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Coluna de Stalimir Vieira |  A vantagem de abstrair
21 de Dezembro de 2015

Coluna de Stalimir Vieira | A vantagem de abstrair

 

Duas coisas aprendi a preservar na vida: o bom humor e o otimismo. Com o passar do tempo, isso foi ficando cada vez mais fácil. Hoje, é absolutamente natural. Desaprendi quase que totalmente de ficar pessimista, diante de qualquer perspectiva e de perder o bom humor em qualquer circunstância. Mesmo sozinho. Se estiver acompanhado de alguém parecido, então, a vida vira um circo. Mas isso só foi possível com o desenvolvimento da capacidade de separar as coisas, dissociá-las, tratar cada uma delas no seu devido lugar e com as necessárias frieza e independência. Quando olho o cenário nacional, por exemplo, percebo que vivemos uma espécie de histeria coletiva, irracional, estúpida e inconveniente. O brasileiro, de um modo geral, é um ser teleguiado, incapaz de pensar com a própria cabeça. Talvez, por isso, sermos os campeões mundiais de citações. Nunca vi povo que goste tanto de citar os outros e tão incapaz de criar suas próprias definições para os fatos da vida. As pessoas ficam esperando palavras de ordem, ditados populares, frases dos outros, para, então, completarem a ignição para alguma espécie de pensamento semi-organizado. O fato é que, se queremos ser felizes, temos que aprender a abstrair. Eu sou ouvinte e sou surdo, ao mesmo tempo; tenho visão e sou cego; tenho o dom da fale e sou mudo… Aciono essas condições à minha conveniência e aquilo que vejo e ouço dura e faz efeito enquanto eu quiser. Depois, vai para a vala comum das coisas inúteis. E o mais importante: aí permanecerá. O que nos agonia não é o que está fora, mas o valor que atribuímos ao que está fora de nós. Enquanto não conseguirmos fazer essa necessária inversão – atribuir um valor maior ao que está em nós do que ao que está fora de nós – seremos pessoas extremamente vulneráveis às manobras alheias. Certamente, a correção dessa condição implica em trabalharmos focados nos nossos interesses e conveniências, à luz da nossa interpretação de valor. Parece egoísta? De certo modo é. Mas, afinal, ou atendemos ao nosso egoísmo ou atendemos ao egoísmo dos outros. Estou errado? Esse falso egoísmo é, na verdade, uma proteção emocional que nos dará o tempo necessário para pensar. Coisa, aliás, que os “de fora” não têm nenhum interesse em que façamos. Portanto, urgência, no meu entendimento, só se justifica em caso de risco de gangrena. Fora disso, paro e fico olhando o interface até a urgência passar. E geralmente passa. Se o que você é capaz de fazer não merece o prazo necessário para que seja bem feito você não é capaz de fazer nada, perceptivelmente, importante. Pense nisso. 

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