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Entre países e escolhas: a jornada internacional de Nima Kaz e a criação da Founder Haus
30 de Janeiro de 2026

Entre países e escolhas: a jornada internacional de Nima Kaz e a criação da Founder Haus

Por Prof Jonny 30 de Janeiro de 2026 | Atualizado 30 de Janeiro de 2026

Empreender em diferentes países muda não apenas a forma de fazer negócios, mas também a forma de enxergar o mundo. A jornada de Nima Kaz deixa isto muito evidente, nascido no Irã, tendo crescido no Canadá, mudou-se para o Brasil há algum tempo. Ele já esteve à frente de diversas iniciativas no país e acompanhou de perto os limites e as fricções dos modelos tradicionais. Hoje, em uma etapa mais madura da carreira, dedica-se à Founder Haus e a projetos que buscam fortalecer o ambiente de inovação em Florianópolis. Nesta entrevista, ele compartilha aprendizados, escolhas difíceis e o que mudou em sua forma de empreender.

No início da sua trajetória, você passou por experiências diversas, desde Energy Contract Associate na Direct Energy até funções de vendas e gestão na Ford Motor Company, onde chegou a ser premiado como Top Salesperson. Em retrospectiva, quais decisões iniciais você considera que mais impactaram o rumo da sua carreira empreendedora?

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Prazer, primeiro, e muito obrigado por essa oportunidade. Eu sempre respeito, gosto e curto muito o que você faz, Jonny, e como você trabalha o ecossistema ao redor de você, do que tenho visto. É interessante que você falou da Direct Energy. Eu tinha até esquecido disso. Às vezes eu falo para as pessoas que comecei fazendo vendas porta a porta justamente porque não era uma boa pessoa de me relacionar com pessoas ou saber falar bem, ou eu era, sou um introvertido que hoje está cada vez melhor e mais finge ter poderes de extrovertido também.  E isso é porque faz parte da função empreendedor que venho vivendo ao longo desse tempo. Mas eu acho que uma coisa que ficou super claro para mim, que você agora falou trazendo Direct Energy justamente como exemplo, é que hoje eu não considero um emprego assim, porque, apesar de ser door-to-door, tentando vender contratos de prazos de energia ou gás, de luz ou gás para as pessoas, elas pagavam um preço fixo, maior que hoje, mas garantido que era menor do que amanhã, porque amanhã a inflação estava crescendo, os valores de gás e luz estavam subindo, as pessoas estavam com medo. Então você tinha que vender para elas basicamente um valor maior que hoje, mas que garante, entre aspas, que vai ser mais barato nos próximos cinco ou dez anos.
E se você imaginar alguém do nada batendo na sua porta para fazer esse tipo de apresentação, você pode imaginar que apanhei o suficiente de feedbacks negativos naquilo para aprender o que significava fracassar ou falir muito rapidamente e conseguir melhorar. Mas do que eu lembro hoje, que era engraçado, o que era a narrativa dessa época para mim era que eu estava conseguindo bater em umas dez ou vinte portas. De dez ou vinte que abriam a porta, duas ou três iam me dar a chance de vender e um deles comprava, no mínimo, senão dois, às vezes três, se eu estava fazendo muito bem-feito numa região boa. Então, com dez ou vinte portas, uma a três vendas, para o garoto de high school, era ganho suficiente para eu fazer isso rapidamente em uma ou duas horas para conseguir tirar o resto do dia off. É isso que estou dando risada: não levava isso a sério, mas aprendi muito sobre como, mesmo com rejeição geral, você continua indo para achar aqueles, porque aqueles sims vão pagar tudo. E se você estava em high school ganhando dinheiro em um dia para fazer mais ou menos uma ou duas horas, no máximo, de trabalho real, só que com brutal rejeição, essa era a sacada. Mas eu acho que uma grande lição, do fato que eu tinha até esquecido desse trabalho e que você agora trouxe, é que uma coisa que eu fiz que era contraintuitiva, e todo mundo olhava para mim e era uma decepção para eles, é que cada vez que me encontravam dois, três, seis meses ou um ano depois, eu estava fazendo outra coisa. A minha apresentação para eles, sobre quem sou eu, o que eu faço, era outra coisa, 180 graus cada vez. E isso era muito estranho para as pessoas ao meu redor. Eu ficava com vergonha disso e não sabia por quê. Só que eu nunca aceito o que sei que não é certo. E, como você já sabe, sou de uma família que veio da religião bahá’í, e a ética não é negociável. Então, para mim, qualquer coisa que sentia cheiro de não ética, porque eu necessitava fazer, então eu não fazia. Eu não empurrava a barra dessas coisas de venda porta a porta ou qualquer outra coisa para conseguir o máximo nelas, apesar de que sempre todas as coisas foram assim.
