Publicidade
ARTIGO | Crise de mão de obra no mercado pós-pandemia pode travar o crescimento das startups no Brasil
23 de Novembro de 2021

ARTIGO | Crise de mão de obra no mercado pós-pandemia pode travar o crescimento das startups no Brasil

Publicidade
Twitter Whatsapp Facebook

Por Fabiano Goldoni, co-fundador da Alright Adtech Company*

 

Publicidade

“Eu me demito!”. Mais de 4 milhões de americanos disseram essa frase em setembro deste ano. É o número mais alto dos últimos meses, que já vinham marcando recordes atrás de recordes de demissões. Esse fenômeno é tão marcante nesta volta ao “novo normal”, que já tem até um nome: The Great Resignation. Suponho que seja uma alusão ao The Great Depression dos anos 1930’s onde milhões de americanos perderam o emprego, mas não por vontade própria.

 

 

 

Segundo o U.S. Bureau of Labor Statistics, a taxa de demissões é maior entre os trabalhadores entre 30 e 45 e o turnover (troca de emprego) é maior entre os jovens. Este artigo da Harvard Business Review mostra que os segmentos mais afetados pelas demissões são o de tecnologia e saúde. Chama atenção que são dois setores cuja demanda aumentou muito por conta da pandemia e da digitalização da economia. 

Lá no início da pandemia, muitos alertaram que a humanidade iria rever seus hábitos e valores. Nem todos levararm isso muito a sério. Ou se prepararam adequadamente para entender as mudanças que estavam acontecendo. Esta reportagem da VOX, pontua essa revisão de valores dos trabalhadores e a falta de noção das empresas em relação à mudança do cenário. Outro fator é o burnout que está se tornando uma pandemia dentro da pandemia. Ainda assim, não é possível dizer com certeza que a onda de demissões é um efeito causado unicamente por essa mudança de valores ou pelo burnout. Provavelmente, outros fatores combinados devem ser levados em consideração. Mas tudo indica que, de modo geral, faltou empatia das lideranças para o momento. Não só nos EUA. Essa crise é global.

 

 

Brasil: crise de profissionais em meio ao desemprego recorde

O Brasil vive um momento de desemprego e inflação que obriga muitos a aceitarem a primeira oportunidade que aparecer pela frente. Logo, podemos dizer que não corremos o risco de perder talentos, certo? Na verdade, não é tão simples assim. Não é seguro afirmar que não corremos o risco de sofrer algo semelhante ao Great Resignation por aqui. Os efeitos das crises e movimentos globais têm efeitos diferentes em cada país. O que vemos no Brasil é algo que desafia a lógica: uma escassez de talentos de nível médio e uma inflação salarial dessa faixa de mão de obra. Gestores e analistas em áreas como tecnologia, marketing, atenção ao cliente, recursos humanos, vendas e outras áreas de suporte estão em falta no mercado. Em todos os fóruns que frequento com empreendedores, a reclamação é a mesma: falta de profissionais qualificados. E posso garantir que os salários oferecidos são até acima da média. Essa insatisfação também tem reflexo do lado dos profissionais que são recrutados por times igualmente carentes de capacitação e experiência, o que torna o processo mais ineficiente ainda. 

A crise de profissionais de tecnologia é global. Com isso, desenvolvedores brasileiros estão ganhando em dólares e euros para prestar serviços para empresas estrangeiras. Já nas outras áreas a crise parece ser gerada pelo aumento de oferta em novas empresas. O venture capital vem injetando dinheiro no mercado de inovação e gerando novas oportunidades. Conforme descrevi neste outro texto, o Brasil nunca viu tanto investimento em novas empresas como neste último ano. Cada startup que recebe uma rodada de investimento, corre para o Linkedin para publicar dezenas de vagas para realizar suas teses de investimento. Quando digo dezenas, às vezes, podem ser centenas, como foi o caso do Nubank, iFood e outros unicórnios mais recentes. A maior parte dessas vagas buscam, e pagam, os melhores talentos do mercado. E aí começa uma gigantesca dança das cadeiras que vivemos hoje no Brasil.

