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Musicoterapia. A Cura pela música | Entrevista com Anamaria Vincenzi
09 de Março de 2026

Musicoterapia. A Cura pela música | Entrevista com Anamaria Vincenzi

A partir de que fase a música e os sons podem afetar as pessoas?

Por Murillo Valente 09 de Março de 2026 | Atualizado 10 de Março de 2026

 

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Certa vez eu estava com a minha filha num shopping. Ela tinha cerca de 6 anos e não estava num bom dia. Reclamava de tudo, fazia manha e nada agradava; coisas que acontecem com crianças mas não só com crianças, é claro. Um caso isolado.

Mariah sempre foi um doce de criança.

Estávamos sentados em um banco do shopping, esperando sua mãe chegar. De repente, sem ter mais argumentos para reverter a situação, comecei, despretensiosamente, a cantarolar “Desafinado”, de Tom Jobim e Newton Mendonça.

“Se você disser que eu desafino, amor, saiba que isto em mim provoca imensa dor. Só privilegiados têm ouvido igual ao seu…”

Subitamente, Mariah ficou quietinha, atenta ao meu canto desafinado, e a partir daí todos os problemas se dissiparam, a birra acabou. Aproveitei a situação e cantei até ter a certeza de que a paz seria irreversível. Ela aguentou firme.

Aquela imagem ficou marcada na minha memória. É claro que eu conhecia instintivamente os poderes da música, já que, desde cedo, tinha sido abduzido por ela e sentia na pele seus efeitos.
Saúde Mental e Musicoterapia

Vivemos tempos cada vez mais confusos e angustiantes e, se por um lado a consciência da importância da saúde mental individual e coletiva está no topo das nossas prioridades, por outro, a humanidade está nas mãos de líderes insanos que jogam contra e só se preocupam com seus umbigos, seus surtos egocêntricos e apetites bélicos. Junte-se a isso o exagero, a dependência e a exposição tóxica e crescente da internet e redes sociais. Temos um combo perfeito que semeia e aduba a depressão, as crises de ansiedade e todos os males “modernos”.

O uso da música como terapia vem de longe. Nos livros de Samuel, Davi tocava harpa para livrar o Rei Saul dos maus espíritos. Existem registros da aplicação da música na obra de filósofos gregos pré-socráticos. Apolo era o deus grego da música e da medicina. Platão dizia que a música tinha o poder de influenciar o caráter de um indivíduo; aaahhh!!! Tá aí explicação para a quantidade de
maus-carateres nesses tempos de tanta música ruim (tsc-tsc). Aristóteles dizia que a música afetava a alma, e Hipócrates tocava música para curar doentes mentais.

Não pretendo aqui realizar um estudo aprofundado sobre musicoterapia. Deixo isso para um especialista. Quero sim abordar introdutoriamente algumas aplicações dessa nobre arte e entender um pouco como ela pode agir no nosso emocional.

Para ter um olhar profissional e entender um pouco como a música age nas nossas emoções e como ela é aplicada em tratamentos terapêuticos, eu conversei com a musicoterapeuta Anamaria Marques Vincenzi.
Anamaria considera que a musicoterapia ainda é pouco conhecida da forma correta. As pessoas fazem associações equivocadas com relação ao tema, e essa é uma das missões dos musicoterapeutas: democratizar e popularizar esse tipo de terapia.


 

Como a música age nas nossas vidas?

A memória musical é a última que a gente perde. Então, tudo que na nossa vida está associado à música, não só a uma música que a gente gosta de ouvir ou que marcou uma época, mas às vezes até sons, ruídos. Quando a gente escuta de novo, a memória que está associada àquele som volta em detalhes. Para cada pessoa, acontece de um jeito. Isso é tão forte que a musicoterapia é utilizada no tratamento de pacientes com Alzheimer ou outras demências, porque ela é a memória que fica preservada. Todas as outras memórias são perdidas, mas a memória musical fica preservada e esse é um recurso fundamental no tratamento.
Na musicoterapia, eu não falo só de memória musical, mas sim de memória sonoro-musical, porque dentro da musicoterapia a gente não entende que só a música vai ter relevância, mas os sons de um modo geral.

A partir de que fase a música e os sons podem afetar as pessoas?

Desde a gestação. Como exemplo, cito um casal que morava perto de uma linha de trem. A esposa estava grávida e, durante toda a gestação, o trem passava. A preocupação era como o bebê reagiria àquele barulho depois de nascer. Como o bebê já estava ambientado com aquele som, nada acontecia e, também, provavelmente para a mãe, aquele som não remetia a algo negativo. Então, já desde a gestação, aquele estímulo era algo que o bebê podia reconhecer. A musicoterapia é uma medicina porque pode ser utilizada para muitas questões de saúde. Eu consigo realizar um processo com musicoterapia desde a gestação. A gente vai estar trabalhando com a gestante e com o bebê.

Quais as áreas mais frequentes de atuação da musicoterapia?

A musicoterapia estuda várias áreas do desenvolvimento. Ela é muito utilizada em pacientes com autismo, que é o que mais se divulga, e também com questões do neurodesenvolvimento, mas tem várias outras possibilidades de atuação. O que o musicoterapeuta estuda é justamente isso: como esses estímulos sonoro-musicais devem ser utilizados de forma adequada para contribuir para a melhora e o bem-estar de cada pessoa que eu atendo.

Como acontecem as sessões de musicoterapia?