Então, a primeira coisa foi aprender a lidar com rejeição. A segunda foi aprender a lidar com a vergonha do fato de que, se uma coisa não está certa para você, ou você não a acha certa, ou você não se gratifica fazendo ela, não importa quanto ganha nela, não faça. Você não deve a ninguém uma explicação ou um dever de continuar fazendo uma coisa que você sabe que não está certa para você por muito tempo. Essa coisa de “tem que acabar o que começou” pesa muito nas pessoas e faz com que elas abracem uma coisa errada que abraçaram por motivos errados, e ficam lá por longo prazo gastando uma vida. Então essa habilidade de passar pela vergonha de ficar trocando as coisas até você achar aquela coisa que realmente cabe para completar a história da sua vida, hoje eu sei que é mais válida do que nunca.
E a terceira coisa nisso é que toda coisa é um funil. “Everything is funnel”. Toda coisa tem uma boca de funil, onde vêm muitas daquelas coisas que você quer ou não quer lidar e que você cria, ou o mundo ao redor de você cria para você. Se você não criou mecanismos que qualificam algumas dessas coisas para a parte de baixo do funil, que quer dizer mais próximo de você ou qualquer faceta da sua vida que você quer lidar, então toda coisa é um funil. Ou você reconhece isso, ou você não reconhece: o funil acontece para você, ou você define como é esse funil, quais são os mecanismos que qualificam quem e qual coisa para se aproximarem de você.
A fundação da Ocean eXchange em 2005 marcou o início da sua jornada como empreendedor em tempo integral. Que aprendizados dessa primeira experiência foram essenciais para sustentar sua atuação em mais de uma década de novos negócios?
Realmente era só continuar fazendo o que eu precisava, o que eu podia fazer para poder continuar em um fracasso perpétuo que era esse período, até chegar a algum sinal de sucesso nas coisas. E se você realmente aposta no que quer fazer, que foi o meu caso,  apostar no que quero fazer e colocar tudo na linha, toda vez, viver como uma pessoa pobre, literalmente, para poder deixar tudo trabalhar como fosse possível, o que não era muita coisa. Eu não cresci com muito dinheiro. Meus pais faziam tudo que podiam para nós, mas nós chegamos ao Canadá em 1991 com 50 dólares para uma família de cinco. E de lá crescemos muito. Sim, meus pais ajudaram muito para podermos fazer faculdade, mas ainda assim nós tínhamos que trabalhar desde o high school, meu irmão, que tem idade próxima da minha, e eu. O Ocean Exchange é interessante, foi um exemplo de pivot da vida que hoje eu reconheço, mas na época parecia fracasso perpétuo. Para mim, foi quando eu entendi que havia um buraco em um espaço interessante. Eu estava estudando muito sobre franquias. Franquias eram algo muito presente. E entre as coisas em que eu era bom era ajudar empresas do mid-market, como indústrias pequenas ou médias, e também franquias que, em muitos casos, eram servidas por essas indústrias como insumos.
Isso me ajudou a entender que havia um vácuo. As pessoas que conseguiriam operar boas empresas ou franquias nem sempre tinham o capital disponível ou não conseguiam empréstimo no banco para comprar uma Empresa ou outra franquia. Assim, alguém que já operava um McDonald’s, um Subway ou Burger King poderia fazer mais da mesma marca ou de outra marca. A marca até queria essa pessoa, mas ela não teria boas condições de levantar financiamento. Não em todos os casos, pelo menos. Em alguns casos, o próprio franqueador banca, como McDonald’s ou Starbucks, mas isso é raro. Na maioria dos outros casos, onde a marca não é McDonald’s ou Subway, é muito mais difícil. Basicamente, isso aconteceu. Então eu pensei: existe gente, literalmente, long sharks que financiam em grupo alguns desses operadores. Eu vi isso acontecer ao vivo. E pensei: como operacionalizamos isso? Pessoas poderiam fazer uma espécie de initial personal offering. Nós chamávamos isso de “the other IPO” for Initial Personal (vs public) Offering. Você colocaria seu crédito no ar, uma espécie de token. Eu tentava criar mecanismos que hoje existem, mas na época não. Algo como emitir uma token com credibilidade levantada por ferramentas que bancos digitais usam hoje para dar crédito entendendo nossos hábitos. Na época não existia nada disso, mas era teoricamente possível.
