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Todo mundo, até quem não é do ramo, tem acompanhado a invasão de marcas e veículos chineses eletrificados no mercado brasileiro nos últimos 2 anos. Mas a pergunta sem resposta é: até onde isso vai ?
por Leonardo Ghidini*
Acredito que estamos vivendo uma bolha chinesa aqui no Brasil. E por que eu digo isso ? Por algumas razões que vou explorar ao longo deste texto.
Vamos começar analisando o desempenho de vendas do segmento de carros eletrificados (híbridos e 100% elétricos) nos últimos anos:
Em 2023 X 2022 este segmento da indústria cresceu 91%, saltando de 49.245 unidades para 93.927. Até então este segmento era tolamente dominado pela Toyota com seus 2 modelos híbridos Corolla e Corolla Cross. Tivemos ainda a migração gradativa de outra marca já estabelecida aqui que foi a Chery. A variação logicamente se justifica pelo ano de chegada das marcas chinesas (BYD e GWM)
Já em 2024 x 2023 o crescimento foi muito próximo, 89% de um ano para o outro. Foram 177.358 carros sobre o ano anterior. Segmento ainda dominado por BYD e GMW
Já no primeiro semestre deste ano sobre igual período do ano passado o crescimento foi de “apenas” 44%, com 114.053 unidades versus 79.265 unidades em 2024. É aqui que eu queria chegar, ou seja, aqueles incrementos de quase 100% entre 2022 e 2024 uma hora iam acabar. E parece que essa hora está chegando mais cedo do que o mercado esperava. Detalhe importante: no caso dos veículos 100% elétricos houve uma QUEDA de 2%. Será que a curva virou ?
Outra consideração importante a se fazer é que 1/3 desse volume acumulado da venda de veículos elétricos se concentra no estado de SP. Outros 2 estados relevantes são o Distrito Federal (8%) e RJ (7,5%). Ou seja, esses 3 estados concentram praticamente metade da frota circulante destes tipos de veículos.
Apenas a título de comparação, nos EUA a participação dos veículos eletrificados no total das vendas foi de 19% em 2024. Na Europa foi de 50%, no Japão e na China 46%. O que explica isso ? Em primeiro lugar o maior acesso a este tipo de carro em razão dos preços super competitivos e políticas públicas de incentivo, tais como isenção de impostos. Poderia também acrescentar uma maior conscientização em relação a sustentabilidade e mobilidade urbana
Mas por que essa queda na venda dos veículos elétricos aconteceu tão cedo ? Ao meu ver, a principal explicação é que, como qualquer segmento da indústria, esse também tem o seu tamanho. Penso que a estratégia de precificação dos chineses foi muito acertada: posicionar seus SUVS entre os modelos Top de linha das marcas tradicionais (que representam pouco sobre o total das vendas delas) e abaixo dos carros de entrada das marcas de luxo.
Você consegue migrar o consumidor de segmento de baixo pra cima (aspiracional), mas não de cima para baixo. Dificilmente um cliente vai trocar seu BMW, Volvo, Audi ou Mercedes por um GWM Haval ou BYD Song Pro.
O mesmo aconteceu com seus veículos menores, ou seja, os clientes dos BYD Dolphin e Mini Dolphin, juntamente com GWM Ora 3, estão levando clientes de Hyundai, GM, VW, etc. Aqui as marcas de luxo não competem. Outro ponto importante é a grande procura por parte dos motoristas de aplicativos. Detalhe: estes 2 modelos representaram 41% dos emplacamentos da BYD no 1º semestre de 2025
O estudo Megadealer de Performance de Veículos Usados realizado pela Auto Avaliar (PVU) referente ao mês de junho traz em destaque quais marcas estão sendo mais afetadas pela atuação no mercado nacional das chinesas BYD e GWM. De acordo com os dados levantados Jeep, Volkswagen, Chevrolet e Toyota se revezam no topo das que mais perdem clientes para ambas as montadoras, fabricantes de automóveis híbridos e elétricos.
E tem uma observação que não faz sentido nesse momento: mais marcas chinesas estão chegando ao país apostando principalmente nesse segmento de elétricos! Neste ano já desembarcaram por aqui GAC e Omoda & Jaecoo, com rede de concessionárias operando e comercializando veículos. Outra que já anunciou seu primeiro modelo por aqui foi a Geely, num modelo de negócio bem diferente, pois envolve uma parceria com a Renault. E a própria Geely está trazendo mais uma das suas marcas subsidiárias: a Lync & Co deve chegar ao Brasil em 2026.
Outras chegadas devem acontecer em breve, pois a CAOA Chery deve trazer uma nova marca chinesa a ser produzida na planta de Anápolis chamada Avatr. Outra marca que está desembarcando ainda neste ano é a SAIC, uma das maiores montadoras da China, que deve utilizar a nomenclatura de sua subsidiária inglesa MG.
