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Coluna Carreira | Entrevista- Ninna Granucci, cientista brasileira
22 de Abril de 2022

Coluna Carreira | Entrevista- Ninna Granucci, cientista brasileira

Ninna é fundadora de empresa de biotecnologia com sede na França, compartilha lições sobre sua brilhante carreira".

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Por Jonny Carlos da Silva 22 de Abril de 2022 | Atualizado 22 de Abril de 2022

“Jovem cientista brasileira, fundadora de empresa de biotecnologia com sede na França, compartilha lições sobre sua brilhante carreira”.
Conforme exposto na primeira edição da coluna, nossa intenção aqui é também apresentar trajetórias profissionais das quais possamos aprender lições que inspirem outras carreiras.

Nesta entrevista, contamos com a participação da Dra. Ninna Granucci. Graduada em Ciências Biológicas pela UFSC, onde também fez seu mestrado em Biotecnologia. Ela realizou seu doutorado em Biotecnologia na Universidade de Auckland na Nova Zelândia. Ainda naquele país, fundou em 2016 a Green Spot Technologies, como resultado direto de seu projeto de doutorado. A empresa foi transferida para Toulouse, França, em setembro de 2018, onde Ninna ocupa as funções de Presidente e CEO.

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Ninna, agradeço sua contribuição aqui. Como você sabe, a ideia desta coluna é compartilhar experiências sobre carreira profissional, e muito de cada trajetória é definido em função das decisões tomadas nos diferentes estágios da vida. Numa análise de seu perfil, existe clara conexão entre sua graduação na UFSC e a continuação, muito natural, para o mestrado na mesma instituição. O que lhe fez optar por fazer doutorado, do outro lado do mundo, na Nova Zelândia?


Desde o início, a ideia era fazer um doutorado que tivesse aplicação. Ainda no mestrado, tive a oportunidade de assistir na UFSC uma palestra de um pesquisador da EMBRAPA em que mencionou sobre pesquisas com reaproveitamento de resíduos, o que fez despertar meu interesse pelo tema.
Uma professora da UFSC me colocou em contato com um ex-aluno seu que era professor da Universidade de Auckland. O fato de ter conseguido fazer um estágio de três meses nesta universidade, depois do mestrado, contribuiu para esta decisão. Como resultado deste estágio, pude criar um projeto de pesquisa, junto com aquele que viria a ser o orientador do doutorado. Submetemos o projeto a uma agência do governo neozelandes e recebemos apoio com a bolsa para o projeto.
Também contatei um pesquisador numa universidade da Alemanha, que em princípio, me aceitou, mas não cheguei a aplicar para esta universidade.
Para opção pela Nova Zelândia, pesou também a questão do idioma e a provável capacidade de melhor adaptação à cultura do país.

 

Até que ponto esta decisão viabilizou o êxito de sua pesquisa, tanto no campo acadêmico, como abriu portas para empreender?

Esta decisão ajudou muito tanto no aspecto acadêmico, quanto no empreendimento posteriormente. No Brasil, as chances seriam relativamente menores para trabalhos de pesquisa com a abordagem mais aplicada.

Em retrospectiva, você considera que teria resultados semelhantes se tivesse continuado no Brasil? Se não, por que?

Até que poderia ser, mas talvez fosse mais difícil e demoraria mais tempo. O fato de sair do seu país também te tira da sua zona de conforto e deixa mais propício a buscar e investir em novas oportunidades.

 

Como sabemos, a transição entre a formação acadêmica e a primeira atividade profissional não é fácil. No seu caso ainda teve a questão de criar uma empresa como spin-off de seu doutorado, certo? Como foi este processo de migrar de uma pesquisa para criação da empresa, ainda na Nova Zelândia?

De fato a decisão por abrir a empresa ocorreu no meio do doutorado. Com isto, foi redefinido o contexto da pesquisa com o orientador, que passaria a ser sócio da empresa, de tal forma a permitir a publicação do trabalho como tese, mas que deixasse espaço para uma patente que viria a ser semente do empreendimento.
Também foi fundamental, ter feito cursos de empreendedorismo, promovidos dentro da Universidade de Auckland, e participado de eventos nesta área em paralelo ao trabalho de doutorado.
Além dos aspectos normais no estabelecimento de qualquer empreendimento, tive que enfrentar três desafios: ser jovem, mulher e estrangeira no país. Em todos os eventos que participei na criação da empresa, notei que estava diante de um ambiente bem masculino.