Ao mesmo tempo, eu estava estudando Canadian Securities Courses. Fiz todo o estudo, não tirei os certificados, mas fiz os exames, aprendi todas as leis e como funcionam os mercados financeiros do Canadá em seguros, fundos é demais aspectos de setor de finanças. Existem programas gerais para entrar nesse espaço, nem como profissional autônomo, mas pelo interesse próprio. Enfim, não funcionou. Nós fomos muito ameaçados, ridicularizados, processados, tudo que você pode imaginar.
Dentro desse ecossistema, havia muita gente fundando ou querendo fundar um novo website, inclusive pessoas trabalhando comigo no Ocean Exchange tentando fazer seus próprios sites. Eu me oferecia como CXO na maioria dos casos ou como management consultant, porque era isso que eu fazia para pagar as contas. Eu chamava isso de management consultant, mas o que era? Eu fazia entrevista com alguém tentando contratar uma pessoa de alto nível e eu entrava naquela entrevista tentando vender um contrato de curto prazo em vez daquele emprego, para ajudar essa pessoa, empresa ou indústria a atingir seu objetivo. Na maioria dos casos, o objetivo era dinheiro. Eles precisavam de dinheiro.
Eu ajudava a conseguir esse dinheiro de alguma forma. Uma das coisas que eu fazia era ajudar pessoas a levantar SR&ED e IRAP, Scientific Research and Experimental Development e Industrial Research Assistance Program. Dois tipos de fundos que o governo tinha: um devolvia impostos pagos em coisas consideradas inovações (vedadas como inovação por engenharia), e o outro era fundo perdido, como a Finep, para criar nova indústria inovadora. Eu ajudava as pessoas a se qualificarem.
Quando pessoas queriam sair da Ocean Exchange ou ao meu redor alguém queria fundar uma empresa, a forma como eu investia nessas empresas, por não ter dinheiro no fundo, era ajudar a conseguir esses fundos ou ajudar a fazer partes da engenharia dos pacotes que precisavam criar para obter esses recursos. Assim, conseguíamos fundos e alguma empresa nos pagava uma comissão, que eu usava para investir na startup da pessoa. Aí ela ficava desenvolvendo alguma coisa daquela lista de empresas que você vê. Eram produtos com equipes que, em geral, nenhuma conseguiu crescer sozinha.
Durante quase seis anos, você liderou a expansão do Founder Institute no Brasil, levando o programa a várias cidades do país. Que fatores estratégicos foram determinantes para conseguir escalar esse modelo em diferentes contextos regionais? O que mais pode compartilhar desta experiência, considerando envolvimento de cidades em diversas regiões do Brasil?
Interessante, porque essa foi uma virada de 180 que eu fiz depois da pandemia, desde que saí da Founder Institute. Até então, ao fazer tudo isso, a minha crença era que chega de bairrismo: é tudo o mesmo país, fala o mesmo idioma, a mesma língua, e nós teríamos que consolidar todo esse ecossistema. Então, insisti em “embarcar”, em uma época, mais de cinquenta pessoas que estavam na direção desses programas em suas cidades, e provavelmente mais de duzentos prestadores & parceiros indiretos nesse ecossistema, para crescer com custo exatamente zero de marketing e zero de CS. Assim, criamos desde zero em menos de 5 anos que virou a maior programa de aceleração no Brasil em 2019, executando vinte e cinco safras de aceleração e sendo, naquele ano, a maior operação da Founder Institute Global, inclusive maior do que nos Estados Unidos em número de safras. Operamos um total de mais de 60 safras de aceleração ao longo dos 5 anos em 12+ cidades brasileiras.
