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A vez e a voz das mulheres no pagode
28 de Junho de 2022

A vez e a voz das mulheres no pagode

Cantora Karinah lançou, no Dia do Pagode, o álbum audiovisual "Karinah por Elas", em que reuniu 27 mulheres para interpretar 37 clássicos do gênero. Leia a entrevista da cantora para a coluna Entretenimento

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Por Entretenimento 28 de Junho de 2022 | Atualizado 28 de Junho de 2022

Antes de mais nada, é importante dizer que a partir de hoje, a coluna Entretenimento, do AcontecendoAqui, também tem um espaço às terças-feiras. Neste dia, a ideia é trazer matérias, entrevistas e conteúdos com mais informações, que acabam ficando maiores e demandando mais tempo de leitura. O primeiríssimo neste formato é uma entrevista com a Rainha do Pagode, a cantora Karinah. Leia e entrete.tenha-se!

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O mercado da música – e o público – têm uma certeza: se muitos nomes de um gênero específico surgirem, significa que ou ele está em ascensão ou já está em alta e os ventos são promissores.

Pois em 2021, o pagode escrito e interpretado por mulheres virou uma aposta de grandes gravadoras. Se historicamente este é um gênero musical representado por homens, a Rainha do Pagode, cantora paranaense, atualmente radicada no Rio de Janeiro, e que viveu muitos anos em Santa Catarina, Karinah, montou o álbum audiovisual “Karinah por Elas”, lançado no último 18 de maio, quando também é comemorado o Dia do Pagode.

Karinah conversou com a coluna Entretenimento e contou mais sobre sua história e como chegou em seu primeiro álbum visual que tem a participação de 27 mulheres cantoras e musicistas. Confira a conversa!

Crédito: Marcos Hermes

Karinah, uma pergunta que ainda é necessária: como é ser protagonista em um lugar dominado pelos homens há tanto tempo?

Não é de hoje que a mulher tem muita dificuldade para conseguir seu lugar ao sol. Dentro do segmento do samba, a gente ainda vive um mundo muito patriarcal, onde a mulher só existe para aplaudir e balançar o bumbum, sendo que existe muita mulher no samba como compositora, principalmente. O primeiro abre alas, por exemplo, foi composto por Chiquinha Gonzaga, mas mesmo assim, o mercado sempre foi dominado por homens. Hoje estamos conseguindo conquistar nossa liberdade, mas ainda é preciso muita luta.

Tudo o que venho fazendo nos últimos dois anos é voltado para o público feminino. Agora, com o Karinah por Elas, posso mostrar o resultado da minha luta que é uma causa muito importante da minha vida, por ser a concretização de um propósito, o de dar espaço e voz a mulheres talentosas, ao lado de grandes artistas e novas promessas da música nacional.

Nós somos os “filhos” e as “filhas” de Dona Ivone Lara, a primeira mulher a fazer parte de uma ala de compositores em uma escola de samba, Alcione, Ivete Sangalo, Clara Nunes que na década de 1970 representou o Brasil no Festival de Midem, em Cannes, Leci Brandão, Eliana de Lima que nos anos 90 tornou o pagode romântico um sucesso nacional, para citar apenas alguns nomes.

A história da mulher foi fundamental dentro do samba e a gente precisa continuar esse legado com muito amor. Temos muitas mulheres no mercado que precisam de uma janela para serem vistas e conquistarem seus caminhos. Conseguimos essa conquista do álbum, mas temos que montar o plano de guerra e ir para frente. Precisamos nos posicionar.

 

Qual é o maior desafio de estar em um meio em que os homens são a maioria?

São muitas as dificuldades. Uma delas é fazer com que o grande público normalize ouvir mulheres cantando pagode. Temos muitas referências do samba. Mas no pagode, a última referência foi a Adriana Ribeiro, do grupo Adryana & A Rapaziada, mas o povo não está mais acostumado a ouvir a mulher cantando pagode, diferente do samba. Para fazer com que o mercado acredite que a gente pode virar essa história, precisamos construir essa oportunidade, abrir essas portas.

Como você enxerga as cantoras já famosas que dão espaço para o gênero ganhar força?

Os processos da Ludmilla, que lançou o “Numanaice”, da Luísa Sonza e a música “Não Vai Embora”, em parceria com o Dilsinho, das representantes do feminejo, Maiara e Maraisa e o sucesso “Libera Ela” foram ótimos, porque elas já tem um público consolidado e, dessa forma, levam o nosso gênero para o mundo inteiro e acabam abrindo muitas portas para mulheres e homens, também.

