“Provocar o riso na plateia mostra uma identificação do público com o que estou fazendo em cena. Por isso, muitas pessoas me falam que quando assistem à Dona Bilica, lembram-se da mãe, da tia, de pessoas próximas a elas”, observa a atriz Vanderléia Will.
Em entrevista para a jornalista Letícia Bombo, titular da Coluna Entretenimento, Vanderléia conta que decidiu fazer teatro depois do curso com a Carmen Fossari, na UFSC, e que desde então, sabia que sua escolha seria de resistência. Foram muitos os caminhos trilhados e, desde os 22 anos, divide aprendizados e conquistas com aquela que traz consigo a representação de toda uma cultura de todos que chegaram nesta ilha há muitos anos, respeitando, porém, as mudanças atuais.
Confira a conversa com a atriz:
Como é se apresentar com a mesma personagem durante 30 anos? O que mudou de lá pra cá, o que você já aprendeu com a Dona Bilica?
Apresentar a personagem há 30 anos é um aprendizado muito grande, porque eu olho para ela e enxergo tudo o que me ensinou e que eu ensinei a ela, porque para dar vida à personagem compartilho com ela como eu me relaciono com o mundo ao meu redor e, a partir daí, consigo transmitir a mensagem dela. A menina que eu era quando comecei com a Dona Bilica, aos 22 anos, não é essa mesma mulher que eu sou hoje com 52 anos. Desde então, tudo se transformou.
Há 30 anos, por exemplo, não tinha telefone celular como ele existe hoje. Divulgávamos as peças colando cartazes, a mídia impressa era a mais importante, porque todos liam jornal. Depois veio o celular com mais recursos, a internet com um alcance maior. Ao mesmo tempo, a personagem começa a evoluir de forma mais abrangente, absorvendo todo o impacto dessas mudanças de tantos anos, para esse trabalho que reverencia uma identidade de nativos ilhéus.
Com o passar dos anos, eu enquanto pesquisadora e atriz, entendo que esse trabalho é muito grande e que, por isso mesmo, tenho que tomar cuidado para que este ser que eu quero enaltecer, não vire pejorativo no palco.
Comecei a ir a fundo na pesquisa da comédia, para entender o que é a comédia, o que é rir, o que o riso provoca no outro? Quando a pessoa ri de mim, ela se identifica com o que estou fazendo, tanto que as pessoas começam a falar que o que eu faço lembra a mãe, a tia, então preciso sempre cuidar para não rir de quem, muitas vezes, é invisibilizado.
A Bilica é uma senhora que tem muitos filhos e a vida toda fez o trabalho doméstico. Então, ela entende a importância de respeitar o próximo e valorizar a nossa cultura que é açoriana, indígena, negra, cabocla e de todos que vieram antes de nós e chegaram nesta ilha há muitos anos.
É uma ilha de muitos mistérios e encantos e por isso quero comemorar esses 30 anos da personagem que tanta alegria me traz. As pessoas podem levar lencinho, porque vão rir, mas vão chorar bastante também!
Quais os maiores desafios de viver da arte aqui em Santa Catarina/Florianópolis?
Eu comecei a fazer teatro com 18 anos na UFSC, no curso permanente de teatro da Carmen Fossari, e foi a partir do curso que eu decidi seguir essa carreira. Neste momento, eu sabia dos riscos que estava correndo, mas o ímpeto e a força de acreditar que ia dar certo foram o que me fizeram resistir todos estes anos. Você sabe que vai levar muito não, até se encontrar de fato, como em todas as profissões, na realidade.
No processo de investigação do meu estilo de trabalho, acabei me identificando com a comédia física, com a palhaçaria. Esse tipo de entretenimento é diferenciado, porque ele salta aos olhos do público, por ser diferente do teatro que não é autoral. O teatro autoral exige muito do corpo, muitos ensaios e muita pesquisa. E isso me ajudou a me manter financeiramente, porque as pessoas querem pagar para assistir a um trabalho diferente daquele que estão acostumadas. Também expandi minha atuação, sugerindo peças para empresas, escolas, fazendo festas de crianças.
Quando você opta por uma linguagem específica, como foi com o “Desajustada”, espetáculo que também estreou esse ano, falamos com um público muito segmentado, mas sobre temas universais que tocam todos os seres humanos. A violência contra as mulheres, a falta de amor entre as pessoas. Acredito que a nossa profissão te obriga a produzir algo que seja fácil de vender, mas que te ajude a conseguir uma certa estabilidade financeira, para poder conduzir outros projetos.
Na sua opinião, arte e entretenimento andam juntos?
Sim. A arte, de certa maneira, vem como um respiro. Entra nesse lugar do ócio, onde as pessoas precisam se alimentar de arte para poder viver. As pessoas não vivem sem a arte, às vezes, elas consomem cotidianamente e não percebem isso. Seja ouvindo uma música no Spotify, assistindo a uma novela na TV, a um filme no cinema. É uma forma de acalento e até um remédio para as pessoas que estão sufocadas nesse sistema casa-trabalho-casa.
Os ciclos da construção da cultura produzida pelos artistas em Florianópolis está se modificando em virtude de tudo isso que está acontecendo. Olha quanta coisa mudou de 10 anos para cá, como os espaços mudaram, e a importância que é publicar as informações em veículos essencialmente digitais. Atualmente entendemos que quanto mais segmentada for a divulgação, mais conseguimos atingir nosso público.
O que o público pode esperar do Dona Bilica Naquele Tempo?
Será um prazer enorme receber as pessoas que gostam de teatro, da ilha em si, das histórias da cidade, da cultura dos manezinhos e em especial de um trabalho de qualidade e primoroso que vai atingir boas gargalhadas e trazer a emoção de se ver no palco, se reconhecer, ver seu tio, sua avó e o quão a vida se faz importante na presença. Ir ao teatro é bom! Viva o teatro, a cultura e os 30 anos da Dona Bilica que, apesar de todo o entrevero, como ela mesma diz, ela resiste, sendo uma personagem em transformação o tempo todo. Afinal, ela agrada pessoas de 0 a 80 anos e é essa a empatia que vai estar no palco do CIC dia 15 para as pessoas se emocionarem e comemorarem junto comigo e com a Bilica.
O trabalho de pesquisa de Vanderléia – que a ajudou a desenvolver a Dona Bilica – também virou um documentário, dirigido por Renato Turnes, que pode ser assistido a seguir:
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