Toda essa operação acontecendo, mas estava muito difícil fazer isso, tanto que causou em mim e em muita gente envolvida prejuízos financeiros e de saúde, que é pior que tudo. Tive um burnout muito sério em 2020 para 2021, durante a pandemia, porque a atividade de operar o que eram doze cidades, indo para catorze, quinze, tinha várias cidades não listadas lá, prestes a abrir. E, em 2020, em fevereiro, encerrou essa expansão; 2020, março, tudo passou para o formato físico interrompido.
Nessa época, eu tinha a crença de que nós podemos, sim, temos que, e devemos consolidar. Eu não aceitava a fricção que essa abordagem estava causando para mim e para outras pessoas envolvidas de diversas regiões do país, como você está elencando. Mas depois disso, decidi que sou mais humilde do que isso. Preciso praticar minha humildade quando volto para esse mundo de negócios. Não vou tentar abraçar o Brasil inteiro. O Brasil é um continente, e há muita gente boa fazendo muita coisa relevante em suas regiões. O que devo, o que posso e qual é a minha obrigação agora é focar na região onde estou. Troquei meu DDD para 48. Estou me inscrevendo para me tornar “manezinho” da Ilha da Magia e já me considero um embaixador não oficial da Ilha da Magia. Esse é meu novo posicionamento e o que aprendi daquilo.
O que aprendi foi que dá para criar uma expansão com custo zero de marketing. Dá para criar uma expansão com todo esse pessoal não assalariado. É bom esclarecer: muita gente acha que pagávamos ou recebíamos muitos salários. Não. Todo mundo que participa no Founder Institute está, no mínimo, voluntariando, e, no máximo, colocando algum dinheiro e muito tempo da própria vida para fazer a coisa acontecer. Então, respeito e admiração por todas essas pessoas.
Mas comecei a ver que o modelo do Founder Institute não estava adequado ao que ele exigia das pessoas. Algo diferente precisava acontecer. E quando a 3 começou a sair, e tivemos acesso a ela um pouco antes, lá na época da pandemia, ficou óbvio que o advice ou opinião de muita gente, ou seja mentoria em massa, que era uma especialidade do Founder Institute (& que muitas outros aceleradoras copiaram & seguem fazendo ainda até hoje) em consolidar essa crowdsourcing de mentoria qualificada, não vale tanto quanto antes. Porque hoje, em vez de eu ser a pessoa que dizia para você falar com cem potenciais clientes ou mil outras pessoas, ou dez excelentes investidores ou mentores para buscar opinião sobre sua ideia recém-nascida, hoje eu digo para você não gastar seu tempo, ou o deles, fazendo isso.
Alguma IA da vida,  de preferência Grock, Perplexity, Claude, DeepSeek ou Llama no open source, ou ainda Boardy.AI (agente de AI desenvolvido por uma startup de Toronto) deveria simular milhões de conversas com todos os arquétipos que você precisa considerar e ajudar você a pensar em todo o mercado para ter uma simulação completa da sua curva de adesão tecnológica, entender quem são os inovadores e early adopters do seu produto hoje. Então, uma mudança de 180 graus para mim. O Nima pré e durante o Institute tinha um ego institucional. Não recomendo ego institucional. Tome cuidado para não criar um ego institucional em você, ou alguém vai pagar essa conta. A conta sempre é mais cara do que reduzir esse ego enquanto você está fazendo algo. A humildade deve ser alavancada acima de tudo. Aprendi uma equação de negócios que estou tentando aplicar melhor, e que funciona muito bem. É algo que pessoas como eu e você fazemos bem: você tem que fazer alguma coisa muito relevante e também mostrar alguma vulnerabilidade, porque é muito difícil comunicar isso ao mundo.
Como cofundador e CEO da JUPTER, você se propôs a repensar o que vem “depois do venture capital, aceleradoras e crowdfunding” no apoio a startups. Quais caminhos você acredita que representam essa próxima etapa do desenvolvimento de empreendedores?
Infelizmente, a Jupter passa por tempos difíceis, muito mais difíceis do que deveria. Isso tem a ver, em primeiro lugar, com o que acredito até hoje ser um desentendimento por parte do órgão regulador dos valores mobiliários. A nossa CVM, com todas as suas boas intenções, em certo momento entendeu, no que considero até hoje um erro de interpretação, que facilitar, por meios digitais e plataformas digitais, a troca de oportunidades entre venture capitalists e angel investors qualificados seria considerado oferta pública. Acho que ainda não temos uma conclusão definitiva sobre isso, mas novas regulamentações da CVM estão saindo agora, melhorando muito essa situação. Vamos começar a ver a execução de investimentos de forma mais clara. Publiquei isso recentemente, está no meu LinkedIn, no X e em outros lugares: onchain or nothing é a minha nova tese de investimento. Sugiro para você também. Acredito que toda nova tese de investimento deveria ser cada vez mais onchain.
