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“O dilúvio da mesmice: a era dos textos de IAs”
09 de Abril de 2026

“O dilúvio da mesmice: a era dos textos de IAs”

Nunca foi tão fácil parecer inteligente e tão difícil ser de fato.

Por Giuliano Thaddeu 09 de Abril de 2026 | Atualizado 09 de Abril de 2026

Imagem: Produzida pelo colunista com apoio do Chat GPT

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O avanço das IAs generativas tem nos permitido viver tempos curiosos. Talvez você também já tenha percebido o fenômeno que alguns chamam de “IA Slop” e que eu prefiro batizar de “dilúvio da mesmice”. Trata-se da verdadeira enxurrada de conteúdos bem escritos e absolutamente genéricos que tomou conta de nossos feeds.

Textos saem limpinhos, todas pontuações no lugar certo, as ideias organizadas com lógica, tudo embalado com uma clareza que dispensa esforços. Tudo encaixa. Tudo parece perfeito. E, justamente por isso, começa a soar igual.

Acredito que em nenhuma outra época da humanidade tenha se produzido tanto conteúdo impecável e, ao mesmo tempo, tanta coisa sem autenticidade, sem originalidade e sem humanidade.

O problema não é a tecnologia em si, as IAs já se mostraram um caminho irreversível de avanços em diversas áreas. E é preciso reconhecer: existem usos sofisticados, exigentes, que ampliam o raciocínio humano. Contudo, a regra não é essa. O que cresce, silenciosamente, é o oposto. Um uso automático, que, aos poucos, substitui algo que sempre nos definiu: a imperfeição de nosso pensamento.

Séculos atrás, René Descartes enfrentou um dilema. Desconfiou de tudo que sabia, questionou seus próprios sentidos e decidiu não aceitar como verdadeiro nada que pudesse conter a menor gota de dúvida. Ao fazer isso, encontrou uma certeza que era inexorável. Enquanto duvidava, pensava. E, enquanto pensava, existia. Daí a frase que todos conhecemos: “penso, logo existo”.

De algum modo, o filósofo francês, ao basear sua teoria na dúvida estava reconhecendo a sua imperfeição. Duvidar é saber que não se sabe tudo.

Pensar nunca foi sinônimo de respostas fáceis, rápidas e produzidas industrialmente. Pelo contrário, exige reflexão, fragmentar dilemas, avançar do simples pro complexo, revisitar tudo novamente, exatamente como deveríamos fazer ao escrever um texto.

O risco não é a IA escrever por nós, mas pensar por nós, sem que a gente perceba. E é justamente neste ponto que mora um dilema existencial. Ao entregarmos às IAs, sem critério, grande parte da reflexão não estaríamos delegando junto justamente aquilo que nos permite entender nossa existência?

E nem estou falando aqui sobre uma discussão de autoria intelectual, isso é pano pra outra manga. Estou falando da transformação pessoal que a reflexão possibilita. Agora me diga, que mudança ou evolução gera algo que não passou por nós, por nossa dúvida e pensamento?

E vamos um pouco mais longe. O que será das próximas gerações que crescem mergulhadas nesse contexto desafiador? Talvez vocês vivam isso em casa assim como eu. Meu menino de 11 anos quer se socorrer do ChatGPT a todo instante, inclusive para resolver problemas simples que um breve raciocínio resolveria. Uma luta inglória e necessária que travo todos os dias contra o “pra que perder tempo?”.

Estamos ficando viciados na facilidade travestida de ganho de produtividade.

Pensar nunca foi perda de tempo e nunca foi quebra de eficiência. Pelo contrário, pensar é o que nos permite evoluir e seguir andando, mesmo que não seja na velocidade ou na perfeição das IAs.

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