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Coluna Carreira | Alto Executivo de Multinacional do Sul do País compartilha sua visão sobre carreira internacional
14 de Maio de 2022

Coluna Carreira | Alto Executivo de Multinacional do Sul do País compartilha sua visão sobre carreira internacional

Conheça um pouco da trajetória de Rodrigo Fumo, Diretor Global de Engenharia da WEG.

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Por Prof Jonny 14 de Maio de 2022 | Atualizado 22 de Maio de 2022

Nesta entrevista, temos a participação do engenheiro Rodrigo Fumo, que atua há 20 anos na WEG, sendo desde 2020 seu diretor global de engenharia de motores e energia. Rodrigo morou por quase cinco anos na China, onde também foi diretor de engenharia. Formado em Engenharia Mecânica pela UFSC, com Pós-Graduação em Lean Manufacturing, MBA pela FGV, formação executiva pela Stanford na Califórnia, seu currículo mostra atuações também na Austria e Alemanha.

 

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Agradeço muito por sua disposição em contribuir com nossa coluna sobre carreira. Considero sua trajetória impressionante, que deve servir de inspiração para jovens profissionais, não somente engenheiros. Quais decisões você considera que foram mais estratégicas no início de sua carreira?

Primeiramente muito obrigado pela oportunidade Prof. Jonny. É um prazer enorme poder compartilhar experiências e melhor ainda em fazê-lo através do Sr. que foi meu professor na EMC e influenciou de maneira muito positiva a necessidade do aluno de gradução enxergar-se como profissional desde sempre.
No início da carreira, logo após me formar em Engenharia Mecânica, procurei colocação no mercado de trabalho em uma empresa que estivesse no Sul do Brasil e fosse uma multinacional com potencial de expansão, pois gostaria de em algum momento ter um ciclo de vivência e morada no exterior. Assim nascia o meu ciclo na WEG. Iniciei no Programa Trainee e desde o início das atividades profissionais busquei consolidar um forte conhecimento técnico nos temas da unidade de negócio que estava trabalhando, pois isso poderia me proporcionar maior mobilidade dentro da empresa para oportunidades de atuação em outras áreas, como Controle de Qualidade, Pesquisa e Desenvolvimento, Vendas Técnicas e afins. Como vinha de um intercambio internacional no final do curso de gradução, meu domínio do idioma inglês e alemão estava muito bom, o que permitiu envolver-me em projetos e assuntos com unidades do exterior logo no início da carreira na WEG. Procurei também aprender os conteúdos de maneira mais rápida que o ritmo tradicional, atuando em mais trabalhos, trabalhando por mais horas, estudando à noite e focando o meu tempo livre durante a semana para assuntos profissionais complementares. Com isso tracei a estratégia de primeiro buscar um dominio técnico para depois lançar-me a desafios de coordenação de equipes e gestão.

 

É possível destacar que desde o início de sua carreira houve uma tendência para internacionalização. Isto foi planejado ainda na universidade? Se não, como e quando planejou? Que sugestões você daria a algúem visando ter um perfil semelhante?