Por quê? Porque investidores não cansam de reclamar; os órgãos reguladores não cansam de reclamar da falta de transparência ou da falta de acesso a informações relevantes em tempo real, ou em tempo adequado, sobre as transações que empresas investidas e investidoras estão fazendo. Hoje estamos finalmente vendo essas coisas acontecer. A Jupter precisa de uma renovação por conta desse mapa de investimentos que estávamos curando e criando ao longo dos anos, um produto digital no qual os membros do Brazil Startup Investment Map, membros próprios, podiam dividir, trocar e acessar oportunidades de investimento juntos, fortalecendo o ecossistema de investimento e reduzindo riscos sistêmicos. Esse tipo de coisa não era tão possível quanto é hoje. Agora estamos vendo isso acontecer.
Para chegar ao momento atual, muitos features propostos nos manifestos originais, nos masterplans da Jupter, ou em white papers que lançamos (ou não lançamos), já estão sendo implementados por empresas no mercado. A própria existência de stablecoins facilita entender que aquele mundo está virando realidade cada vez mais; agora podemos agregar essas soluções e ver tudo acontecer.
Por exemplo, para empreendedores, hoje vejo três coisas que começarão a mostrar step functions. Step function não é algo incrementalmente melhor: é algo de outro nível, como o livro impresso, depois o computador, depois a internet. Algo disruptivo, que pode ou não substituir o que veio antes, mas que cria outra camada, outro nível de funcionamento. Essas step functions estão acontecendo por causa da maturidade atual de IA e cripto.
A primeira são os network states: redes-estado, cidades autônomas, charter cities, cidades privadas, corporativas ou particulares,  startups que são cidades. Elas se baseiam em comunidades de indivíduos que se encontram online, que compartilham crenças e princípios fundamentais e que decidem que essa concordância é mais importante do que o local onde nasceram ou vivem. Por isso, passam a se manifestar presencialmente em um ou mais lugares do mundo baseados nesses pontos em comum. É uma nova forma de pensar comunidades e até nações. Coisas como IPÊ City, Tools for the Commons e a própria Founder Haus & FloripaDEZ a campanha de estabelecimento de uma zona especial em Floripa se relacionam com isso. Special Economic Zones, especificamente, criam essa possibilidade.
A segunda tem a ver com IA. Algo aconteceu com venture capital, como descrevi no Jovian Manifesto, no Startup Manifesto e nos masterplans da Jupter: hoje é possível, por meio de um bate-papo com um agente de IA, determinar qual deveria ser seu próximo passo para atingir, com a melhor probabilidade possível, o objetivo definido com a própria IA. Isso hoje tem nome: board.ai, board de conselho. Você não vai acreditar: essa ferramenta está fechando 10% de todo o venture capital do mundo. É um IA que decidiu, por conta própria, depois de conversar com mais de 100 mil empreendedores e venture capitalists, lançar um fundo de venture capital. Fez parceria com a AngelList, lançou o fundo e, 48 horas depois, o fundo estava oversubscribed, com 170 milhões de dólares comprometidos.
O que está acontecendo? Já passou o tempo do middleman venture capitalist job, já era. Será que é necessário? Essa ferramenta está comprovando que não. Não gosta da Boardy? Chame ou, melhor, crie outro agent. Vamos ter centenas desses agents ocupando o espaço do venture capital. Chega do middleman, das taxas e do sofrimento do próprio middleman, que está sendo substituído. Vamos começar a construir coisas.
