AcontecendoAqui efetivou uma parceria com o blog Estopim que contempla, dentre outras coisas, a publicação de material gerado por ele e que tenha compatibilidade com o conteúdo do portal. Iniciamos hoje com a publicação da primeira parte de uma ampla entrevista realizada com Mário Motta, comunicador do Grupo RBS onde apresenta o Jornal do Almoço na RBS Tv e Notícias da Manhã na CBN Diário. Dividimos a entrevista em 4 partes e você vai ler a seguir a primeira delas.
O pai da popularidade
Ele começou a chamar a atenção do público com apenas quatro anos. Aos sete, participou de um filme com Eliana Macedo. Aos 13, iniciou sua atividade na Rádio Piratininga, de Tupã, interior de São Paulo.
Esse é o início da carreira de Mário Motta, que de São Paulo veio a Lages para conhecer Santa Catarina, e acabou se encantando com as praias e as oportunidades que não teria no estado natal.
Formado em Educação Física, tem larga experiência em coberturas esportivas. Atuou em secretarias esportivas, e ministrou até aulas na área. Sua mais insana transmissão, foi a narração de um jogo de Beisebol pelo rádio.
Repentinamente, inventou de transmitir os Jogos Abertos de Santa Catarina. Aliou o gosto pelo esporte à aptidão pela comunicação.
Hoje, a figura é facilmente reconhecida nas ruas. Além dos anos de dedicação ao jornal do Almoço, também é normal que ele apresente cerimônias na região. Eis que num desses tantos eventos que Mário costuma apresentar, a RBS visualizou o âncora do Jornal do Almoço em 1986. Desde então, ele não saiu mais dessa atividade.
Constam em seu currículo passagens pela Rádio Clube, e Princesa de Lages, Rádio Emissora de ABC, de Santo André, e rádio CBN Diário, onde comanda o programa Notícias na Manhã. Também participou da equipe que deu início à TV Planalto (atual SBT/SC) em Lages no início da década de 1980 e mais tarde em Florianópolis.
E ao que tudo indica, passou a perna no Roberto Alves, ao firmar uma parceria entre a TV Planalto e a RBS, quando o Roberto dizia aos quatro ventos que transmitia com exclusividade os Jogos Abertos de Brusque em 1985. Danou-se!
Na televisão, no rádio e no jornal impresso. Mário aventurou-se no Jornal de Tupã e no Jornal da Alta Paulista em meados dos anos 1960 e mais tarde no Correio Lageano quando chegou à Santa Catarina. Em Florianópolis, está desde a inauguração do popular Hora de Santa Catarina no qual mantém a coluna Hora das Ruas, onde ajuda os cidadãos a tampar os buracos de rua ou também a achar um cachorrinho perdido.
Na entrevista, ele aprofunda as histórias vividas nos muitos veículos nos quais adquiriu experiência. Ele também discute a reformulação editorial do Jornal do Almoço, balançado pela concorrência e pela audiência.
Falta a Mário Motta o diploma acadêmico, mas o conhecimento de causa lhe sobra. Sua frase mais subversiva é: não dá para esperar imparcialidade do jornalismo. Você tem que cobrar isenção.
O marinho
Repórter Ping-Pong – Antes de entrar no jornalismo você se considerava alguém inquieto, ansioso, enfim, se considerava alguém que pretendia mudar o mundo?
Mário Motta – Quando eu era o marinho ainda, a noção de mundo que nós tínhamos era muito restrita. Talvez ao quintal do circo dos meus pais. Confesso que nós tínhamos uma visão de mundo muito pequena, então, não era tão difícil mudá-lo. O que a garotada queria era que o quintal da casa não tivesse nenhum toco no meio do caminho, nenhuma toicera de grama que geralmente fazia com que a bola quicasse para o lado errado. Que o cachorro do vizinho ficasse sempre preso pra não correr atrás.
Ping – Que lugar era esse?
Mário Motta – Meus pais trabalhavam na rádio Bandeirantes de São Paulo. Eles tinham adquirido um circo teatro que armavam na periferia de São Paulo. A cada 10, 15 dias, trocavam de bairro. Ele fazia uso do rádio para convidar as pessoas pra irem ao circo que estava na vila Maria, no Carrão, na Mooca. Quando eu nasci, o circo estava num vilarejo chamado Prefeito Saladino, que fica do lado de Santo André. Tanto que o parto da minha mãe, foi em Santo André que, na época, era um município conurbado com São Paulo, mas com muito terrenos baldios separando de São Caetano, que era separado do Ipiranga. Nasci quando o circo estava em Santo André, por isso nasci lá, mas fui criado pelo interior de São Paulo, quando meu pai pediu demissão da rádio com a minha mãe, pegaram o circo e foram procurar um clima mais quente, para que eu pudesse me desenvolver em função de uma série de doenças que eu tive quando era pequeninho.
Ping – Pois é, pequeninho, tem uma história inusitada, diferente, digamos assim, que foi o teu primeiro passo profissional além do circo. Que história é essa de fazer um trabalho nas telonas?
Mário Motta – Na verdade, o primeiro trabalho profissional que eu fiz, foi no próprio circo, quando eu tinha quatro anos de idade, ganhei de presente uma sanfoninha. E eu comecei a tocar, a solar músicas de sucesso da época. Meu pai pegou um violão e começou a me acompanhar e percebeu que poderia me transformar em uma das atrações do circo. E isso aconteceu realmente.