E já temos a primeira marca chinesa tendo dificuldades no Brasil. A Neta Auto teve uma curta e conturbada operação no Brasil. A empresa, que chegou a prometer 40 pontos de venda em 20 cidades, reduziu sua presença para apenas uma concessionária no Rio de Janeiro, após enfrentar dificuldades e redução de vendas. O site e as redes sociais da marca também saíram do ar, indicando um encerramento das operações no país
Segundo Jorge Moraes, jornalista do UOL, a NETA vendeu somente 47 carros no país e teria um estoque de 700 carros no Porto de Cariacica, no Espírito Santo, onde o lote já foi nacionalizado e aguarda distribuição. De acordo com uma fonte, os carros são 2025/2025, mas existem unidades 2024. Detalhe: a marca está em recuperação judicial na China e com sua produção local parada!
Falando sobre China, reportagem do site Terra de 20/07 deste ano faz um alerta: Concessionárias chinesas estão abarrotadas de carros que ninguém quer; tanto que pediram às marcas que parem de usá-las como depósito
A situação chegou a tal ponto que revendedores de carros chineses pediram às montadoras que parem de vender tantos veículos às concessionárias, pois as intensas guerras de preços estão pressionando o fluxo de caixa, reduzindo a lucratividade e forçando o fechamento de algumas lojas. Será que isso irá se repetir no Brasil?
Agora vamos entrar em outros aspectos muito importantes do negócio de automóveis que poucos executivos das marcas chineses estão levando em consideração (ao meu ver)
O primeiro deles é o pós vendas, que se tornou uma receita muito importante das concessionárias nos últimos anos, especialmente em razão do crescimento gradativo do parque circulante de veículos e do aumento dos prazos de garantia aplicados por quase todas as marcas (na Toyota chega a 10 anos agora). No caso dos elétricos, essa receita praticamente não existe! Não tem motor, nem filtro, nem óleo, etc. Ou seja, estas marcas dependem apenas de seus modelos híbridos para gerarem faturamento nas oficinas.
O segundo ponto é o que chamamos de capilaridade das redes de concessionárias. As marcas chinesas tem aberto muitas lojas, especialmente em grandes cidades, diversas vezes com grupos/representantes diferentes. Vou dar um exemplo aqui de Florianópolis: uma recém chegada marca chinesa abriu 2 pontos de venda na cidade. Até aí tudo bem, uma na região continental e outra na ilha. Porém, cada uma pertence a um grupo/representante! Ou seja, por não ser uma marca de grande volume, isso vai sufocar as operações que em breve estarão reduzindo suas margens e tendo baixos resultados. Ao invés de ter um concessionário na praça vendendo bem, serão 2 grupos dividindo o volume! Não faz sentido e sei que essa estratégia se repete em outras regiões. O que vai acontecer a médio prazo? Várias lojas vão fechar (já vimos isso antes). E o prejuízo fica todo para os concessionários. Na própria China, uma dos maiores concessionários da BYD fechou 20 lojas neste ano por problemas de baixas margens e altos estoques.
Essa mesma marca já começou a enfrentar problemas com sua rede de distribuidores. No início de julho, toda diretoria executiva da ASSOBYD (Associação dos Concessionários BYD) renunciou coletivamente, incluindo nomes de peso do mercado brasileiro. Não sei as razões, mas imagino que sejam dificuldades envolvendo o negócio e que a BYD não deve ter se mostrado muito propensa a resolver.
Falando em BYD, recentemente estive em uma palestra do diretor de Marketing do site Reclame Aqui, em Floripa, com foco no segmento automotivo (foi no congresso da Fenabrave/SC). Ele trouxe um ranking das montadoras com maior número de reclamações na plataforma. Em 2023, ainda não tínhamos nenhuma montadora chinesa no ranking das 10 marcas com mais reclamações. No levantamento de 2024, a BYD já apareceu na sétimo posição! Ou seja, as reclamações estão crescendo junto com o volume de vendas.
O terceiro ponto é a questão dos veículos usados destas marcas chinesas, especialmente os elétricos. Esses modelos estão com baixo giro nas concessionárias e isso gera o que? Avaliações muito baixas na hora que o cliente vai trocar seu carro por um novo. Tenho conversado com vários distribuidores e há modelos onde a avaliação fica até 30% abaixo da FIPE. Ou seja, essa desvalorização vai complicar muito o ciclo de recompra a médio e curto prazo. Isso vale inclusive para veículos elétricos de marcas de luxo como BMW, MINI, Volvo, etc.
Enfim, acredito que o futuro no Brasil seja dos veículos híbridos e não dos elétricos, assim como mostram as vendas até agora. Além de mais acessíveis na compra, têm bons números de consumo de combustível, mercado de usados aquecido e a vantagem de não dependerem dos postos de recarga.
O presidente da Toyota, Akio Toyoda, tem expressado reservas sobre a transição para veículos 100% elétricos, argumentando que eles não são a solução mais eficaz para a redução de emissões globais e que os híbridos, a hidrogênio e os motores a combustão ainda terão um papel importante. Ele chegou a afirmar que um carro elétrico pode poluir tanto quanto três veículos híbridos, considerando a produção e as baterias.
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