Desde os primeiros meses de universidade ficaram evidentes as inúmeras oportunidades de intercambio e pesquisa avançada que potencialmente os alunos tinham ao dominarem idiomas como inglês e alemão, principalmente, além do francês. Foi ali que começaram os primeiros passos de melhoria na fluência do inglês e as etapas básicas do idioma alemão. Adicionalmente busquei logo no primeiro semestre da universidade atuar em um dos Laboratórios da EMC, ainda que de início sem qualquer bolsa de estudo, visando complementar os conhecimentos das aulas de graduação com uma prática do Laboratório. Envolvi-me com projetos de máquinas, dimensionamento mecânico, desenho e modelagem em 3D em software CAD, além de participar ativamente do projeto Mini Baja no ano de 2000, onde obtivemos naquele ano a melhor colocação geral histórica da UFSC, um 6º. Lugar entre mais de 60 participantes. Como por várias vezes repetia um dos professores de graduação da UFSC EMC: “Para quem não sabe aonde quer chegar qualquer caminho serve”, então tracei desde os primeiros semestres da Graduação o meu plano de buscar aumentar a minha versatilidade na carreira. Portanto as sugestões que compartilho são, seja curioso, estude e procure aprender mais que a média, dedique-se tanto nas habilidades técnicas quanto interpessoais, pois um excelente técnico sem habilidade de trabalho em equipe se torna muito limitado, ainda que seja o melhor aluno da turma. Domine pelo menos uma linguagem de programação, pois isso tornará seu dia a dia mais prático, dinâmico e focado. Escreva o seu plano numa folha de papel, planilha do excel ou similar, mas tenha um plano, ainda que macro, de onde você quer chegar ano a ano.
___________________
[1] EMC- A forma como é referenciada a Engenharia Mecânica da UFSC, mais informações visite: emc.ufsc.br

 

Percebe-se que você se encontra há duas décadas na mesma empresa, naturalmente tendo exercido várias funções em diferentes países. No cenário atual, marcado por tanta rotatividade, quais fatores você considera que mais contribuíram para sua permanência por este período? Foram estes de natureza mais organizacionais, relacionados à cultura da empresa, ou seus interesses pessoais tendo como objetivo crescer na mesma organizacional ou uma combinação destes e outros aspectos?

Costumo dizer que estou há 20 anos no mesmo Grupo, mas não 20 anos na mesma empresa. Ao longo destas duas décadas a empresa teve que se reinventar para manter-se crescendo e competitiva no mercado e para que isso ocorresse também boa parte do seu time também o fez. Isso significa que estudo muito e aprendo coisas novas todos os dias. É preciso estar atento às necessidades dos clientes, do mercado e da empresa. Os requisitos para os profissionais mudam ano a ano, tornando cada vez mais exigente a formação e os soft skills, fazendo com que os estes precisem se manter atualizados. Permanecer estes 20 anos na empresa tem a ver tambem com a identificação que tive com a cultura da mesma, que é de trabalho árduo, respeito às pessoas, ética e transparência além da meritocracia. Aliado a isso, entraram as possibilidade de carreira, pois em uma empresa que cresce e expande suas operações sistematicamente, como na WEG, abrem-se oportunidades tanto no Brasil quanto exterior. Porém para poder ter a chance destas é preciso estar em linha com as necessidades, disposto a correr riscos e sair da zona de conforto.

Claramente, o fato de você ter atuado por um considerável período na China deve despertar curiosidade de várias pessoas sobre sua trajetória. Quais foram os maiores desafios deste período? Na unidade que você dirigiu, qual era a percentagem de chineses em cargos gerenciais? E como era a relação entre os locais e os colaboradores de outros países?

Começarei a minha resposta com uma pergunta que sempre me fazem: Por que China? Pois bem, em 2012 quando estava trabalhando na Austria pela WEG, tive a oportunidade de ir para a China pela primeira vez. Fiquei atônito com o que vi. Dinamismo, economia pujante e um mar de desafios a serem superados. Quando retornei do trabalho da Áustria para o Brasil me perguntaram, quer ir para a Áustria? Eu disse não, quero ir para a China, pois entendia que lá efetivamente iria colocar-me em situação de extremo desafio, seja pelo idioma, cultura, diferença de horário com a matriz, mas com possibilidade de realmente me tornar um profissional muito mais competitivo no mundo coorporativo. Dentre os maiores desafios foram entender a forma de pensamento da cultura local e como sincronizar isso com os objetivos e metas da empresa. Sem dúvida alguma que o idioma foi um enorme desafio, mas que com força de vontade e dedicação sempre há um alternativa de compensar esta pouco fluência no idioma, no final as pessoas seguem muito mais o que você faz do que o que você fala. Liderança pelo exemplo e valorização da equipe local, engajando e envolvendo nas decisões, treinamentos e confraternizações foram as maneiras de obter êxito nas atividades. As posições gerenciais eram parte ocupadas por chineses e parte por estrangeiros, porém com a estratégia de desenvolvimento do time local e sustentabilidade nos negócios em longo prazo, fomos desenvolvendo profissionais locais (Chineses) para assumir estas funções. Ter profissionais locais treinados, desenvolvidos e capacitados atuando na gestão elevou ainda mais a boa performance dos negócios. Hoje temos praticamente 100% da equipe de gestão sendo formada por Chineses. A relação com diferentes culturas sempre tem o seu desafio e altos e baixos, porém através da empatia, treinamentos de desenvolvimento de equipes, intercâmbios e gestão participativa, conseguimos superar os desafios e fortalecer o relacionamento.

