário pensar além do trabalho, pois em algumas situações o maior senso de propósito será encontrado em outras áreas como família, relacionamentos com amigos e contribuições à sociedade em geral. Neste sentido, pensar em propósito de forma “mais holística” ajudaria a ver o trabalho de forma mais satisfatória, pois você não estaria pensando nele apenas como única forma de realização. Em última análise, defende a autora, a mudança de percepção requer autoconsciência. Estar ciente do poder que você tem para moldar seu propósito, sua conexão com o quadro geral e seu impacto positivo sobre os outros dentro e fora do trabalho pode ajudá-lo a se sentir mais realizado.

Com a pandemia do COVID-19, muito se tem escrito sobre o termo resiliência, mas este tema no enfoque organizacional vem sendo estudado há algum tempo. Em seu artigo, “How Resilience Works”, publicado na Harvard Business Review, a jornalista Diane Coutu descreve sua pesquisa realizada para identificar os principais traços de pessoas resilientes. Segundo esta pesquisa, várias teorias sobre resiliência convergem de três maneiras. As pessoas resilientes apresentariam as seguintes características: uma firme aceitação da realidade; uma crença profunda, muitas vezes sustentada por valores fortemente arraigados de que a vida tem significado; e uma incrível capacidade de improvisação. Antes de continuarmos, cabe uma ressalva sobre a primeira característica. Aqui, busquei ser o mais fiel possível na tradução, por isto foi usado o termo “aceitação”, mas ao ler o artigo fica claro que “aceitação” é usada para descrever que pessoas resilientes têm visões muito sóbrias e realistas de suas condições, isto é fundamental para sobrevivência. Já quanto ao processo de busca de significado, segundo a jornalista, várias pesquisas concordam que as pessoas resilientes constroem pontes das dificuldades atuais para um futuro mais completo e melhor construído. Essas pontes tornariam o presente mais fácil de encarar, removendo a sensação de ser este presente avassalador. Este conceito foi articulado por Viktor Frankl, um psiquiatra austríaco e sobrevivente de Auschwitz. Em meio a um sofrimento assombroso, ele criou “terapia de significado”, uma técnica de terapia humanística que ajuda indivíduos a tomarem os tipos de decisões que irão criar significado em suas vidas.

Ainda devemos explorar mais as ideias de Viktor Frankl, mas fica para a reflexão: Tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto uma coisa: a liberdade de escolher sua atitude em qualquer circunstância da vida.

Pense sobre isto!
Grato pela leitura. Nos encontramos no próximo artigo!

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