 

Crédito: Marcos Hermes

Agora, uma dúvida curiosa que eu tenho aqui, Karinah. Você conta que sua família era superprotetora, mas teu amor pela música era tanto, que mesmo eles sendo um pouco resistentes, você iria cantar, mesmo se tivesse que pular a janela de casa para isso! E aí, você chegou a pular a janela mesmo? (risos)

(Entre risos) Então! Eu fui apresentada ao samba muito pequena. Minhas tias e mãe trabalhavam bastante e aos finais de semana a gente se juntava e elas ouviam muitos discos, entre eles o de Clara Nunes. E eu já sabia que queria cantar como Clara Nunes. Quando tinha 12 anos, morávamos em Joinville e tínhamos duas vizinhas que tocavam violão. Quando eu ouvia elas pegando o violão para tocar, eu literalmente pulava o muro para ir cantar com elas. Então a janela não, mas o muro já pulei, sim! Inclusive, foram essas vizinhas que me levaram para cantar no primeiro festival de música realizado em Barra Velha. Elas foram minhas incentivadoras.

 

Qual sua relação com Santa Catarina?
Tenho um amor, uma paixão por este estado. Pelo menos duas vezes por mês eu vou para ver minha família que ainda mora por aí. Já morei em Balneário Camboriú, Florianópolis, onde tive a produtora K2, participei de escolas de samba de Floripa, trabalhei com o Dazaranha, John Bala Jones e tantos outros nomes da música da região. O reconhecimento é a busca do artista. Quando sou chamada para dar uma entrevista para Santa Catarina, eu fico muito feliz, porque como é minha casa, sempre é minha prioridade.

 

Como é seu público aqui em Santa Catarina, e quando você vem para cá com o “Karinah por Elas”?
Ah, Santa Catarina é como um pai que me deu a oportunidade de participar da abertura de muitos shows. Foi aí que conheci Ivete Sangalo, ela fez a ponte entre mim e Letieres Leite, quem me abriu muitas portas na carreira. Além disso, tive a oportunidade de trabalhar com Daniel Lucena, Acústico Brognoli, projeto em prol da rede feminina de combate ao câncer, com as orquestras do estado, sou madrinha do teatro SCAR, em Jaraguá do Sul e de um orfanato, que foi o mesmo em que fiz o internato, quando era criança… Santa Catarina é um estado que tem meu coração, ainda quero gravar um produto audiovisual aí, em forma de agradecimento mesmo, como a Ivete fez com Juazeiro há pouco.

O “Karinah por Elas”, em um primeiro momento, não tem a intenção de circular pelo país. A ideia é dar mais espaço para as meninas do pagode na TV e no digital. Toda a equipe, incluindo a Preta Gil, minha empresária, e o time de comunicação, todos estão fazendo um trabalho maravilhoso. O álbum visual foi lançado no Multishow e tem reprise no canal BIS e essa conquista é muito relevante para mim, pessoalmente, e para o projeto.

Disponibilizar o projeto nas plataformas digitais de música é o grande objetivo até agora. Afinal, são 27 mulheres, cantoras de pagode, reunidas para apresentar grandes sucessos! Acaba sendo uma estrutura muito grande para fazer o projeto ser itinerante. Mas, se houver a oportunidade de inscrevê-lo em alguma lei de incentivo, vamos com certeza! No momento, a ideia é focar mais no digital, para despertar nas pessoas a vontade de conhecer o projeto e ouvir mulheres cantando pagode.

 

Bom, uma mulher que já fez tantos projetos não pode parar mesmo! Qual seu próximo projeto?
Além de estarmos fazendo um estudo a fundo de como fazer tudo isso chegar no coração das pessoas, para descobrir onde está o perfil de público que consome a mulher no pagode, eu preciso focar em mim e no meu trabalho. Então, em breve, vou entrar em estúdio para um novo show, que deve inclusive ir para fora do Brasil, mas não posso falar muito por enquanto.

Só tenho a agradecer a todo o público de Santa Catarina que sempre me recebe de braços abertos. É um prazer ser do Estado e voltar para cá sempre que sou chamada.

O “Karinah por Elas” tem direção musical de Boris Farias e, entre cantoras e musicistas, conta com a participação de 27 mulheres interpretando 37 clássicos do samba e do pagode. Grandes artistas e novas promessas da música nacional estão presentes na obra, entre elas Marvvila, Ana Clara, Andressa Hayalla, Aline Costa, Deborah Vasconcellos, Thais Macedo, Juliana Diniz, Renata Santiago, Gica, Gabby Moura e o grupo Entre Elas, além de uma banda toda feminina.

Reafirmando, assim, a presença feminina tanto como compositoras quanto como intérpretes do samba e do pagode, Karinah e o diretor Pedro Secchin, também prestam uma linda homenagem a grandes potências do samba, como Beth Carvalho, Dona Ivone Lara e Clementina de Jesus, e reforçam a mensagem de sororidade e luta por mais espaço para mulheres no gênero que, ainda hoje, é predominantemente representado por artistas masculinos.

Assista ao “Karinah por Elas”

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