 

 

Darwinismo ou falta de investimento em capacitação?

A primeira coisa que eu penso quando vejo a cena de empresas se engalfinhando por talentos é a imagem de Darwin com uma frase mais ou menos assim: “As empresas mais aptas ficam com os melhores talentos para sobreviverem.”. Por um lado, sim, acredito que a teoria evolucionista atua para selecionar as empresas com lideranças mais aptas. Mas também vejo um fator externo que tem grande força: o fluxo de investimento em novas empresas gera empregos que antes não existiam. Ao mesmo tempo, vejo grandes empresas com dificuldade de contratar o mesmo tipo de profissional. Efeito do “roubo” de talentos pelas startups? Pode ser. Mas a verdade é que está cada vez mais complicado contratar e manter talentos. 

Sobre manter talentos, eu acredito que envolve diversas habilidades de liderança que descrevi em artigos como, a capacidade de promover autonomia, motivar equipes, exercer liderança com empatia, promover equilíbrio e confiança, incentivar as lideranças, compreender as mudanças do trabalho remoto (e repactuar as relações), além de concretizar mudanças culturais deste momento da humanidade como a promoção do equilíbrio de gênero e igualdade racial nas posições de liderança. Resumindo: manter talentos é compreender o momento da força de trabalho como seres humanos e não somente como peças de uma engrenagem. 

Os profissionais brasileiros, assim como seus pares americanos que estão se demitindo, também estão revendo seus valores na hora de aceitar um emprego. Segundo pesquisa da consultoria NTT DATA, quase a totalidade dos profissionais esperam modelos diferentes de trabalho. As lideranças que seguirem com o modelo mental de gestão pré-pandemia perderão seus talentos para competidores mais adaptados. 

Sobre gerar novos talentos, o problema não é só de adaptação das empresas. Envolve investimento em educação em todos os níveis de escolarização. E também em conhecimentos e habilidades específicas. As universidades vivem um momento de transformação para encontrar adequação à economia digital. Novos entrantes no segmento de educação estão oferecendo cursos técnicos para entregar ao mercado profissionais mais qualificados. Mas estas iniciativas ainda são para uma classe de privilegiados que têm condições de pagar e equipamento para estudar a distância. 

Em resumo, quem está empregado não está feliz. E quem não tem emprego não consegue se qualificar. Isso representa uma grande trava para o crescimento de toda economia. 

 

 

As escolas corporativas não resolvem o problema

Uma das soluções que se multiplicaram pelas empresas, tanto startups como grandes corporações, foram as escolas corporativas. Muitas vezes, com o objetivo de transmitir os valores e visão das empresas, estas unidades de ensino também passaram a educar sobre conhecimentos básicos das atividades-chave do negócio. Não só para jovens aprendizes, mas para outros nem tão jovens assim que não possuem o nível de qualificação exigido pela empresa. 

O investimento em educação por parte das empresas é uma ótima ferramenta para reduzir a saída de talentos e promover o crescimento de dentro para fora. Só que isso ainda não é suficiente. O desafio é enorme tendo em vista a taxa de crescimento do volume de investimento em inovação. A demanda por profissionais qualificados tende a seguir aumentando enquanto batemos recorde de desemprego. O Brasil precisa de mais investimento em educação para transformar essa massa de desempregados em talentos da nova economia. Escolas como a Perestroika, Share, Conquer, Alura entre outras estão cobrindo esta faixa educacional técnica. Mas acredito que ainda falta uma política de governo para fazer esse conteúdo chegar aos milhões de desempregados que temos hoje. 

 

*Fabiano Goldoni, co-fundador da Alright Adtech Company, empresa que fornece tecnologia e serviços para monetizar as editoras no ecossistema de mídia programática, é especialista em comunicação multiplataforma com diversos prêmios conquistados em publicidade, branding e conteúdo para TV; empreendedor de negócios em ambientes digitais; palestrante em eventos regionais e nacionais relacionados à mídia e tecnologia.

Publicidade
Publicidade