Inspirada pela ascensão da perfumaria árabe nas redes sociais e no varejo, a Natura estrutura uma plataforma global
que une biodiversidade brasileira, tecnologia e sofisticação olfativa.

No centro desse projeto está o Essencial Safran, fragrância que traduz a opulência característica da perfumaria do Oriente Médio ao trazer o açafrão como protagonista. Desenvolvido em cocriação com perfumistas internacionais e com a presença de ativos da biodiversidade brasileira, o lançamento simboliza a capacidade da Natura de unir repertórios distintos em uma narrativa autoral. Mais do que um produto, trata-se da construção de uma plataforma contínua, que já inclui linhas como Oud e Mirra e reforça o posicionamento da marca em um segmento em plena ascensão.
Ao longo da conversa, Diego Costa detalha como dados culturais, comportamento digital e tecnologia aplicada orientam essa estratégia. Da análise do crescimento da perfumaria árabe nas redes sociais à atuação conjunta entre marketing, P&D e perfumistas, a Natura busca transformar tendência em legitimidade de marca. O resultado é uma abordagem que vai além do olfativo: envolve educação do consumidor, construção de repertório e a ambição de liderar, com autenticidade, um novo capítulo da perfumaria no Brasil e no mundo.
Apresentamos aos nosso leitores uma conversa que tivemos com o diretor sênior de marketing da Natura, Diego Costa.
Qual é hoje o seu papel dentro da Natura e como a perfumaria passou a fazer parte da sua trajetória profissional?
Hoje sou responsável pela gestão de todas as submarcas da Natura em todos os países da América Latina que estamos presentes. A perfumaria passou a fazer parte da minha vida profissional em 2007 quando iniciei minha carreira.
A Natura construiu sua identidade muito ligada à biodiversidade brasileira, o que levou a marca a buscar referências também na tradição da perfumaria do oriente médio?
A biodiversidade brasileira e amazônica sempre foi o ponto de partida da nossa perfumaria, mas a Natura também nasceu com uma vocação de diálogo cultural. A perfumaria é uma linguagem global e, historicamente, o Oriente Médio é um dos seus berços mais sofisticados. Ao olhar para ingredientes como oud, mirra e açafrão, encontramos matérias-primas com uma tradição milenar que conversam com aquilo que já fazemos: trabalhar ingredientes nobres de forma autoral. O encontro entre essas duas culturas, a riqueza olfativa árabe e a potência da biodiversidade latino-americana, amplia nosso repertório criativo sem perder identidade olfativa.
Nos últimos anos, a perfumaria árabe ganhou forte visibilidade nas redes sociais antes mesmo de se consolidar como categoria no varejo. Como a Natura interpreta esse movimento cultural?
Observamos um fenômeno interessante: a conversa digital antecipando a transformação do mercado. Nas redes sociais, criadores de conteúdo passaram a discutir notas, duração e performance com muita profundidade, e isso despertou curiosidade em um público mais amplo. Quando vemos hashtags relacionadas ao tema alcançando grande audiência no Brasil e um crescimento consistente nas buscas online por “perfumaria árabe”, entendemos que não se trata apenas de estética, mas de um novo repertório olfativo que o consumidor quer experimentar.
Existe o risco de que esse interesse seja apenas um modismo ou vocês enxergam longevidade nesse território olfativo?
Quando uma tendência aparece simultaneamente em múltiplos sinais e canais como redes sociais, comportamento de busca, novos players e expansão de portfólio, ela deixa de ser apenas um hype. A perfumaria árabe tem raízes culturais muito profundas e uma tradição que atravessa séculos. O que vemos agora é uma redescoberta global dessa identidade olfativa. Por isso acreditamos que existe espaço para uma construção de longo prazo, especialmente quando o território é reinterpretado com autenticidade.
O crescimento desse estilo de perfumaria parece conectado à busca contemporânea por identidade e individualidade. Como uma marca de grande escala traduz essa necessidade de singularidade em produto?
A fragrância é uma das formas mais pessoais de expressão. Mesmo em uma marca com grande alcance, conseguimos traduzir singularidade ao trabalhar ingredientes nobres, composições complexas e narrativas fortes. Quando desenvolvemos perfumes com assinatura marcante e alta performance, oferecemos ao consumidor a possibilidade de construir presença e memória olfativa próprias.
Em que momento surgiu a ideia de desenvolver um projeto de fragrância a partir de experiências em Dubai?
Dubai é um dos centros contemporâneos mais relevantes da perfumaria árabe. Ao aprofundar nossa pesquisa sobre esse universo, percebemos que era importante ir além da inspiração e buscar imersão cultural. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de desenvolver parte do projeto em contato direto com especialistas desse mercado, para entender não apenas os ingredientes, mas também os rituais, a intensidade e a tradição que definem essa perfumaria.
Desenvolver uma fragrância em contato com especialistas da perfumaria árabe reforça que tipo de ambição global para a Natura?