Depois de entender os motivos que levam um paciente a procurar a musicoterapia, partimos para a prática. Uma coisa interessante é que a musicoterapia é, na verdade, uma prática. A pessoa vem para a sessão e vai tocar, vai se expressar musicalmente; ela não vai aprender música, isso é na aula de música. Na musicoterapia, ela vai ser estimulada a se expressar sonoramente, então, vai tocar do jeito dela, vai poder mexer nos instrumentos, que serão escolhidos pelo terapeuta de acordo com aquilo que ele percebe ser o mais adequado para aquela situação, de acordo com o que a pessoa vai relatando nessa primeira entrevista. Não existe uma atividade pronta que a gente vai usar com todos os pacientes. Para cada pessoa, é uma abordagem e recursos diferentes.

Todos os pacientes tocam ou manuseiam os instrumentos ou há casos em que é só audição?

Depende. Eu posso ter um paciente mais tímido; a gente vai ter que ir trabalhando aos poucos. Às vezes, o paciente pode ter alguma limitação motora que precise ser estimulada e dentro da musicoterapia, existe a abordagem receptiva.
Pode ser que eu perceba que o paciente está num momento em que eu preciso usar com ele uma abordagem receptiva, em que ele vai receber os sons, vai ouvir, vai ser estimulado por outras vias. Tudo isso o musicoterapeuta vai observando e conduzindo de acordo com o que cada pessoa traz. São muitas as abordagens na musicoterapia.

Existe música boa e música ruim na musicoterapia?

Na musicoterapia, não temos essa questão de música ruim ou música boa. Às vezes, um funk pode ser desagradável para mim, porque eu não tenho afinidade com esse gênero musical. Em contrapartida, posso ter um paciente para quem esse é o universo sonoro dele; pelos motivos dele. Nesse caso o funk talvez seja o que vai ajudar no processo terapêutico dele.
Eu posso ter um paciente em coma e, de repente, ele escuta um determinado som que o remete a memórias que têm significado para ele e que podem ajudá-lo a sair do coma. Estou aqui dando um exemplo extremo. Esse é um ponto bem importante. A maioria das pessoas tem o entendimento de que “essa música é boa, essa é ruim”. Eu, que trabalho com bebês, escuto muito essa coisa de que “música erudita vai fazer bem pro meu bebê”. Depende; pode ser que você esteja destruindo a saúde do seu bebê colocando um Mozart ou um Beethoven para ele ouvir. Tanto pode fazer bem como mal, e é nosso papel observar a história sonoro-musical de cada um. No caso de bebês, temos que pesquisar a história da mãe. Vou perguntar a ela o que ela ouvia durante a gestação, tanto o que a fazia se sentir bem quanto o que a fazia se sentir mal.

A musicoterapia é muito procurada? Como é a interação com outras terapias?

Anamaria: Quando eu fiz a formação, a procura era pequena. Hoje, percebo que se fala mais sobre a utilização da música como terapia. Acredito que é algo que está em evolução e que, em outras regiões do Brasil, esteja mais forte e, fora do Brasil, mais ainda. A musicoterapia está em processo de regulamentação no país; somos bem organizados e as associações existem como uma forma de nos proteger e ter critério. Então, quando você for buscar um musicoterapeuta, procure saber se ele está vinculado a alguma associação. Infelizmente, ainda existem pessoas que se vendem como musicoterapeutas sem ter formação em musicoterapia. Para ser musicoterapeuta, você precisa fazer uma faculdade de musicoterapia ou ser pós-graduado em musicoterapia. A interação existe, ainda que timidamente, por desconhecimento do que é a musicoterapia. Hoje, já existem clínicas com fisioterapeutas, psicólogos e também musicoterapeutas. Estamos nos movimentando para falar sobre o assunto e divulgar cada vez mais o nosso trabalho.

Voltando ao “Desafinado” da minha Filha. Existe uma possível explicação?

Pode ter sido a vibração, ou por ela estar imersa em um tipo de emoção e o seu canto a ter tirado desse lugar. Mesmo sem ela nunca ter ouvido a música, o ritmo e a forma como você estava cantando a transportaram para um lugar de calma e paz.


Comentei com a minha entrevistada que quando fico um tempo sem tocar o meu instrumento acontece um tipo de abstinência. O meu corpo pede o contato com o violão ou a guitarra e com esse contato o meu estado de espírito muda completamente. Isso é muito pessoal mas é um claro indício de que a música cura.

Sou músico desde os 13 anos de idade. A música move, inspira e emoldura a vida. Acredito que o propósito da musicoterapia seja a busca do bem-estar das pessoas. Quanto mais cedo ela é utilizada e aplicada, melhores pessoas estaremos construindo.

A música exerce vários papéis nas nossas vidas. A música alegra, emociona e cura. Vamos aplaudir os músicos e os musicoterapeutas. Temos que valorizar os profissionais da música e lamentar a agressividade da indústria e da mídia, que elegem e faturam alto pelo mundo, decidindo, direcionando e massificando “tendências” musicais. Nesse caso não existe emoção, só manipulação e cifras.

A verdadeira emoção está em se deixar conduzir por harmonias e melodias que vêm do coração. Quando você tem o poder de ser o agente dessa emoção, melhor ainda. Como diz Caetano Veloso: “Como é bom poder tocar um instrumento”.

Para conhecer a entrevistada

Anamaria Marques Vincenzi Educadora Musical e Musicoterapeuta, membro da ACAMT 015/2016

E-mail: [email protected]

Instagram: @anamaria_vincenzi Celular/ Whatsapp – 48 988252670

Para conhecer melhor a musicoterapia em Santa Catarina, acesse musicoterapiasc.com.br

ACAMT – Associação Catarinense de Musicoterapeutas
(47) 9908-6021
[email protected]

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