
Ao passar quase duas décadas no setor bancário, você viveu um ciclo longo, chegando à posição de Diretor Executivo de Mercado. Considero que encerrar esse percurso, após anos de construção profissional, certamente envolveu ponderações profundas sobre caminhos, riscos e novos horizontes. Como esta mudança marcou o rumo das escolhas que vieram depois?
O setor bancário foi um sonho de adolescente. Comecei muito jovem, com apenas 17 anos, e fiz uma carreira vertiginosa que me manteve profundamente conectado ao trabalho. À medida que ia crescendo na organização, tinha a possibilidade de exercitar minha criatividade e competência de forma plena. Porém, depois do Plano Cruzado (1986), a ideia de inflação zero assustou o Sistema financeiro (a inflação foi domada, de fato, em 1994 com o Plano Real). Com isso, já a partir de 1987, promoveu-se um enxugamento extraordinário no setor. A necessidade do banco voltar a ser uma instituição genuína, que não se remunerava pela inflação, bateu de frente com a velha guarda da direção do banco. Esse embate transformou o ambiente, que se tornou bem desconfortável para mim. Comecei a pensar seriamente em sair do mercado financeiro, ainda mais quando fui transferido de Florianópolis para o ABC Paulista.
Assim, depois de quase 20 anos, o trabalho estava deixando de ser divertido. Estabeleci então como objetivo sair do banco e fazer algo que me motivasse e desafiasse novamente. Tinha 33 anos quando estabeleci como meta pessoal, decidir o que fazer como empreendedor até os 40 anos. Saí do banco aos 39, em BH.
Essa transição, no entanto, foi cuidadosamente planejada e como disse, levou quase sete anos para se concretizar, consumando-se quando voltei para Belo Horizonte, cidade onde havia ingressado no banco e possuía ótimos relacionamentos. Foi um ciclo que se fechou de forma consciente em 1994.
Ao deixar o ambiente corporativo, você optou por criar uma Consultoria em Marketing e Produtividade Humana, iniciando sua jornada empreendedora. Essa escolha indica um reposicionamento importante na sua forma de atuar. Quais reflexões orientaram essa transição inicial para a consultoria? E o que fundamentou as opções por marketing e produtividade?
Durante os sete anos em que me preparei para sair do banco, investi profundamente na minha formação. Fiz graduação em Psicologia e um MBA em Marketing, me especializando em comportamento humano e segmentação de mercado – áreas que já exercitava no ambiente bancário – fui um dos precursores de um novo modelo de segmentação do banco.
Ainda no banco, desenvolvi inúmeros programas de treinamento, e a formação em psicologia me ajudou a produzir conteúdo de alta qualidade nessa direção. Havia uma sinergia natural entre minha experiência prática e minha formação acadêmica.
Por isso, quando saí, a consultoria que criei focou naturalmente em duas áreas onde eu tinha expertise consolidada: Marketing, com ênfase em comportamento do consumidor e estratégias de mercado, e Desenvolvimento Pessoal, onde eu podia aplicar todo o conhecimento de psicologia e treinamento envolvendo programação neurolinguística algo revolucionário que surgiu na época e é a base do coach no mundo. Não foi uma escolha aleatória, mas sim o resultado de anos de preparação consciente.
Na sequência, você se torna cofundador do Zeek, uma ferramenta de buscas dos principais provedores de acesso do país antes do Google, momento bem inicial da web comercial no Brasil. Mudar novamente de direção para entrar no ambiente digital representa outro ponto de decisão relevante na carreira. Quais aprendizados desse período do Zeek influenciaram seu modo de pensar negócios na internet?
Quando deixei o sistema financeiro, um dos setores que mais me impressionou, mesmo que não houvesse planejado inicialmente, foi a emergente internet. O projeto ACHEI, que depois virou ZEEK, era uma iniciativa do Sidnei Oliveira, que gerenciava uma das empresas do Grupo Real, chamada Metro Marketing Direto.
E isso sim estava perfeitamente alinhado com meu interesse profundo por personalização, segmentação e comportamento humano. Foi uma migração absolutamente natural. O Sidnei me convidou para fundar oficialmente a empresa que, até então, era uma espécie de hobby dele (porque inclusive ele ainda atuava no mercado financeiro), mas esse mercado já demonstrava potencial.
Aceitei o convite e ajudei a profissionalizar a empresa, trazendo uma visão estratégica e de marketing. O aprendizado foi transformador: entendi o poder da internet como plataforma de conexão personalizada, a importância da experiência do usuário antes mesmo desse termo se popularizar, e como dados de comportamento poderiam ser transformados em insights valiosos de negócio. Tudo isso moldou profundamente minha visão sobre empreendimentos digitais nos anos seguintes. Fazer parte de um pequeno grupo que fundou os pilares da internet comercial no Brasil foi algo fascinante.