Até que ponto, o desafio de atuar como diretor num país tão complexo como a China foi determinante para você ocupar o atual cargo? Você considera que poderia exercer esta função agora, caso tivesse continuado no Brasil?

Acredito que a vivência na China abriu-me um horizonte muito mais amplo para as necessidades do negócio, de aumento de competitividade em custos, de agir de maneira muito mais dinâmica para manter-se vivo no mercado, de reinvenção constante, mas sempre mantendo a simplicidade e foco em sustentabilidade. Não posso afirmar que se tivesse ficado no Brasil não teria essa oportunidade, mas tendo esta experiência na China certamente me levou a uma preparação profissional diferenciada, e com mais habilidades para continuar construindo e transformando a empresa visando a perpetuidade desta. O fato é que me sinto infinitamente mais preparado para atuar nas minhas atividades tendo tido estas experiências internacionais, seja na Alemanha ainda na UFSC, como Austria e China já na carreira profissional.

Em termos de trabalho em equipe, um dos pontos mais relevantes do cenário atual, é a possibilidade de interagir com pessoas de diferentes culturas. Você poderia comentar um pouco sobre este ponto em sua trajetória de executivo?

Entender as nuances de cada cultura é fundamental e determinante para construir relacionamentos de negócios e profissionais com sucesso. Por exemplo, a forma de pensar e atuar de um Americano é diferente do Alemão, como é muito diferente do Chinês, porém todos estes e muitas outras culturas estão ao mesmo tempo no mundo corporativo mundial. Eu gosto muito do lado prático do Americano, o lado direto do Alemão e o lado de trabalho árduo e superação do Chinês. Já na cultura Latina temos o lado mais passional e informal, fazendo com que se gerem ambientes com alta criatividade e adaptabilidade. Entendendo e estudando cada cultura se controi times de alta performance e um excelente ambiente de negócios. Eu acho fantástica essa interação com diversas culturas, é um desafio diário!

Falando um pouco para os profissionais com formação mais tecnológica, tipicamente engenharias e TI, é normal ter certo dilema entre a carreira com perfil mais técnico ou atuação mais gerencial. Em que momento de sua trajetória você definiu por ter um perfil mais gerencial? Até que ponto a cultura da empresa, fomentando o desenvolvimento profissional com outras formações, como exemplo seu MBA, foi determinante para seu crescimento na organização? Se sim, isto era uma política institucional ou você considera que foi mais uma iniciativa pessoal?