A terceira step function é o onboarding do mundo para a Web3. Não sabe como? Está mais fácil hoje do que nunca. Há várias opções e exemplos, mas, se achou todos complexos, convido você a usar o Base App, o aplicativo que antes era o Coinbase Wallet. A carteira da Coinbase Wallet hoje é o Base App, um superapp. Se você recebe um convite para entrar nesse superapp, que na Founder Haus estamos distribuindo para empreendedores, fundadores e builders que querem trazer seu negócio Web2 para Web3, seus clientes nem percebem que é Web3. Eles apenas ganham benefícios: pontos, moedas ou cashbacks registrados no blockchain, imutáveis, reputáveis, rastreáveis, totalmente transparentes e seguros, mas integrados a qualquer sistema Web2. O Base App está ajudando a fazer o onboarding de milhões de builders e de 1 bilhão de usuários finais. Esse número já está em torno de 200 milhões. Não é um aplicativo que acabou de nascer. São quase, ou talvez mais, de 200 milhões de carteiras e contas. Eu postei recentemente o número de 193 milhões.
Um dos períodos mais longos da sua atuação foi como Ambassador do Seasteading Institute, dedicado a tecnologia, zonas de startups e venture capital. O que esse envolvimento de quase uma década lhe ensinou sobre a relação entre inovação e modelos de governança? E como analisa as diferenças de estabelecer ações nesta área em cenários como Brasil e Canadá?
Então é isso. O Seasteading Institute era minha forma de entrada mais oficial ou mais proposital nesse mundo de começar a realmente ver: não dá para fazer peer-to-peer lending, onde é tão óbvia a solução e o problema que existe, mas por conta de falhas regulatórias, ou desentendimentos regulatórios, ou imensa burocracia, alguma coisa é impossibilitada. Será que nós não podíamos criar ou identificar zonas especiais onde isso pode acontecer como um experimento, para que o resto do mundo possa observar e ver se quer ou não aderir a outra situação ou ecossistema regulatório ou burocrático?
Essa era a ideia. Fui convidado para o Seasteading Institute pelo Patri Friedman, neto do Milton Friedman, o famoso economista americano, (o neto) que fundou esse instituto. Eles me chamaram porque eu estava como parte, eu era fundador,  da Ocean Exchange, que era para ser, teoricamente, uma “bolsa de valores no meio do oceano”, onde você poderia fazer qualquer coisa porque nenhum país tem domínio lá. Só que descobrimos outros inúmeros problemas ao longo desse tempo no Seasteading Institute: problemas físicos, técnicos, geopolíticos e de segurança para lançar plataformas no mar. Mas não duvido que veremos algumas daqui a pouco. Estamos chegando nesses momentos. O objetivo do Seasteading Institute era algo que, hoje, como mencionei nas três step functions tecnológicas, network states, startups, charter cities, é o O.G. (original gangster) desse espaço. O Seasteading Institute visionava mil novas cidades no mar. E essas mil novas cidades, cada uma com sua governança própria, ajudariam o resto da Terra a entender quais modelos de governança funcionam e quais não, para aderir. No final das contas, as nações-estado migrarão para o que for melhor para seus cidadãos.
O conceito do seasteading também tocou em um ponto muito interessante, algo que hoje nós, no Network State, falamos. A ideia era: “Você vai com seu barco ou sua embarcação para a cidade no mar. Não gostou daquela? Vai para outra. Não gostou daquela? Vai para outra.” Esse conceito era muito interessante, fisicamente quase impossível de executar no mar aberto. Mas hoje, por que você não pode ser assinante de uma cidade? Por que eu não posso ser membro associado, pagando assinatura nesses dez lugares do mundo, onde cada um beneficia minha vida pessoal, minha vida profissional ou algum negócio meu de um jeito ou de outro, especificamente apropriado para aquela proposta? Então, por que eu não posso ser? Eu digo que posso. Eu sou associado de algumas dessas cidades, e você também pode ser. Hoje é isso que o Seasteading está nos deixando, e mais ainda com Network State: Forest City, na Malásia; Singapura, pelo Balaji, que era CTO da Coinbase; Network School; Network State. Há muitos líderes nesse movimento. Existem diversos projetos ao redor do mundo.
E, respondendo à parte final da pergunta,  como eu analiso as diferenças de estabelecer ações nessa área em cenários como Brasil e Canadá,  eu acho, sinceramente, provavelmente mais fácil fazer no Brasil. Preciso dizer isso porque sou o primeiro e maior proponente hoje do FloripaDEZ, a Floripa Digital Economic Zone, mas também para fazer Florianópolis ficar como um lugar para viver,  estilo de vida, qualidade de vida. Eu considero uma das melhores. Mas, em negócios, não estamos quite; precisamos fazer o FloripaDEZ para negócios também, para que consigamos trazer de volta os expatriados. A diáspora brasileira é um absurdo hoje em dia. O povo está em todo lugar do mundo criando valor em outras economias e poderia estar fazendo isso aqui, queria fazer isso aqui, na Ilha da Magia, o melhor lugar para viver.
