
Fonte: NASA
Nestes dias, acompanhamos os momentos muito especiais da Missão Artemis II à lua, um dos eventos mais divulgados pela mídia mundial. Aqueles que apreciam assuntos relacionados à história da conquista espacial, como é meu caso, fizeram paralelos com as Missões do Programa Apollo, que duraram de 1967 a 1972 [1]. Vale lembrar do salto substancial alcançado naquele curto tempo, considerando que a primeira Missão, Apollo 1, foi marcada por uma tragédia ocorrida durante o teste da cápsula ainda em solo, e a Missão Apollo 17, na qual dois astronautas coletaram o volume recorde de amostras de rochas lunares. Obviamente, entre estas tivemos a mais conhecida Apollo 11, consagrada pela frase “um pequeno passo para o homem, um salto gigante para a humanidade”, de Neil Armstrong ao pisar no solo lunar pela primeira vez. Além destas, se você, assim como eu, é fã de Tom Hanks, deve se lembrar da célebre exclamação
“Houston, we have a problem”, emitida por Jim Lovell a bordo da Apollo 13. Muito além de resgatar as glórias e aprendizados no passado, nossa proposta aqui é refletir sobre as lições da Artemis II para nossas carreiras, aqui mencionamos algumas delas.
Ênfase ao planejamento
Por mais comemorada que tenha sido a missão Artemis II, é essencial lembrar que ela não é um fim em si, mas apenas um meio para se atingir um objetivo mais audacioso, novamente levar humanos à Lua. Isto, por sua vez, tudo indica é ainda outro meio, tendo o objetivo maior de ter a lua como base para saltos ainda mais longos. Vale lembrar que esta missão, muito mais celebrada do que a Artemis I (que durou mais que o dobro, 25 dias), é uma etapa do Programa Artemis, que teve início em 2017 [2]. Para nossas carreiras, devemos buscar a capacidade de visão de longo prazo, estabelecendo nossos grandes “moonshots” (tiros na lua), mas para que esta visão se torne realidade, é fundamental aprender a desmembrar tal objetivo quase impossível, em marcos menores, para os quais tenhamos mais capacidade de execução, trazendo parte da visão para ação e gerando, o que talvez seja mais importante de tudo, aprendizado, o que nos conecta ao segundo aspecto.
Capacidade de aprender com lições do passado
O mundo sofreu profundas transformações desde a Apollo 17. Citando apenas alguns exemplos, tivemos uma explosão de informação, com o advento da Internet (fato que muitos consideram o nascimento da internet com a ARPANET nos laboratórios do Pentágono na década de 60 [3]), houve também um considerável aumento da consciência ambiental, em muito pela constatação de uma certa “fragilidade planetária”, lembrando a célebre citação de Carl Sagan, nosso planeta é um “pálido ponto azul” na vastidão do Cosmos, resultante direto da foto tirada pela Voyager em 1990 [4], e uma maior consideração pela diversidade humana, como constatada nas próprias missões espaciais, a despeito dos conflitos de todo tipo dentro e entre países. Apesar de todas estas transformações, do exponencial crescimento da capacidade computacional, os alicerces da Missão Artemis II seguiram claramente os passos da Apollo 8, em 1968 [5]. Realizar um voo orbital em torno da lua, antes de buscar pousar no satélite, objetivo das próximas missões. Além disto, com todo avanço tecnológico advindo das milhares de horas acumuladas por mais de 600 humanos que já estiveram no espaço [6], os conceitos fundamentais sobre sistemas de propulsão, cápsula de retorno, acionamento por paraquedas, projeto do escudo de isolamento térmico – responsável pela proteção na crítica reentrada na atmosfera – e pouso no mar permaneceram basicamente os mesmos. Em nossas carreiras, devemos sempre refletir sobre o passado, captando lições, por mais que possamos e devamos buscar evoluir, com a atitude em pensamento e ação de aprendizagem contínua. As lições aprendidas são verdadeiros tesouros em nossas trajetórias, e assim serão ainda mais valiosas quanto mais audaciosas forem nossas metas, que sempre dependeram de outras interações humanas, o que nos conecta com a próxima grande lição.