Como mencionei anteriormente, no início da carreira busquei aprofundar-me nas questões técnicas das áreas onde estava atuando, pois entendia que isso era necessário para uma melhor performance como profissional em caso de transição de funções. A questão gerencial veio a partir dos trabalhos em equipe que me envolvi e outros que coordenei isso com 2 a 3 anos de empresa. Ali percebi que tinha também habilidade para gerir equipes e com uma boa estruturação técnica poderia atuar de forma mais forte e suportando o time para questões também técnicas. A empresa também contribuiu e contribui bastante na formação dos profissionais ao prover treinamentos de cunho técnico, comportamental, relacionamento humano e desenvolvimento em geral. Tive e tenho tido a oportunidade de realizar vários treinamentos pela empresa, mas sempre busquei o auto-desenvolvimento, ao ponto que a Pós Gradução em Lean Manufacturing, MBA via FGV e alguns outros eu mesmo custeei as despesas. Isso me tornou um profissional mais versátil e diferenciado. A empresa em contrapartida estimula em muito o desenvolvimento profissional também com MBAs proporcionados por esta, por exemplo.

Quais características não técnicas, as chamadas soft skills, você considera que mais desenvolveu, ou está desenvolvendo, na sua atuação como executivo? E quais recomendações você daria aos jovens, estudantes ou profissionais, para desenvolver tais habilidades?

Eu vejo como as mais importantes das Soft Skills a Adaptabilidade e Resiliência. Remeto a Darwin, pois nem sempre quem vence é o mais forte, mas o que melhor se adapta. Adicionalmente listo a capacidade de comunicar-se de maneira clara e objetiva visando alinhamento das pessoas aos temas em debate, assim como a habilidade de trabalho em equipe, capacidade de resolver problemas, liderança e relacionamento interpessoal. Entendo que estas que listei acima são as que mais desenvolvi até o momento e tambem que recomendaria aos jovens, estudantes e profissionais.

Quais sugestões você daria para alguém que começa hoje sua formação numa área de tecnologia?

Se dedique a dominar alguns temas da sua área de formação, mas tenha flexibilidade e dinamismo para adaptar-se à rápida mudança de cenários e necessidades complementares. O aprendizado é contínuo e construir uma carreira numa empresa ou empreender demandarão muito empenho, dedicação, resiliência e planejamento de longo prazo. Tenha foco, não fique pulando de galho em galho.

Em retrospectiva, até que ponto as atividades extracurriculares realizadas durante sua formação, contribuíram para sua trajetória profissional?

Entendo que foram fundamentais!!! Parte do aprendizado vem da formação curricular, mas uma série de outras vem através de atividades extras. O dia é longo e sempre há tempo para se fazer as coisas, é questão de organização e foco. Procure relacionar-se também em ambientes com pensamentos diferentes dos seus e áreas diferentes das suas, pois isso lhe dará uma visão mais ampla de possibilidades e já serve para desenvolver habilidades de interrelacionamento e gestão de conflitos/equipes. Aproveite a experiência dos docentes para extrair os bons exemplos de cada um e assim buscar tornar-se um profissional mais completo e um ser humano melhor.

Lições de carreira

Ao convidar Rodrigo para entrevista, percebi que ele teria condições de contribuir com o propósito da coluna, mas confesso que me surpreendi com a riqueza de detalhes, e prontidão como ele compartilhou suas experiências. São várias lições que podemos colher, as que destaco foram visão de longo prazo desde o início, definindo passos estratégicos (como a escolha da empresa multinacional no sul), do domínio de idiomas, disposição em encarar desafios, e buscar aprender sempre. Além disto, deixo uma nota pessoal, fui professor de Rodrigo na graduação há mais de 20 anos, e mais recentemente tivemos contato pelas redes sociais, ao contatá-lo para entrevista, ele prontamente respondeu já se colocando à disposição. Na semana em que interagimos, ele estava com dias bem intensos com visitantes do Brasil e do exterior, mas mesmo assim, alocou seu tempo para responder de forma clara, generosa e ampla todos os questionamentos. E ainda agradecendo pela oportunidade. Isto demonstra a atitude de servir ao próximo acima de interesses pessoais. Com certeza, tais atributos em muito contribuíram para o excelente profissional que ele se tornou.
Espero que estas lições sirvam a você, leitor, tanto quanto me serviram.

Grato pela leitura. Nos encontramos no próximo!

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