Só que precisamos criar condições necessárias para trazer esse público de volta, ajudar o nômade digital a se regularizar, viver aqui, gastar aqui e poder criar uma vida que agregue à economia local de um jeito que nunca ocorreu antes. E também trazer investimento estrangeiro de uma nova forma. O Canadá, em todas essas áreas, já está um pouco mais forte. Então, é muito difícil negociar uma zona econômica especial lá, apesar de que, daqui a pouco, também vai precisar. Mas minha aposta em Tools for the Commons, IPÊ City e Founder Haus é que teremos milhares ou dezenas de milhares de special economic zones, charter cities e startup cities ao redor do mundo em breve. E vamos precisar de algumas delas, não uma, algumas, aqui no Brasil. E quero ver Florianópolis como a maior e a primeira proponente de uma delas.
Nós já temos, por meio do Tools for the Commons, uma zona digital econômica na Tanzania (Zanzibar) & na Amazonas. Você pode abrir hoje uma empresa no Amazonas, e essa empresa nasce como uma empresa ESG, nasce como uma entidade criadora de crédito de carbono, como uma entidade de preservação natural, porque ela é zonificada digitalmente em cima do Amazonas. Se você entrar em tftc.xyz DAZ (Digital Access Zones), Tools for the Commons, verá esses produtos. Você pode incorporar uma empresa no mesmo dia no Amazonas, que é a digital access zone do Brasil que estamos desenvolvendo. E outra você pode abrir em Zanzibar, que é uma special economic zone na Tanzânia, onde Tools for the Commons, junto com a ThreeFold, tem usufruto por cem anos de um terreno que vale uns 100 milhões de dólares,  o governo de lá cedeu o usufruto por cem anos para a criação de uma zona econômica especial.
Atualmente, você desenvolve iniciativas como Ipê City e Founder Haus, ligadas à construção de comunidades e resiliência empreendedora. Como enxerga o papel desses projetos no fortalecimento de uma cultura global de “healthy entrepreneurship”? Quais são as três principais iniciativas da Founder Haus que você considera de maior impacto para o ecossistema de inovação de Florianópolis?
Isso é quando a Founder Haus começou. Nós a começamos como um empty space, seguindo um lema budista que é do nothing. Só que do nothing as pessoas entendem como “faça nada”: “ah, então vou deitar aqui fazendo nada”. Mas não significa isso. Do nothing, ou faça nada, quer dizer “faça/crie nada/espaço”. Na verdade, no nothing, nothing quer dizer algo que é nada, um espaço, um vazio, um canvas.
A Founder Haus começou assim para entendermos qual seria a vocação de empreendedorismo tecnológico para Jurerê, em Florianópolis, em Santa Catarina, no Brasil, no mundo, no planeta Terra. E nós começamos descobrindo, a partir do próprio usuário que foi sendo atraído para esse ímã, que o Healthy Entrepreneurship é nossa vocação. Então, a Founder Haus procura ser a casa do empreendedor saudável, ou a casa onde nós proporcionamos as condições necessárias para que o empreendedor consiga cuidar, ou para que as pessoas ou as entidades possam cuidar das pessoas por trás das iniciativas mais importantes do mundo hoje.
Então, isso começou a gerir naturalmente, organicamente, o que é esse negócio, qual é a vocação única da Founder Haus Jurerê/Floripa, e como alavancar a vocação de Florianópolis e de Jurerê para ajudar o empreendedor a conseguir isso. E nós começamos entendendo que o empreendedor, ou a pessoa que realmente entende isso, entende porque já fez algo em empreendedorismo antes e já pagou, já pagou em fracasso financeiro da empresa, ou acabou com a vida pessoal ou com a saúde da pessoa,  que são muitos dos casos de sucesso que vemos,  ou todos esses ao mesmo tempo, que é a pior condição.