A valorização da diversidade humana
Vale lembrar que somando os programas Mercury, Gemini e Apollo, foram ao todo 57 indivíduos [7], sendo todos homens brancos e apenas 2 não tinham treinamento militar. É verdade que o primeiro candidato a astronauta negro da NASA foi Ed Dwight, selecionado pela Força Aérea para treinamento em 1961 com o apoio do governo Kennedy, mas não selecionado pela NASA para os programas citados acima. Em maio de 2024, Ed Dwight finalmente foi ao espaço aos 90 anos em um voo da Blue Origin [8]. Em relação à diversidade de gênero, embora a primeira russa a ir ao espaço tenha sido Valentina Tereshkova, com a Vostok 6, em 1963 [9], apenas em 1983, tivemos a primeira americana, Sally Ride, numa missão da Challenger [10]. Neste aspecto, ao compararmos estes perfis com a tripulação da Artemis II, a mudança é incontestável, pois este seleto grupo tinha três homens, sendo um negro, e uma mulher. Além disto, a diversidade não estava presente apenas na tripulação. A comandante no lançamento, no Kennedy Space Center, foi Charlie Blackwell-Thompson, a primeira mulher a ocupar o cargo de Diretora de Lançamento na história da NASA. E na conferência de imprensa concedida pela agência, logo após o pouso da Artemis II, tivemos cinco dirigentes respondendo aos questionamentos, sendo uma mulher, um americano de ascendência indiana e outro dirigente de ascendência chinesa [11]. Aqui, considero que a maior lição simbólica e factual para nossas carreiras seja que devemos aprender a respeitar, apreciar e valorizar a diversidade humana. Apesar das palavras e ações retrógradas advindas de certos líderes, inflamados por atitudes doentias e desrespeitosas sobre mulheres e minorias étnicas, a NASA demonstra com as decisões para postos extremamente valiosos tanto na tripulação quanto entre os dirigentes da missão, que o respeito à diversidade humana deve ser uma marca característica de nossos tempos, e devemos ter isto em mente se quisermos evoluir em nossas vidas e trajetórias pessoais.
Neste ponto, lembro com certa nostalgia, que durante meu pós-doutorado na NASA, trabalhei com seis pesquisadores, sendo estes de origens americana, alemã, indiana e russa. Tendo entre eles, uma mulher, com a qual mantive colaboração posterior. Para finalizar, acredito que cada pessoa que acompanhou a missão Artemis II tenha ficado com um momento marcante. Aqui, deixo o meu com esta reflexão do astronauta Victor Glover, em sua mensagem de Páscoa:
Vocês estão em uma nave espacial chamada Terra, que foi criada para nos dar um lugar para viver no universo, no cosmos. Pense, talvez a distância entre nós faça vocês pensarem que o que estamos fazendo é especial, mas estamos à mesma distância de vocês… apenas confie, vocês são especiais, em todo esse vazio. Isso é um monte de nada, isto que chamamos de universo. Vocês têm esse oásis, esse lugar lindo que temos para existir juntos. Acho que, enquanto nos aproximamos do Domingo de Páscoa, pensando em todas as culturas ao redor do mundo quer você celebre ou não, quer acredite em Deus ou não, esta é uma oportunidade para nos lembrarmos de onde estamos, quem somos e que somos a mesma espécie.
Que estas lições despertem maior interesse sobre planejamento de carreira, aprendizagem contínua e valorização da diversidade, contribuindo assim para ampliar seus horizontes de carreira.
Grato pela leitura. Nos encontramos no próximo artigo!
Abraço, Jonny
Fontes
1-The Apollo Program (1967-1972) [link]
2-The Artemis Program- NASA’s Lunar Exploration Program Overview (2020)
3-A Short History of the Internet [link]
4-A Pale Blue Dot | The Planetary Society [1990]
5- NASA Apollo 8- [link]
6- SPACEFLIGHT STATISTICS [link]
7- Astronaut Fact Book [link]
8- Ed Dwight: A space pioneer who finally became an astronaut (BBC, 2024)
9-Valentina Tereshkova, Soviet cosmonaut and the first woman in space [BBC, 2023]
10- Sally Ride – First American Woman in Space [NASA, 1983]
11- NASA’s Artemis II Post-Splashdown News Conference (10/abril/2026)