 

Depois de permanecer na Nova Zelândia por cerca de três anos, a Green Spot se muda para França. Como foi esta transição de país? Quantas pessoas da equipe se mudaram com você?

Na Nova Zelândia, a empresa tinha apenas dois membros, eu e meu orientador, e ambos mudamos para França quando a empresa foi refundada aqui. Hoje, a Green Spot tem 15 membros, sendo um deles de origem cubana, e os demais franceses. A empresa recebeu financiamento público do governo francês e privado também. Uma curiosidade, minha tese acabou sendo defendida de forma remota, pois tive que me mudar para França com a empresa, e não poderia aguardar mais tempo na Nova Zelândia.

 

Em termos de trabalho em equipe, um dos pontos mais relevantes do cenário atual, é a possibilidade de interagir com pessoas de diferentes culturas. Você poderia comentar um pouco sobre este ponto em sua trajetória de abrir a empresa?

A diversidade do ambiente de trabalho sempre foi fundamental, e o fato de ter morado na Nova Zelândia, país que recebe tantos imigrantes contribuiu muito nisto.

 

 

De acordo com a visão de sustentabilidade da Green Spot, a empresa coleta polpas limpas de frutas e vegetais, cascas e sementes, leguminosas e outros itens, reaproveitando estes como insumos para fabricação de outros alimentos. É isto mesmo? Até que ponto, e quando, esta visão estava no seu propósito como pesquisadora em seus estudos?

De fato, desde o início do doutorado, havia o propósito de desenvolver algo que tivesse aplicação prática na resolução de problema crítico com base na fermentação, técnica que havia sido explorada bem durante o mestrado. Portanto, a ideia de fazer doutorado sempre esteve atrelada a desenvolver algo aplicado, cujo resultado pudesse ser percebido de forma mais evidente possível. Jamais pensei em estudar apenas por ter um título. Fazer doutorado já é difícil naquilo que se gosta, se for em algo pelo qual não se tenha muito interesse fica praticamente impossível.

 

Quais características não técnicas, as chamadas soft skills, você considera que mais desenvolveu, ou está desenvolvendo, na sua vivência como pesquisadora e empreendedora?

Paciência, gerenciamento de equipe e inteligência emocional foram e estão sendo importantes qualidades nesta trajetória profissional.

 

Quais sugestões você daria para alguém que começa hoje sua formação numa área de tecnologia?

Me ajudou muito conversar com professores e explorar o máximo de áreas diferentes para saber o que mais despertaria meu interesse. Este é o principal conselho aos jovens.

 

Até que ponto o fato de ter pais empreendedores contribuiu para você abrir uma empresa?

Com certeza, ter crescido vendo eles como empresários me ajudou a considerar este caminho.

 

Lições de carreira
Muitos aprendizados podem ser colhidos desta carreira, mas gostaria de mencionar apenas três que me chamaram mais atenção. Primeiro, Ninna tinha claro o desejo de realizar uma pesquisa de valor que pudesse satisfazer tanto seu interesse pela ciência e tecnologia e impactar positivamente a vida das pessoas. O que ela fizesse precisaria incluir estes dois elementos, pois o título seria uma consequencia, e não um fim em si. Segundo, ela buscou ampliar seus horizontes em vários aspectos já na graduação, e não se limitou às fronteiras de seu país, inclusive optando por um lugar relativamente pouco conhecido para vasta maioria das pessoas. E por último, ela mostrou uma incrível determinação, saindo da zona de conforto, vencendo diferentes desafios entre eles, cruzar a “ponte entre academia e empresa”, e ultrapassar obstáculos por ser jovem, mulher e estrangeira.

Uma última nota de caráter pessoal. Conheço a família de Ninna há algum tempo, e mais recentemente temos mantido encontros remotos para meditar e estudar temas universais como eliminação de preconceitos, cultura de paz, igualdade de direitos entre homens e mulheres, entre outros. Pude constatar que além da formação acadêmica enfatizada pela família, eles também têm forte perfil humanístico, inclusive sendo referências no Brasil na área de empreendedorismo social, o que bem pode ter influenciado esta brilhante carreira.

Grato pela leitura. Nos encontramos no próximo!

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