Impressionante como a conjuntura política do país incentiva a destruição dos padrões morais em que já fomos, um dia, educados.
Quando o exemplo vem da estrutura social mais elevada fica difícil convencer os menos aquinhoados com o discurso da honestidade e da moralidade.
O que acontece na realidade do dia-a-dia é reflexo do que o povo percebe nas mais elevadas estruturas do poder. Empresas estatais repletas de apaniguados políticos produzindo resultados pífios e gerando prejuízos que serão pagos pelo povo é o equivalente, guardadas as proporções, aos saques feitos em caminhões acidentados nas estradas do país pelo povo que não percebe nenhuma falha moral ao assim proceder e, muitas vezes, não respeitando sequer a vítima fatal do acidente.
Relembrando alguns eventos que marcaram fundo nos brasileiros conscientes: o incêndio do Museu Nacional com perda de acervo e todas as suas consequências; o desastre ambiental de Mariana com mortos e vasta degradação ambiental; a repetição do fato 3 anos após em Brumadinho com todas as mazelas resultantes e o incêndio no CT do Flamengo com 10 jovens mortos e 3 feridos. Aposto que já tinha esquecido!
São fatos do cotidiano dos brasileiros que impactam, absurdamente, no primeiro momento e depois, caem no esquecimento, pois são substituídos por outros fatos mais graves. O que fica marcado, para o cidadão comum, é a impunidade das pessoas que geram estes acontecimentos.
A impunidade é, sem dúvida, a causa de grande parte dos problemas brasileiros e, vem de longa data. Permitam-me recordar dois grandes incêndios ocorridos no país. O do Edifício Andraus no dia 24.02.1972 com 16 mortos e 330 feridos e do Edifício Joelma no dia 1º fevereiro de 1974 com 187 mortos e mais de 300 feridos. Com intervalo de dois anos, dois incêndios de proporções gigantescas e com muitos mortos. As cenas passadas ao vivo na televisão mostravam as pessoas jogando-se do alto dos prédios para não morrerem queimadas; era a opção que lhes sobrava.
Perguntem: alguém foi punido? Os inquéritos apuraram responsabilidades? Assim está acontecendo com Mariana, pois já caiu no esquecimento e acontecerá com os demais exemplos citados na coluna. O caso mais sintomático é o do Museu Nacional, pois os funcionários sabiam das gambiarras feitas e dos valores necessários para a correção dos problemas; não havia dinheiro para as correções, mas aconteceu então um milagre e o dinheiro, depois do incêndio, apareceu em profusão.
Só em 2025 ocorreram os escândalos do INSS e do Banco Master; em ambos há o envolvimento de pessoas poderosas e ligadas ao sistema e que, provavelmente, ficarão impunes a exemplo de outros eventos similares ocorridos. A hora é de perguntar: como criticar ou punir o funcionário público que, para fazer andar ou parar um processo qualquer, solicita uma “pequena ajuda de custo?” Como criticar o empresário que adiciona água ao peixe congelado para aumentar seu peso? Como criticar aquele que subtrai gramas de um produto qualquer para aumentar seu lucro?
O exemplo sempre vem de cima por isso “a mulher de César não basta ser honesta, ela tem que parecer honesta!”
Foto de Towfiqu barbhuiya na Unsplash
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