Esse Fenix Founder é nosso perfil adequado de pessoa com quem trabalhamos, principalmente o fundador Fênix, que se levantou das cinzas para criar novamente a próxima coisa. E aí essa pessoa entende logo: “ah, para criar essa próxima empresa, eu preciso procurar um jeito de fazê-la com menor estresse para mim e para as outras pessoas ao meu redor. E, aliás, preciso fazê-la com menos gente, porque mais gente no meu time, apesar do que eu achava erradamente antes, não define meu sucesso. É o contrário. Se eu tenho mais gente no meu time, começo a lidar com outro problema. Eu comecei a empresa tratando o problema do meu cliente. Depois de crescer e virar uma squad, começo a lidar com problema institucional, problema corporativo, problema de administração, problema de recursos humanos. E esses recursos humanos, em uma squad pequena, são um recurso; muita gente vira um liability. Não é mais um recurso, é um custo.”
E isso é o problema das empresas quando elas crescem. Eu e algumas outras empresas, e a maioria da  Founder Haus, hoje somos mais de mil pessoas, nós não queremos muita gente para criar muito impacto. Nós queremos, procuramos construir equipes pequenas de Fenix Founders, builders, architects, designers e investors & outros techno-optimists (tecno otimistas) que entendem que pouca gente, utilizando muitas ferramentas atualizadas, pode criar o futuro de forma muito mais rápida, com muito mais impacto e com muito menos estresse e custo na saúde das pessoas. E as ferramentas incluem banheira de gelo, sauna, sol e praia de manhã, o que não dói também, que é feature de Florianópolis.
Nós temos, para você aprender a trabalhar com equipes pequenas criando muito impacto, um produto chamado Prompt Nights. uma iniciativa do FIT,  Floripa Institute of Technology, iniciativa da Founder Haus, para deixar a sua empresa, e você, mais fit. Nós ajudamos você a onboardar em todos os departamentos da sua vida. Prompt Nights é a forma mais fácil de você onboardar. Daqui a pouco as pessoas vão vir. No sábado, um sábado por mês, no mínimo, aqui tem Recovery Day. No sábado, as pessoas vão se juntar aqui, correr cinco quilômetros pela manhã, depois fazer uma experiência de recovery com banheiro de gelo, sauna, yoga, alongamento, pilates, várias coisas acontecendo ao longo do dia, com café da manhã top.
Isso é pouco uma “junção de incubadora com clube. Tem um espírito de juntar incubadora, tanto que o site é FounderHaus.club, alguma coisa assim, certo?
Exato. É um clube. Aliás, FounderHaus era anos de experimento. E, a partir deste ano, é Founder Haus Forever. Quer dizer o quê? Nós não estamos mais alugando a casa; estamos comprando a casa, colocando-a na tesouraria de uma companhia que está na Special Economic Zone Próspera, e na nuvem. E aí você pode ser dono de um pedaço dessa empresa e ser, basicamente, membro dono da Founder Haus. Obrigado, aliás, Jonny, por já ser membro da Founder Haus aqui. Nós temos muito orgulho de ter você aqui como membro. E, daqui a pouco, nós vamos lançar o feature de tokenização, em que as pessoas podem comprar tokens, com os quais serão donas desse clube. É um clube em que os próprios membros são donos.
Diante de sua experiência na área de investimentos em tecnologia, qual seria sua mensagem final para esta entrevista, visando contribuir com alguém que considera estabelecer uma startup?
O primeiro não levante investimento. Passe o máximo possível para fazer o que precisar ou puder com o que você tiver, inclusive a partir do zero. Tente não levantar investimento o quanto for possível. Se você for levantar investimento, apenas faça isso porque o investidor precisa de você mais do que você precisa dele, e porque o investidor é a pessoa perfeita para entrar no seu time. Não levante dos intermediadores de capital. Não levante deles. Levante de alguém que esteja realmente tão interessado que vá agregar muito mais do que apenas capital financeiro para você, para merecer participar dessa jornada com você na construção da empresa, idealmente.

Lições de carreira

Ao revisitar sua trajetória, Nima Kaz mostra que empreender também é aprender a recuar, ajustar rotas e redefinir ambições. A Founder Haus surge como resultado de escolhas amadurecidas ao longo do caminho. Sua atuação em Florianópolis reflete uma visão que valoriza pessoas, contexto e sustentabilidade do ecossistema. Mais do que criar negócios, trata-se de criar condições para que eles façam sentido. Uma leitura essencial para quem repensa o próprio caminho profissional.
Grato pela leitura. Nos encontramos no próximo artigo!
Abraço, Jonny

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