Publicidade
Coluna Carreira | O que acha de uma carreira na Médicos Sem Fronteiras (MSF)?
07 de Fevereiro de 2023

Coluna Carreira | O que acha de uma carreira na Médicos Sem Fronteiras (MSF)?

Entrevista com Maíra de Oliveira, da MSF-Brasil

Publicidade
Por Prof Jonny 07 de Fevereiro de 2023 | Atualizado 07 de Fevereiro de 2023

 

Conheça um pouco da organização nesta entrevista com Maíra de Oliveira, responsável pela área de Diversidade e Inclusão da organização no Brasil.
Maíra de Oliveira é mestre em ciência política pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Ela atua como especialista em Diversidade e Inclusão em Médicos Sem Fronteiras no Brasil. Sua pesquisa de mestrado tem total relação com a escolha de trabalhar em uma organização humanitária. Nesta entrevista, Maíra compartilha um pouco sobre sua trajetória profissional e o que a levou a trabalhar em MSF-Brasil nesta área. Ela também nos traz uma perspectiva de carreira em MSF, tanto dentro como fora do país, para profissionais da área médica e de outros campos.

Publicidade

 

Agradeço muito por sua disposição em contribuir com nossa coluna sobre carreira. Sabemos que nossas trajetórias são muito influenciadas diretamente pelas nossas decisões. Considero sua trajetória bem interessante, que pode servir de inspiração para jovens profissionais. Quais decisões você considera que foram mais estratégicas no início de sua carreira?

Primeiramente, obrigada pelo convite para participar desta entrevista. Acredito que estudar culturas e outros idiomas foram decisões estratégicas para a minha carreira. Sempre tive paixão por culturas diferentes e desde cedo me aventurei em formas de aprender outras línguas. Esta paixão me deu a oportunidade de conhecer diferentes lugares, saber navegar em diferentes conversas e me colocar no lugar do outro.
Estas escolhas me levaram a optar por uma graduação em turismo e patrimônio e um mestrado em ciência política com ênfase em movimentos sociais.

Foto: LinkedIn Maíra de Oliveira

 

Sua pesquisa de mestrado é sobre A Desconstrução do Eurocentrismo nas Organizações Humanitárias: Um Estudo sobre a Organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Brasil (2006-2021). O que lhe levou a escolher este tema já em MSF-Brasil?

Movimentos sociais e política internacional sempre foram um tema de interesse e estudo, desde o começo do meu mestrado. Na metade do meu curso, iniciei meu trabalho em MSF e acabei vendo na prática muito do que estava estudando. Dessa forma, percebi que seria interessante abordar o tema. Especialmente porque ações de desconstrução do eurocentrismo com o objetivo de dar mais espaço para a inclusão de identidades diversas era um movimento relativamente novo em MSF, e registrá-lo no mundo acadêmico seria algo bastante significativo e serviria como uma bibliografia rica para demais estudos decoloniais.

Seu perfil apresenta uma vivência internacional, morando na Inglaterra por alguns anos. Como foi esta escolha, e até que ponto isto serviu de base para as decisões posteriores em sua carreira?

Por cerca de seis anos, entre idas e vindas até me estabelecer, vivi em Londres, na Inglaterra – não foi algo planejado, minha vida pessoal acabou me levando para lá. Entretanto, na Inglaterra tive maior contato com temas que tinha interesse, mas que ainda eram um pouco distantes para mim. Enquanto vivia no Brasil, eu tinha uma ideia voltada mais para uma carreira no setor privado, porém, durante os anos que vivi em Londres, percebi a grande presença de organizações do terceiro setor e comecei a me interessar cada vez mais por uma carreira na área. Neste período, surgiu também minha vontade de estudar mais política internacional, portanto, assim que voltei para o Brasil, comecei meus estudos para tentar um mestrado em ciência política.

 

Sobre a organização Médicos Sem Fronteiras, acredito que muitos a consideram uma entidade que atua mais fora do Brasil, apesar das divulgações mais recentes na mídia, mostrando as atividades no país. Além disto, muitos devem considerar que MSF seja uma organização mais para profissionais na área médica, o que com certeza é uma visão limitada, devido a tudo que envolve suas várias ações. Como você apresentaria MSF, sobretudo a um jovem profissional, que esteja considerando esta instituição em sua carreira, sendo profissional da área médica ou de outra área?

Acho importante, inicialmente, ressaltar que ao contrário do que frequentemente se imagina, as pessoas que trabalham na MSF não são voluntárias. Todas são profissionais contratadas pela organização pelo período em que estão nos projetos ou nos escritórios. Atuamos em contextos difíceis, por isso, temos a necessidade de profissionais dedicados e qualificados em suas funções.