Quanto à telona, uma vez um grupo do Rio de Janeiro fazendo uma excursão pelo interior de São Paulo, trazidos por um radialista famosíssimo chamado Renato Murce. Ele comandava na Rádio Nacional um famoso programa de calouros chamado Papel Carbono, onde os cantores tentariam ser os carbonos de seus ídolos. Renato Murce era um dos maiores nomes do Rádio brasileiro ao lado de Paulo Gracindo, Cesar de Alencar entre outros.
Renato Murce era casado com uma das maiores estrelas do cinema brasileiro da época, a Eliana Macedo, cujo tio, Watson Macedo, era um dos maiores diretores do cinema nacional. A Eliana era uma espécie de namoradinha do Brasil na época e estrelava os filmes nacionais mais assistidos. O Renato Murce levou um grupo para essa excursão no interior de São Paulo e coincidiu de, em Araçatuba, o grupo não ter um espetáculo naquela noite, ir ao circo do meu pai que estava em temporada na cidade. Eu participei da apresentação de uma peça, fazendo um garotinho, e o Renato Murce, depois do espetáculo, conversou com meu pai e disse que eu tinha jeito e que o tio da Eliana tinha o roteiro de um filme chamado Maria 38 que precisava de um garotinho e que ia mandar um telegrama ao meu pai, para que eu fizesse um teste para o papel.
Naquela época, era a coisa mais difícil localizar as pessoas pelo Brasil. A história de se vestir um terno e te perguntarem se você ia ligar para São Paulo, era verdadeira na época. Meu pai achou que nunca ia acontecer de ele [Renato Murce] localizar o circo. Curiosamente, ele não só localizou, como mandou as passagens, e um telegrama dizendo: traga o marinho para fazer o teste. Tinha uma centena de crianças fazendo o teste e eu fui aprovado. Foi a minha primeira grande experiência com câmera fazendo o Maria 38. Corria o ano de 1959.
Ping – O circo te deu uma desenvoltura pra tratar com público, já muito cedo, o cinema também, foi só um filme, mas tem lá a sua relevância e, de repente, na juventude você decide fazer educação física. Por que isso?
Mário Motta – Se você parar para aprofundar, você vai perceber que há uma grande relação muito grande entre a área… não da educação física mas da acrobacia da utilização do físico com o circo. Eu, por exemplo, fazia saltos, rola-rola, equilíbrio.
Ping – É essa a ligação então?
Mário Motta – Não. Essa não é a ligação. Essa passa a ser uma ligação virtual se você quiser amarrar as coisas. O que aconteceu foi que quando eu terminei o estudo científico, meu pai vendeu o circo numa cidade chamada Tupã, e a minha intenção era fazer medicina. Mas não fiz porque não tinha faculdade de medicina próximo dali.
Ping – Que idade estavas nessa época?
Mário Motta – Estava na idade de faculdade. 16 pra 17 anos. Eu ia sair pra começar a fazer o que, na época, a gente chamava de cursinho pré-vestibular. Mas daí, fui convocado para o tiro de guerra, ou seja, o exército, tive que servir ao exército. E no interior de São Paulo, tiro de guerra, são unidades militares do exército em que os jovens não precisam se deslocar para uma guarnição. Você pode trabalhar e estudar na sua cidade e, de manhã, 5h30min, 6h, você vai para a instrução.
No tiro de guerra, não precisei deixar meu emprego, eu já trabalhava nessa época em rádio. Quando meu pai vendeu o circo e fixou residência em Tupã para que eu completasse o científico, ele voltou a fazer um programa numa rádio local, primeiro na Rádio Clube e, depois, ele mudou para a Rádio Piratininga e eu ia com o pai à noite, era das 22h às 23h. Ele fazia um programa de saudades, chamava-se no tempo do Motinha, em que revivia a relação que ele teve com os grandes nomes da música em São Paulo, como Francisco Alves, Orlando Silva, Dalva de Oliveira. Ele fazia esse programa, na rádio, e eu comecei a ir com ele, com 13 pra 14 anos, e brincava de fazer comercial, como se fosse no circo, quando eu fazia propagandas no auto-falante do circo e, quando eu percebi, estava trabalhando em rádio, com essa idade.
Fui fazer Educação Física, porque era uma faculdade que se aproximava da área das humanas, era inclusive a primeira turma. Aí pensei em fazer a primeira fase do curso, que era muito semelhante à primeira fase de medicina. E no ano seguinte eu ia tentar de novo o vestibular para medicina. Mas eu me apaixonei pela área pedagógica e decidi terminar. Me formei nessa primeira turma e fui patrono da segunda, lecionando ginástica rítmica desportiva. Na época, era um absurdo um rapaz lecionar, arco, massa, bola e fita, disciplina essencialmente feminina. É certo que minha vivencia artística no Circo me abria a mente para perceber que a disciplina não era mais do que a soma de ritmo e coordenação e vale tanto para mulheres, como para homens.
Fiz educação física porque não podia fazer medicina e comecei em rádio justamente nessa época. Eu sempre fiz uso da comunicação ao me apresentar artisticamente no circo, ou ao interpretar, ou ao enfrentar uma plateia. E eu sempre fiz uso da educação, sempre que tive que me comunicar, informar, noticiar. Pedagogicamente, é como se a gente fosse desenvolvendo uma maneira de explicar as coisas para as pessoas, e você tanto usa isso no teatro, numa apresentação musical, numa palestra, como em qualquer outra circunstância, que te exija comunicação.
Esta entrevista foi produzida por Nícolas David – graduando do curso de jornalismo da Unisul e criador do personagem Repórter Ping-Pong que entrevista profissionais da imprensa.
Na próxima semana publicaremos a segunda parte de 4.

