Paulo Arenhart fez parte dessa turma de primeiros aprendizes. E ele não ficou somente nos ensinamentos da sala de aula. Sem estar formado, ingressou na Assembleia Legislativa e, em 2012, seu trabalho já completou as bodas de pérola com a casa. A história dessa longeva relação, contudo, está recheada de pulos de cerca.
É que o jornalista em muitas oportunidades aventurou-se em outras atividades. Licenciou-se da Assembleia para exercer a profissão em jornais locais, como o Diário Catarinense e O Estado. Passou também por emissoras televisivas e de rádio.
Marketing político, cargos de gestão, reportagem, assessorias de imprensa, Secretarias de Estado. Paulo Arenhart passou por todas essas funções. A mais impactante para o mercado editorial foi a criação do Jornal Notícias do Dia, do Grupo Ric, que mexeu com mercado local. Paulo foi o estruturador da implantação do jornal e também o seu primeiro editor-chefe.
Hoje, reconciliou-se com sua amada Casa, a Assembleia Legislativa, e, avaliando a qualidade dos impressos da região, lamenta a falta de crítica e de análise. Paulo Arenhart aponta também problemas na formação dos profissionais, que desde a universidade leem pouco, ou quase nada.
Blogueiro, tuiteiro e com longa atividade na região, Paulo é um baú de histórias que conhece as entranhas da nossa imprensa. Sua trajetória o embasa para a seguinte declaração: “O jornalismo de Santa Catarina está precisando de mais independência”.
Paulo Arenhart – Até foi com bastante surpresa que eu vi hoje, que A UFSC continua sendo o melhor curso de jornalismo do país, segundo uma pesquisa que saiu aí [Avaliação realizada pela Abril]. E , na época, o curso era também bem conceituado. Eu entrei na terceira turma., em 1980, e me formei em 1984. A gente tinha professores excelentes: Cesar Valente, Adelmo Genro Filho, Francisco Karan, Eduardo Meditch, Ayrton Kanitz, Maria Helena, Paulo Brito, enfim, era uma gama de professores de primeira linha, a maioria saída das universidades do Rio Grande do Sul, que vieram montar o curso aqui.
E, na época, o curso ainda estava se estruturando. Tinha muita greve, muita paralisação, tinha que buscar essa estrutura junto a mobilizações, junto a reitoria. Eu me lembro que ah… chegou na época das cadeiras de fotografia, então tinha greve e paralisação para compra de máquinas, equipamentos, laboratório, e o curso foi se estruturando assim, passo a passo.
Quando chegou a televisão eles não tinham estúdios e a gente fez toda cadeira de televisão no estúdio da TV Barriga Verde, que foi um convênio que o curso fez com a TV. Mas foi um bom curso pela disposição dos professores em querer fazer um bom curso. Aquele idealismo dos professores é que fez do curso de jornalismo da UFSC um bom curso e chegou entre os primeiros do país.
O Daniel Hertz foi um dos nossos professores, que tem livros publicados sobre teoria de comunicação.
E eu entendo assim: uma coisa é trabalhar o jornalismo na imprensa escrita, falada, televisionada. E outra coisa é trabalhar em assessoria. Na assessoria, o trabalho é muito mais de relações públicas, que de jornalista. E você tem que saber ter ética para diferenciar essas duas atuações. Tanto quando você está fazendo assessoria, quanto quando você está exercendo a profissão de jornalista, buscando respostas para as perguntas dos acontecimentos do dia-a-dia.
Ping – Esse direcionamento de que você fala, o artifício principal dele era o preço. Mas e textualmente e editorialmente, ele também atingiu êxito? Conseguiu sempre ser direcionado ao seu público?Paulo Arenhart – Sim, sim, porque ele era pensado assim. Matérias simples, curtas, objetivas, com um texto enxuto, sem muito floreio. Um jornal com manchetes fortes, chamativas, com fotos que ilustravam bem o que tava acontecendo. Isso mexeu com o mercado editorial de Santa Catarina, que a toque de caixa, alguns meses depois, a RBS se mexeu e lançou o Hora de Santa Catarina, com a mesma proposta que eles tinha no Diário Gaúcho, no Rio Grande do Sul. Isso mostra o sucesso que foi o lançamento desse jornal [Notícias do Dia].
Ao mesmo tempo, não adianta eu gastar uma página sobre as cotações da bolsa de valores para um público que compra um jornal que custa R$50… Ele não vai procurar quanto que está a cotação da Petrobras. E se eu oferecer essa informação para ele, é botar espaço fora, porque ele não vai ler. Muitas coisas, no decorrer do processo de formatação do jornal, foram acrescentadas ao processo editorial e outras coisas retiradas. Uma delas foi esse tipo de negócio… Ah o preço do dólar… As pessoas não querem saber disso… Agora, o preço do salário mínimo, o preço da cesta básica… Isso até pode interessar para essas pessoas.
Depois disso eu sai. Eu voltei a trabalhar em jornal, fui trabalhar em banco, fui assessor do BRDE, fui pra lá e pra cá… E em 1994 o Paulo Afonso me chamou de novo, ele queria montar a mesma equipe para as eleições daquele ano. Nós fomos lá trabalhar com ele, montamos uma equipe um pouco maior e acabamos ganhando a eleição.
Mas assim, a cultura também é uma encrenca… É um setor muito maltratado pelos governos. Inclusive no nosso, apesar de a gente ter obtido um resultado bastante efetivo na minha gestão da Fundação Catarinense de Cultura, porque todos os programas que estavam em andamento foram adiante, retomamos o Prêmio Cruz e Sousa de Literatura, Salão Victor Meirelles, criamos o MIS, a Lei de Incentivo à Cultura do Estado fui eu quem criei, que o estado não tinha até então.
Eu tive uma passagem muito legal por lá, por isso que é um dos lugares que eu gosto de recordar na minha trajetória, porque gerou bons frutos para o setor. Bem ao contrário do que acontece em outras gestões, ou como está acontecendo hoje em que estamos indo para o sexto ou sétimo secretário em três anos de governo.
Tanto blog quanto o Twitter é muito mais um megafone que eu uso para gritar o que estou afim. E eu acho que o Twitter permite isso, e por isso que eu acho legal. Não tem muita interferência, quem quiser escutar, escute. Quem quiser ler, leia. Quem não quiser me seguir, ou achar que está errado, ache… fique a vontade.
