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Uma pesquisa recente do LinkedIn, divulgada pelo Valor Econômico, acendeu um alerta no mercado de trabalho brasileiro: mais da metade dos profissionais, 54% para ser exato, pretende buscar um novo emprego em 2026. O dado, por si só, já seria suficiente para mobilizar qualquer setor. Mas o que realmente importa é entender o que está por trás desse movimento, especialmente em áreas como publicidade, audiovisual e comunicação, onde a lógica de carreira sempre foi menos linear e mais instável.
Não estamos falando apenas de insatisfação com salário ou cargo. O que está em jogo é algo mais profundo: a relação das pessoas com o trabalho, com o tempo, com o sentido do que fazem e com o quanto se sentem reconhecidas pelo que entregam. No mercado criativo, essa inquietação não é novidade. Ela apenas ganhou escala, linguagem e legitimidade.
O desconforto não é passageiro. Ele é estrutural.
O profissional de publicidade e audiovisual, por natureza, é inquieto. A criatividade, nossa principal matéria-prima, alimenta-se de novos desafios e de um senso de propósito. No entanto, o que temos visto é um cenário de esgotamento. O Brasil, infelizmente, lidera o ranking mundial de turnover, com um aumento de 56% na rotatividade no último ano. As causas são velhas conhecidas: clima organizacional tóxico, desalinhamento de expectativas, falta de reconhecimento e, crucialmente, a ausência de um plano de carreira claro. Em um setor que vive da inovação, a gestão de pessoas parou no tempo.
A pesquisa mostra que muitos profissionais se sentem preparados para mudar, mesmo reconhecendo que o mercado está mais competitivo e os processos seletivos mais exigentes. Esse paradoxo diz muito sobre o momento atual. Há confiança na própria capacidade, mas também uma percepção clara de que permanecer onde se está, sem perspectiva de evolução, pode ser mais arriscado do que tentar algo novo. A pergunta deixou de ser “onde eu trabalho” e passou a ser “como e por que eu trabalho”.
Emprego fixo, projeto, consultoria ou autoria?
Publicidade e audiovisual sempre funcionaram em ciclos. Projetos começam, projetos terminam. Clientes mudam. Formatos envelhecem rápido. O que vemos agora é a consolidação de um modelo mais fluido, onde vínculos tradicionais convivem com contratos por projeto, prestação de serviço, consultoria e empreendedorismo criativo. A pesquisa aponta que quase metade dos profissionais (49%) demonstra interesse nesses formatos alternativos.
Muitos profissionais não estão exatamente trocando de emprego. Estão redesenhando sua forma de gerar valor. Buscam autonomia, participação criativa real e, principalmente, coerência entre discurso e prática. Isso exige mais maturidade profissional. Liberdade sem planejamento vira fragilidade. Autonomia sem clareza de posicionamento vira dispersão.
Tecnologia ajuda, mas não resolve sozinha
A inteligência artificial surge como uma poderosa aliada nesse cenário. A pesquisa mostra que 39% dos profissionais já usam ou planejam usar IA para personalizar seus currículos e 63% se sentem mais confiantes em entrevistas com o auxílio dessas ferramentas.. No audiovisual, a IA generativa será uma grande cocriadora em 2026, otimizando a publicidade com segmentação hiper-personalizada.
No entanto, a tecnologia é uma aliada, mas não substitui o essencial. Ferramentas aceleram processos, mas não constroem identidade. Elas organizam informações, mas não criam visão. Quem não sabe quem é como profissional dificilmente saberá usar a tecnologia a seu favor. A IA potencializa quem tem clareza. Para quem não tem, só aumenta o ruído.
O desafio das lideranças criativas
Para empresas e lideranças, o recado é claro. A concorrência por talentos está mais acirrada do que nunca – 76% dos recrutadores relatam dificuldades em contratar pessoal qualificado. Retenção não se constrói apenas com benefícios, discurso inspirador ou mesa de sinuca. Profissionais criativos querem perspectiva, troca real, aprendizado contínuo e participação nos rumos do negócio.
Ambientes que tratam talento como recurso descartável não perdem apenas pessoas. Perdem repertório, memória e capacidade de inovação. O futuro do trabalho criativo passa por relações mais honestas, menos hierárquicas e mais responsáveis dos dois lados. Meu lema na PlanoGestão, “gestão criativa é gestão lucrativa”, nunca foi tão pertinente.
2026 não fala sobre trocar de emprego. Fala sobre trocar de lógica.
O maior risco desse movimento coletivo de mudança é tratá-lo como fuga e não como estratégia. Trocar de empresa sem revisar expectativas, hábitos e competências costuma levar ao mesmo lugar, apenas com outro nome na porta.
O dado que diz que metade dos brasileiros quer mudar de emprego não é um alerta de crise. É um sinal de transição. Estamos saindo de uma lógica de carreira baseada em permanência e entrando em outra, baseada em coerência. Para quem atua na economia criativa, isso não deveria assustar. Criar sempre foi sobre mudança, reinvenção e coragem para abandonar fórmulas que já não funcionam.
Talvez o maior aprendizado seja simples, embora desconfortável: não é o mercado que mudou de repente. Nós é que passamos tempo demais tentando caber em estruturas que já não nos comportam.
Referências
[1] Metade dos brasileiros pretende mudar de emprego em 2026, aponta LinkedIn. Valor Econômico. Disponível aqui
[2] Os desafios da retenção de talentos no mercado publicitário. Disponível aqui.
[3] Quais são as principais tendências de mídia para 2026. Meio & Mensagem. Disponível aqui.

