“?? um exagero desmedido considerar que o sistema é ???falido???, como também o é dizer que os congestionamentos não aterrorizam.”
Conhecimento de causa
Por consequência da soberba, há quem trate com segurança assuntos sobre os quais não conhece, algo que transparece claramente no artigo intitulado ???A equivocada publicidade do SETUF???, texto este agravado por julgamentos precipitados e passionais, além de sucessivas frases feitas. O autor sugere que seja feita uma pesquisa para mensurar ???as causas da insatisfação dos passageiros???, sem saber que é exatamente isso que foi apresentado no Seminário da última terça-feira (28), amplamente noticiado. Na pesquisa de responsabilidade do Ibope Inteligência constam os aspectos positivos e negativos do sistema, conforme os usuários entrevistados – a não ser que o articulista imagine que sejam necessárias duas pesquisas ??? uma para satisfação e outra para insatisfação.
?? um exagero desmedido considerar que o sistema é ???falido???, como também o é dizer que os congestionamentos não aterrorizam. Analisando a partir do contexto, o sistema é eficiente ??? e os números são irrefutáveis (ou deveriam ser, aos olhos de um jornalista): um ônibus para cada 850 habitantes, a melhor média da região Sul. A média de Curitiba é um ônibus para cada 1.317 habitantes e a de Porto Alegre é um para cada 903. A média de idade da frota de Florianópolis é de seis anos, índice que pode ser comparado a países desenvolvidos. A frota (de 467 veículos) em Florianópolis cresceu 18,8% desde 2003, mesmo com o número de passageiros se mantendo estável. Qualquer observador isento constatará que não há ônibus velhos rodando em Florianópolis. As pessoas saem de casa para trabalhar ou estudar e voltam, diariamente, em segurança. E estamos falando de três milhões de deslocamentos mensais. As empresas do sistema têm as planilhas abertas, por força de lei, são auditadas e controladas por órgãos do poder concedente e mantêm políticas de relacionamento transparentes com os usuários.
Sugiro que os leitores liguem para quaisquer das empresas que operam em nossa cidade, com alguma reclamação e relatem a forma de tratamento e o resultado do eventual problema. Na pesquisa encomendada pelo Setuf os usuários elogiam, com notas de seis a 10, aspectos como: distância entre as paradas, itinerário, quantidade de ônibus, quantidade de paradas, iluminação das paradas e segurança de paradas. 47% consideram nosso transporte público melhor do que de outras cidades da região. De maneira geral, 73% aprovam as condições dos ônibus, avaliando condições mecânicas, limpeza, conforto dos bancos, aparência e conservação e segurança. Os motoristas são atenciosos e educados. No cômputo geral, 77% dos 840 entrevistados (foram ouvidas pessoas que usam o transporte coletivo, no mínimo, cinco vezes semanais) deram notas acima de 5,5 para o sistema. Onde está a falta de conforto que o faria ???cuspir fogo???, conforme o inflamado articulista registrou? E, sobretudo, onde está a falência?
Sobre os congestionamentos – ao contrário do que afirma o articulista, muito aterrorizante – é que pesam as maiores objeções. Quando questionadas sobre os principais problemas, espontaneamente os entrevistados pelo Ibope apontaram a demora entre um ônibus e outro e a falta de regularidade nos horários dos ônibus ??? o que é indissociável do cenário de nosso trânsito, que fundamentou a corruptela ???Filanópolis???. Sinceramente, só quem se desloca de helicóptero pode se dar ao luxo de não reclamar do tráfego da cidade.
Recomendo ao autor que, antes deste julgamento pesado e que revela falta de informação, confira o grau de tutela do poder concedente neste negócio, que determina desde as linhas a serem operadas até o perfil dos ônibus a serem adquiridos e as tarifas praticadas. O sistema opera com prejuízo e os empresários têm acumulado dívidas e se desfazendo de patrimônio para prosseguir em atividade. Ainda que seja um serviço de interesse público, ou ele é lucrativo ou nenhuma empresa exercerá.
O autor do artigo recorre a vocábulos pesados como ???mentira??? e acusa as empresas de ???alimentarem o apartheid social brasileiro???, quando se refere ao executivo (amarelinho) e a diferença de tarifa. Mal sabe ele que a tarifa é uma equação que depende de escala e, portanto, não é possível que um coletivo com menos lugares e menos viagens, tenha a mesma tarifa dos demais. Uma das poucas verdades expressas no texto é ???…que o Setuf sozinho não resolverá o grave problema do transporte coletivo???. Dependemos de uma política ampla e racional de preferência ao transporte coletivo, de sistema intermodal (metrô de superfície, marítimo e terrestre), ciclovias e restrições mais contundentes ao uso do carro, como ocorre em muitas metrópoles mundiais, nas quais o problema foi mitigado, mas não solucionado. Mas, é claro, precisamos de muito debate, todavia permeado por lucidez, sem ideologizar a questão e sem demagogias.
Carlos Stegemann, 27 anos de Florianópolis e assessor, com orgulho, do Setuf.
Florianópolis, 30 de abril de 2009.
