Youtuber Felca produziu vídeo que mobilizou o país – Imagem: Reprodução
No Brasil, dizer o óbvio pode ser uma tarefa absurda e perigosa. Não à toa, o influenciador Felca, ao expor a adultização de crianças e adolescentes nas redes sociais, passou a receber ameaças e precisou reforçar sua segurança. É que ele tocou num ponto que incomoda a muitos, e agora promete processar uma porção de agressores.
Mas Felca errou num ponto. O problema da adultização vai muito além das redes sociais. Ele está impregnado na nossa cultura, na música, nos esportes e na publicidade. É parte de algo, portanto, que diz respeito à forma como tratamos nossas crianças.
A Adultização na Música
Milhares de adolescentes ouvem, cantam e dançam ao som de músicas com letras que ferem preceitos básicos de decência, mesmo para ouvidos menos conservadores. São “canções” que falam abertamente sobre sexo, drogas, traição, e violência, especialmente contra a mulher. Mas entre os jovens, esses “artistas” fazem muito sucesso, justamente em idades em que seus conceitos de mundo e de sociedade ainda estão em plena formação.
Artistas bastante populares entre o público jovem possuem “pérolas” do tipo “Raba, peitos, como pulam”, “Eu sou gostosa e sou tua chefe / Eu mando em tudo e sei pagar boquete”, “a tua sentada no meu colo / devagar descendo e subindo / depois tu galopa, eu sei que tu gosta“, “Sexo sem parar, primeiro eu botei ela pra mamar / Sexo sem parar, calma também vou querer te chupar”. Sim, são músicas que crianças e adolescentes ouvem, cantam e reproduzem aos milhares.
A Publicidade e os Esportes como Ferramentas de Adultização
Adultizaram tudo. Até mesmo os canais infantis veiculam comerciais que induzem ao consumo, que é outra forma de adultizar indivíduos que ainda não têm discernimento para entender sobre preços e endividamento. O pior é que muitos desses canais inserem publicidade não destinada a crianças, o que é, convenhamos, uma aberração.
No esporte, a situação não é diferente. Ídolos que deveriam ser referências de valores e superação se envolvem em jogos, bebida, traições e apostas. As referências esportivas acabaram se tornando ferramenta de adultização, na medida em que os jovens acabam tomando estes atletas como referências pessoais e comportamentais.
O Papel dos Influenciadores
Os influenciadores, por sua vez, precisam vender. E a forma mais eficaz de cativar um público sem plena capacidade de discernimento é se manter no limiar entre o mundo adulto e o infantil. Não por acaso, alguns influenciadores (mais velhos) usam voz infantilizada, roupas com estampas infantis, e fazem piadas de “quinta série” (como costumam dizer). Tudo para parecerem jovenzinhos e criarem uma conexão artificial com a audiência. E o resultado: eles vendem, e muito.
Talvez por isso o Bobbie Goods (o inocente livrinho de desenho) tenha se tornado uma febre entre as crianças. Ele é um grito de socorro, uma demonstração clara de que as crianças clamam pelo direito de serem, simplesmente, crianças, e talvez já estejam cansadas de serem expostas a personagens amorfos, que apenas os envolvem cultural e emocionalmente para lhes furtar o principal: sua inocência.
A Culpa é Nossa
A responsabilidade por tudo isso é nossa. Nossa como sociedade, como educadores, como pais que, por vezes, substituem o dever de educar e de cuidar por um celular, um videogame ou um desenho animado. Terceirizamos os cuidados com as crianças e, sob o pretexto de afastá-las da violência externa, as aprisionamos na violência interna.
Também é responsável o Poder Público, que falha com seu dever de informar, de educar com qualidade e de ser censor do que merece ser censurado. Este Estado é apenas reflexo de uma sociedade que não se impõe contra o próprio Estado. Afinal, o Estado somos nós.
A nossa maior tragédia enquanto sociedade é atribuir toda a culpa a isto ou aquilo, ao passo em que nos colocamos distantes da responsabilidade que nos deveria recair todo santo dia.
Começar a olhar para todos estes problemas e ao menos ter o senso crítico de identificá-los já é o início de alguma coisa. Mas se acredito em mudanças? Sinceramente, acho tarde demais. O processo de adultização não é recente, nem é algo exclusivamente nosso. E são muitas as razões: a globalização, a cultura do consumo, a luta pela relevância nas mídias, o descompromisso de algumas famílias com a efetiva proteção das crianças, o distanciamento da fé etc.
Tudo isto faz com que o processo de devolução da inocência se torne uma tarefa hercúlea, que demandaria um esforço global, um pacto de todas entidades públicas e privadas em prol de um mesmo objetivo. Pelo sim, pelo não, se o caminho é longo, e o sucesso, uma possibilidade remota, em algum momento precisa começar. Felca começou.