Nos escritórios de MSF ou diretamente nos projetos, existem áreas que prestam suporte para o desenvolvimento pleno das atividades. Isto significa que existem diversos profissionais trabalhando nos bastidores da organização em setores, como, por exemplo, recursos humanos, advocacy, administração, finanças, comunicação, logística, captação de recursos, TI e diversidade e inclusão.

Para trabalhar na MSF, além da qualificação e experiência, é importante ser uma pessoa motivada e flexível, capaz de se adaptar e lidar com diferentes contextos e culturas. Além, claro, da motivação pela causa humanitária.

Completando a resposta sobre a nossa presença no Brasil, desenvolvemos projetos de ajuda humanitária no país há 30 anos. Começamos em 1991, enfrentando uma epidemia de cólera que chegou ao Brasil pela região amazônica e atingiu diversas comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas. De lá para cá, a organização cresceu de maneira intensa e constante suas atividades por aqui. Durante a pandemia, por exemplo, estivemos em 12 estados do país respondendo às demandas de saúde criadas pela COVID-19.

Desde 2018, estamos no estado de Roraima, apoiando o sistema de saúde local, historicamente frágil e ainda mais sobrecarregado pelo grande fluxo migratório de venezuelanos. Nossas equipes oferecem cuidados básicos de saúde, assistência em saúde mental e saúde sexual e reprodutiva, além de promoção da saúde.

 

Como exemplo da diversidade de linhas de ação, este vídeo trata da área de LOGÍSTICA na MSF.

 

 

Tenho conhecimento de que MSF-Brasil desenvolve diversas políticas internas, programas e ações para criar condições coerentes na contratação e durante o desenvolvimento, inclusão e permanência de colaboradores e colaboradoras. Também sei que as oportunidades devem ser equitativas em tratamento, participação e oportunidades. Você poderia citar as principais ações, de preferência as mais recentes, de MSF visando promover estas políticas?

Nos últimos anos, compreendemos a urgência social de ampliar e aprofundar os debates e as ações inclusivas e antirracistas. Dessa forma, algumas das nossas principais ações desde 2020 têm como foco transformar o discurso em práticas:

– Desenvolvemos um programa de diversidade e inclusão focado em profissionais de grupos sociais minorizados;
– Abrimos vagas exclusivas para pessoas que se autodeclaram negras (pretas e pardas) e indígenas;
– Implementamos um programa de educação e treinamento antirracista na organização;
– Criamos planos de desenvolvimento, especialmente para profissionais oriundos de grupos minorizados no mercado de trabalho.

Hoje, o escritório de MSF-Brasil é composto por 50% de profissionais negros (pretos e pardos) e trabalhamos continuamente para mantermos uma equidade racial em nossas equipes. Isso só foi possível por meio da construção de uma cultura de diversidade, equidade e inclusão racial.
Temos consciência de que ainda há um longo caminho a percorrer na construção coletiva de uma organização ainda mais plural e igualitária, portanto, seguiremos nesse trajeto até que a organização que almejamos se torne uma realidade.

 

Quais outros pontos você gostaria de acrescentar, além dos cobertos acima, como principais elementos para atrair profissionais capacitados para trabalhar em MSF no Brasil ou no mundo?

Gostaria de acrescentar que MSF-Brasil é uma organização comprometida com a promoção da diversidade e a inclusão em nossas equipes. Prezamos, incentivamos e trabalhamos intensamente para uma equipe plural, rica em diversidades de origem, etnia, gênero, orientação sexual, idade e/ou religião e que, principalmente, seja movida pelo trabalho de MSF. Então, se você tem paixão pelo trabalho de MSF, saiba que este é o primeiro passo para construir uma carreira humanitária incrível com a satisfação de trabalhar por uma causa que contribui para a vida de tantas pessoas.

 

Lições de carreira
Há alguns anos, sou doador da “Médicos Sem Fronteiras”, entrei em contato a organização no país, para entrevistar algum colaborador para esta coluna. A ideia inicial era ter alguém da área médica de preferência com alguns anos de experiência, se possível com vivência em gestão. Na interação com a Assessoria de Comunicação, houve a opção por uma profissional que não era da área médica, e foi sugerido abordar o tema da diversidade e inclusão na organização. Como resultado, considero que a entrevista com Maíra de Oliveira acabou sendo bem abrangente, cobrindo diferentes aspectos da instituição. Pela entrevista, fica evidente que Maíra buscou conciliar sua carreira profissional com seu propósito maior, algo que ela vislumbrou durante seu período em Londres, isto mostra entre outros pontos senso de visão e exercício da escolha!

É meu sincero desejo que esta matéria possa servir de estímulo para profissionais, quer da área médica ou de outras, a considerar a MSF em suas carreiras.

Grato pela leitura. Nos encontramos no próximo!

Publicidade
Publicidade