Mais do que nossa ambição, reflete nossa tradição em traduzir os desejos dos nossos consumidores a partir de uma assinatura olfativa autoral. Trabalhar com especialistas internacionais amplia o repertório técnico e cultural do projeto, ao mesmo tempo em que nos permite levar para essa conversa elementos únicos da Natura, como ingredientes da Amazônia e o foco em regeneração. É um intercâmbio criativo que posiciona a marca de forma mais relevante no cenário global.
Houve algum momento específico durante essa experiência que fez vocês perceberem que aquele universo poderia se transformar em um perfume?
O que mais nos marcou foi perceber como os ingredientes são tratados quase como joias na tradição árabe. Existe um respeito profundo pela matéria-prima e uma valorização da intensidade e da longevidade da fragrância. Essa relação emocional com o perfume nos mostrou que havia um território muito rico para reinterpretar com o olhar da Natura.
Qual foi o brief inicial dado aos perfumistas para o desenvolvimento da fragrância?
O brief partia de um conceito claro: criar uma fragrância que traduzisse o encontro entre dois universos olfativos potentes. Queríamos capturar a opulência da perfumaria árabe e combiná-la com a identidade brasileira da marca. Isso significava trabalhar ingredientes icônicos, explorar intensidade e fixação, mas construir uma assinatura que fosse reconhecível como Natura.
Como equilibrar características marcantes da perfumaria árabe com a assinatura autoral dos perfumistas e a identidade brasileira da Natura?
Esse equilíbrio acontece por meio da composição. Em vez de reproduzir uma fragrância típica do Oriente Médio, buscamos uma interpretação. Ingredientes árabes trazem profundidade e riqueza, enquanto matérias-primas da biodiversidade brasileira adicionam essa singularidade e identidade olfativa que só a Natura tem. O resultado único traz a assinatura da perfumista exclusiva da Natura, Verônica Kato, em co-criação com dois grandes perfumistas internacionais especialistas em perfumaria árabe: Pierre Guéros e Gael Montero. Essencial Safran é um perfume que traz o legado da tradição com uma leitura autoral e brasileira.
Imagem: Natura- Divulgação
O encontro entre o açafrão, ingrediente associado ao oriente médio, e o ishpink amazônico foi pensado como um símbolo desse diálogo cultural?
Sem dúvida. O açafrão, conhecido como “ouro vermelho”, representa o luxo histórico da perfumaria árabe. Já o ishpink, também chamado de canela amazônica, traz a assinatura da biodiversidade brasileira. Quando esses dois ingredientes se encontram na mesma fragrância, eles contam uma história sobre esse encontro entre cheiros, potências e tradições.
O comportamento e o gosto do consumidor brasileiro foram considerados no desenvolvimento da fragrância?
Sempre. O consumidor brasileiro tem uma relação muito particular com perfume: valoriza presença, fixação e projeção. Ao mesmo tempo, busca autenticidade e qualidade técnica. Por isso, testamos extensivamente as fórmulas para garantir intensidade equilibrada e longa duração na pele, resultando em 14 horas de duração na pele e mais de 90% de aprovação em testes sensoriais, algo fundamental para quem vê a fragrância como parte da própria identidade.
O Essencial Safran inaugura um novo território dentro da linha Essencial ou representa um reposicionamento do que a marca já vinha construindo?
Eu diria que é uma evolução natural. Essencial Safran reforça um caminho iniciado anos atrás com Essencial Oud. Ao longo do tempo, percebemos que havia um território consistente baseado em ingredientes árabes e em novas narrativas olfativas. Safran amplia esse projeto e ajuda a consolidar essa plataforma dentro da marca Essencial. Como uma marca líder em perfumaria, estamos atentos aos desejos do nosso consumidor e ao movimento da categoria: a perfumaria árabe tem ganhado destaque globalmente e um crescimento vertiginoso em plataformas digitais como TikTok e Pinterest, com 40% da audiência mundial de hashtags relacionadas vindo do Brasil. Ainda, dados do Google Trends indicam que as buscas por “perfume árabe” cresceram mais de 60% ao longo de 2025.
Como a plataforma baseada em ingredientes reorganiza o papel da perfumaria dentro do portfólio da Natura?
Trabalhar a perfumaria a partir de ingredientes permite criar histórias mais ricas e coerentes. Cada matéria-prima carrega memória, cultura, origem e sensações específicas. Quando estruturamos o portfólio dessa forma, construímos uma jornada para o consumidor, em que cada fragrância revela um universo próprio e contribui para fortalecer o posicionamento da marca.
Existe a ambição de aproximar a linha essencial de códigos mais associados ao luxo internacional?
Nosso objetivo não é replicar códigos de luxo internacionais, mas reinterpretá-los de forma autoral e contemporânea, trazendo alta performance, inovação e qualidade. Nesse contexto, a linha Essencial trabalha ingredientes raros, alta performance e narrativa de marca, oferecendo sofisticação com autenticidade, mas ainda assim acessível.
A Natura foi pioneira ao introduzir o Oud no brasil. com a entrada de novos players neste território, o desafio agora é liderar essa categoria?
A presença de novos players é um sinal de que a categoria ganhou relevância. Nosso foco é continuar inovando e elevando o nível da perfumaria no país. O pioneirismo nos deu aprendizado e repertório para seguir explorando o setor de maneira consistente.
