por André Balaban*
O mundo mudou. (ok, 99% dos artigos atuais começam assim). A tecnologia também evoluiu (outro pleonasmo, prometo me controlar). As relações de consumo das pessoas com produtos e ideias acompanhou este movimento. Então, por que, ora bolas, você imaginaria que os diversos atores da comunicação mercadológica iriam ficar ali, paradinhos, vendo as agências ganharem 20% da verba de veiculação de mídia sem mudar mais esta engrenagem?
As agência de propaganda surgiram no final do século 19, com o simples propósito de “agenciar” anúncios em veículos impressos em troca de uma comissão para realizar o serviço. No início do século 20, quem apenas agenciava, viu a oportunidade de facilitar a vida de seus clientes, e começou também a criar estes anúncios. Com o tempo vieram outras mídias, estratégias, pesquisas e assim, com poucas mudanças estruturais, a roda da carroça girou por quase 100 anos.
Agora aperte o FF (lembra do walkman?) e pulamos para os anos 90. A segunda revolução no mundo das agências (a primeira é do Bill Bernbach). O computador vai entrando por uma porta na criação, e pela outra saem a cola, letraset e aerógrafo. Surge o conceito da tal “Comunicação Total” e as agências decidem abraçar o mundo com muito coração e poucos braços. Tudo era internalizado. Rapidamente este conceito chocou-se com outro que vinha na direção oposta e dominou os gestores da década. Era o momento da “reengenharia”, do “downsizing”, de cortar qualquer área que não fosse “core-business-direto” (não adianta dar google, inventei a junção agora), abrindo caminho para o surgimento das agências de nicho: boutique de criação, ativação, live mkt, digital (que naquele momento era conhecida apenas por “agência-que-faz-site”) e todos os nomes bacanas que, no fundo, no fundo, só queriam dizer que “nós não somos uma agência tradicional”. É mais ou menos por aqui, nessa tortuosa timeline que começa a dar tela-azul no cérebro linear das agências.
As tecnologias do novo milênio abriram um céu de oportunidades e retiraram o chão da zona de conforto, sobrando apenas a zona.
Agora desliza o dedo (chegamos no mundo touch-tudo) e veja onde viemos parar. As agências baseadas na remuneração via comissionamento deixaram um vácuo preenchido pelas agências digitais. As duas, na disputa estéril de on x off que consumiu anos e relevância deixaram outro espaço vazio que vai sendo ocupado pela consultorias. E para confundir de vez a já frágil cabeça de agências, clientes, veículos e fornecedores os robôs estão dizendo por aí que podem dar mais resultados do que todos nós juntos. Vivemos a era da “engenharização da comunicação” (eu sei, estou forçando a barra nos neologismos) onde os neurônios perdem espaço para o código binário.
Na verdade, o título desse artigo é apenas uma pegadinha estilo caça-clique, porque sabemos que nesse exato momento todos nós estamos meio perdidos nesse mundo de verdades absolutas e certezas líquidas. A sua agência está perdida, a minha agência está perdida, os clientes, veículos e todos os profetas da modernidade que estão fazendo suas apostas, e tal qual um relógio parado, vão acertar a hora duas vezes ao dia.
Neste momento da história, estar “perdido” é a maneira perfeita de encontrar o melhor caminho.
Pare, respire, olhe no seu black mirror e responda sinceramente: você, realmente acredita que apenas a tecnologia vai dar conta de conectar, emocionar e convencer pessoas a abraçarem uma causa, participarem de movimentos, ou sequer, comprarem um produto? (se você respondeu sim, faça o favor de pedir demissão hoje mesmo, pois você não vale um clique).
De uma coisa eu tenho certeza: não sei como será o futuro ali dobrando a esquina, não sei qual o modelo de negócio, a nomenclatura da moda, mas tenho convicção que grandes cérebros criativos juntos é que farão as melhores coisas acontecerem. E eu quero fazer acontecer e estar lá pra ver.
* André Balaban – Diretor da LOVERS Gestores de Comunicação e ainda com bilhões de neurônios para queimar.