Outra experiência que parece ter sido marcante foi empreender com a IMAIS Internet, justamente no período marcado pelo estouro da bolha. Vivenciar esse momento dentro de um negócio próprio certamente trouxe decisões difíceis e aprendizados que reverberam até hoje. Que tipo de impacto esse episódio teve na maneira como você projetou seus empreendimentos digitais nos anos seguintes?
O IMAIS surgiu porque vendemos o ZEEK para a StarMedia, e eu optei por não aceitar o convite para continuar na gestão da empresa adquirida. Decidi desenvolver uma nova startup, e foi assim que nasceu o IMAIS – o primeiro projeto de Syndication Marketing do Brasil.
Passamos a administrar o estoque de publicidade de mais de 1.000 sites de conteúdo qualificado e segmentado. Utilizando a tecnologia da lendária DoubleClick, o IMAIS se tornou a opção de mídia interativa mais relevante do mercado brasileiro naquele momento.
Infelizmente, isso ocorreu no limiar do estouro da bolha das pontocom. Quando a bolha estourou, o IMAIS tinha diversos contratos com as principais agências de publicidade do Brasil, que solicitaram o cancelamento em massa devido à repercussão negativa. Pensei que era um movimento passageiro, mas não foi. A crise durou três anos e tive que descontinuar o projeto.
Como era bem relacionado e respeitado no mercado, recebi vários convites para dirigir outros negócios. Acabei aceitando ser diretor do Grupo Matrix em Florianópolis e São Paulo, que estava se posicionando como provedor de VPNs e Datacenter. Depois, recebi e aceitei convite para fundar novo Datacenter em SP, a .comDominio, um projeto com grandes investidores.
Mas nada me fez feliz depois do IMAIS, pois descobri que não conseguia mais ser “empregado”. Precisava da autonomia empreendedora. Então recebi um convite para montar uma startup dentro da FIESC: um portal de soluções de base tecnológica chamado Indusplace, que depois se converteu na Bizplace – a primeira empresa do Brasil no modelo SaaS, focada em presença profissional na web.
O impacto desse período foi profundo: aprendi sobre timing de mercado, resiliência empresarial, a importância de diversificação de receitas, e principalmente que crises sistêmicas são diferentes de crises de modelo de negócio. Também descobri que minha vocação era realmente empreender, não executar projetos de terceiros.
Ao longo de mais de 18 anos atuando como Master Coach Estrategista, você deve ter presenciado mudanças profundas neste mercado. Como fiz formação em coaching há mais de uma década, reconheço o valor desta área, mas vejo que o termo passou por forte desgaste público, talvez em função de seu uso indiscriminado e da falta de critérios consistentes. Caso concorde que exista este desgaste, com base em sua experiência na área, como interpreta as razões que levaram a esse cenário? E que caminhos enxerga para reconstruir a credibilidade do coaching no país?
Na verdade, me posicionei como coach ainda no banco, quando, além de me formar em Psicologia, estudei profundamente Programação Neurolinguística aplicada a treinamento, tendo como referência, dentre outros, Tony Robbins. Logo, o coaching – que nem era chamado com esse nome na época – entrou na minha vida profissional no início da década de 90.
Posteriormente, fiz várias formações complementares, inclusive duas certificações de Especialista em Perfis Comportamentais (Metodologias PI e DISC). Quando resolvi atender profissionalmente como coach, minha abordagem sempre foi a de Estrategista Comportamental. Portanto, nunca me enquadrei em nenhum modelo de “coach da moda”.
O que produzi de ensaios e artigos especializados sobre o tema demonstra minha sólida formação e conhecimento. Sempre fui reconhecido pelos resultados obtidos pelos meus coachees e clientes – e isso é o que realmente importa.
Quanto ao desgaste do termo, concordo plenamente. O cenário em que vários “gurus” se posicionaram, oferecendo soluções mágicas sem fundamentação teórica ou prática consistente, jamais teve alguma relação com o que pratico. Desde que assumi ajudar pessoas e empresas a identificar e gerir as melhores estratégias comportamentais, sempre mantive rigor metodológico e ético.
O caminho para reconstruir a credibilidade passa necessariamente por: formação sólida e continuada, especialização em nichos específicos, foco em resultados mensuráveis, transparência sobre metodologias utilizadas, e principalmente, distanciamento de promessas milagrosas. O coaching sério é uma ferramenta poderosa quando praticado com competência, ética e fundamentação.
Desde 2014, você exerce a função de diretor na LUAZZU Soluções, no setor de design de mobiliário. Esta linha de atuação parece adicionar ainda outra camada à sua trajetória. Que decisão o levou a consolidar essa atuação dentro do ecossistema de design e interiores? E como você considera que esta função se conecta, ou não, com elementos anteriores de sua trajetória?
Na verdade começou antes com a Divina Natureza, em 2004. A LUAZZU, um estudo de design e criação de mobiliário, que tambem geria a comercialização da DN e HADRA, foi um desdobramento do projeto DN que incluiu a marca HADRA Movelaria (uma industria moveleira), empresa que assumimos com a DN (2006) e depois LUAZZU, em 2014, integrando todos os negócios numa única empresa.