Quais indicadores ou métricas mostraram que essa tendência já tinha maturidade suficiente para se transformar em uma plataforma de marca?
Observamos diversos sinais ao mesmo tempo: crescimento expressivo nas buscas por perfumes árabes, grande volume de conversas nas redes sociais e aumento do interesse por fragrâncias intensas e duradouras. Quando esses indicadores se alinham, entendemos que existe um território cultural pronto para ser trabalhado de forma estruturada.
Hoje o marketing nasce das redes sociais para orientar o produto ou o processo ainda parte majoritariamente da pesquisa e desenvolvimento?
Na prática, é uma construção conjunta. A pesquisa e desenvolvimento traz conhecimento técnico e capacidade de inovação, enquanto as redes sociais oferecem insights valiosos sobre comportamento e desejo. Quando essas duas áreas trabalham juntas, conseguimos transformar sinais culturais em produtos relevantes.
Como equilibrar a proposta de sofisticação e luxo com a tradição da natura de democratizar o acesso à perfumaria?
A Natura sempre acreditou que qualidade e experiência sensorial não precisam ser restritas. A ideia de luxo que nos inspira hoje são os ingredientes nobres, uma perfumaria de qualidade, que entrega performance e diferenciação, e que fornece aos consumidores as ferramentas para alavancarem suas identidades, personalidades e desejos.
O que essa aposta revela sobre o futuro da perfumaria de luxo no brasil?
Mostra que o consumidor brasileiro está cada vez mais sofisticado, curioso e criterioso. Há uma abertura maior para ingredientes novos, histórias culturais e composições mais intensas. Ao mesmo tempo, existe uma valorização crescente de marcas que combinam inovação com propósito. Acredito que o futuro da perfumaria no Brasil passa justamente por essa combinação entre autenticidade, performance e narrativa.
Perfume hoje não é apenas produto, mas também experiência. como a Natura trabalha essa dimensão sensorial em lojas, campanhas e ativações?
Perfumaria, para a Natura, sempre foi mais do que um produto: é uma experiência sensorial e emocional. Por isso, trabalhamos essa dimensão em diferentes pontos de contato. Nas lojas, o consumidor pode explorar as fragrâncias com rituais de experimentação e consultoria especializada. Nas campanhas e ativações, a perfumaria ganha narrativa, imagens e histórias que ajudam a traduzi-la. O objetivo é aproximar as pessoas da fragrância, conhecendo seu universo, antes mesmo de experimentá-la.
Existe uma estratégia específica para traduzir cheiro em linguagem digital e conteúdo para redes sociais?
Sim. Traduzir uma fragrância para o digital significa transformar uma experiência sensorial em narrativa. Historicamente, a venda direta já fazia isso com recursos como as revistas perfumadas. Hoje, consultoras e influenciadores ajudam a explicar a fragrância por meio de histórias, ocasiões de uso e referências emocionais. A estratégia combina grandes nomes para alcance e especialistas para credibilidade. Tudo integrado a uma lógica omnicanal, com redes sociais, ativações e experiências com o público.
A comunicação dessa fragrância tende a ser mais aspiracional, sensorial ou educativa?
Na prática, ela combina os três elementos. A perfumaria sempre teve um componente aspiracional muito forte porque fala de presença, identidade e experiência. Ao mesmo tempo, estamos diante de ingredientes que despertam curiosidade, como o açafrão e o ishpink, então existe também um papel educativo importante ao explicar suas origens, raridade e características olfativas. E, claro, a dimensão sensorial é central, porque o perfume é uma linguagem emocional. O desafio da comunicação é equilibrar essas camadas: inspirar, despertar desejo e, ao mesmo tempo, ampliar o repertório do consumidor sobre esse universo.
Existe espaço para campanhas mais cinematográficas, inspiradas na estética e no imaginário do oriente médio?
Existe, sim, espaço para narrativas mais cinematográficas na perfumaria, especialmente quando falamos de ingredientes e histórias que carregam uma riqueza cultural tão grande quanto o açafrão. O ingrediente tem uma presença histórica muito forte no Oriente Médio e naturalmente evoca um imaginário visual potente – de cores, texturas e sensorialidade.
Ao mesmo tempo, nosso olhar na Natura parte sempre do respeito e da valorização da origem dos ingredientes, evitando estereótipos ou representações simplificadas de culturas tão complexas. Mais do que reproduzir uma estética específica, buscamos traduzir a potência sensorial e simbólica desses ingredientes em narrativas contemporâneas, que dialoguem com o público latino-americano e com os valores da marca.
Nesse sentido, o espaço para campanhas mais cinematográficas existe justamente quando conseguimos transformar essa inspiração em experiências sensoriais e narrativas que ampliem o imaginário da fragrância, mantendo autenticidade e conexão com o território da marca.
Depois dessa experiência internacional, que caminhos você enxerga para o futuro da perfumaria da Natura?
Como líderes de perfumaria no Brasil, devemos continuar a expandir o repertório do nosso consumidor trazendo sempre o que há de mais novo em termos de ingredientes.