Eu sempre estive conectado com as artes visuais: fui artista plástico, como hobby, dos 9 aos 22 anos, e fotógrafo fine art profissional desde os 16 anos. A sensibilidade estética e o olhar para forma, composição e significado sempre foram parte integral de quem sou.
Em 2004 me casei com Lucia, empresária do setor moveleiro, e juntos fundamos uma nova empresa, a DIVINA NATUREZA. Com ela, não apenas desenvolvemos mobiliário assinado de alta qualidade, como também levei minha arte fotográfica para esse ambiente, criando uma fusão única entre funcionalidade e expressão artística, dirigida ao ambiente do design de interiores.
Considerando que passei a ter, manter e desenvolver relacionamentos profundos no ecossistema de design de interiores, identifiquei uma oportunidade natural: passei a atender como Coach Estrategista Comportamental os profissionais dessa área específica.
A conexão com elementos anteriores da minha trajetória é muito clara: continuo trabalhando com comportamento, estratégia e desenvolvimento de pessoas, mas agora em um nicho onde também posso contribuir com minha sensibilidade estética e compreensão de processos criativos. É uma síntese perfeita entre várias dimensões da minha formação e experiência – psicologia, estratégia, arte e negócios. Embora não esteja fechado apenas no ambiente do Design de Interiores.
Ao participar ativamente do início da internet comercial no Brasil e vivenciar o impacto direto do estouro da bolha, experiência descrita como determinante, você acompanhou como mercados emergentes passam por fases de euforia, expansão e ajustes. Hoje, como articulista que também aborda Inteligência Artificial, como você enxerga os debates atuais sobre uma possível “bolha da IA”? E, caso um movimento desse tipo venha a ocorrer, o que os profissionais podem fazer desde já para se preparar melhor para esse cenário? Qual seria sua mensagem final para esta entrevista?
A evolução das IAs é um movimento diferente e tem outros padrões envolvidos. Para começar, a IA não é algo emergente – ela existe há décadas. Mas os desdobramentos recentes, principalmente nos últimos cinco anos, são realmente impressionantes e transformadores.
Claro que muitas empresas estão surgindo nesse mercado e é possível que passemos por um movimento de consolidação, como ocorre em qualquer setor que cresce exponencialmente. Mas o desafio fundamental é outro, muito mais profundo: como os seres humanos vão usar a IA sem serem usados por ela. Há uma espécie de conversão de modelos onde META, GOOGLE, X, TIKTOK, por exemplo, passam a ser PLATAFORMAS DE IAs, para enfrentar suas próprias obsolescências pela entrada de eventuais concorrentes como OpenAI, Anthropic e outras.
Tenho vários artigos e ensaios sobre o tema onde alerto para o fato de que tecnologias podem ser boas ou más dependendo exclusivamente do uso que se faz delas. Existe um risco real de que a IA provoque um “emburrecimento” dos humanos, que passam a perder profundidade cognitiva ao delegarem excessivamente suas capacidades de pensamento crítico e criativo. Além do risco da infusão diária de “Dopamina Digital”, algo tão viciante ou mais do que “cocaine”, por exemplo.
Os desafios são muitos e complexos: desde a coexistência de múltiplas gerações absolutamente diferentes no ambiente de trabalho, que desafiam modelos tradicionais de liderança, até questões fundamentais de autogestão em um mundo hiper-conectado e saturado de informação: uma competição visceral entre Silêncio X Ruído.
Minha mensagem final, e que considero palavras-chave para a salvação profissional e pessoal neste cenário, são: “USE IA PARA SE DEFENDER DA IA.”
• CURADORIA DE CONTEÚDOS – saber filtrar o que é relevante do que é apenas ruído;
• PROFUNDIDADE INTEGRACIONISTA – capacidade de conectar conhecimentos diversos de forma significativa, com foco e evitando dispersão provocada por algorítimos cada vez mais sofisticados;
• DETOX DIGITAL – invista em períodos regulares de desconexão para preservar sua saúde mental;
• EQUILÍBRIO EM TODOS OS SENTIDOS – físico, mental, emocional e espiritual.
Essas são as ferramentas essenciais para escapar do ruído do nosso tempo e construir uma carreira e uma vida verdadeiramente significativas. A tecnologia deve ser nossa ferramenta, nunca nossa prisão. Ou você aprende a usá-la sabiamente ou ela usa você.
LIÇÕES DE CARREIRA
A trajetória de JMC Sanchez nos ensina que uma carreira exitosa busca integrar as diversas dimensões do indivíduo. A fusão de sua experiência executiva no setor financeiro, formações em Psicologia e marketing, entre outras e sua sensibilidade artística resultaram em um posicionamento como Estrategista. Esta jornada é um poderoso lembrete de que a satisfação profissional reside em fechar ciclos de forma consciente e em encontrar um nicho onde seja possível aplicar a expertise de forma plena, transformando a experiência acumulada num novo caminho com propósito.
Grato pela leitura. Nos encontramos no próximo artigo!
Abraço, Jonny
