O vizinho descuidado emporcalhou o elevador do condomínio com o líquido fedido que vazou do saco de lixo. Como deu as costas para a sujeira e seguiu adiante, coube a outro morador avisar ao porteiro, bater fotos, limpar a imundície e fazer a denúncia bombástica no grupo de whatsapp do prédio:
“Há um sugismundo entre nós!”
Pronto: estava iluminado o palco para a exibição das incontáveis qualidades dos membros do grupo. Um desfile que começou com aceitável indignação, mas que em pouco tempo se tornou insuportável.
Convenhamos: não é a pandemia, nem as discordâncias políticas, muito menos a rivalidade no futebol ou a preferência por esse ou aquele filme do Stallone que tornam difícil nos aturarmos uns aos outros.
Duro mesmo é suportar os novos virtuosos, um tipinho que prolifera em ambientes virtuais compartilhados.
O poço de virtudes é a versão moderna do novo rico. Esse sim um personagem mais simpático e até folclórico. Sujeito que amealhou uns caraminguás de forma muito rápida e ainda não conseguiu acostumar com a abundância, o “noveau riche” passa 12 dias em Miami – aonde mais? – e volta com dificuldade para lembrar certos termos em português. Também usa e abusa da exposição de tudo o que conseguiu comprar a cada dia e tem uma afetação pouco genuína. No mais das vezes desperta – ao menos em mim – uma profunda inveja e nada mais.
Já o novo virtuoso é diferente. Ele tem orgulho e necessidade de esfregar na cara de todos as suas incontáveis qualidades. Não é que seja apenas imune ao erro. Ele é mais, muito mais, que isso. Atento a qualquer deslize, rapidinho se transforma em pregador, guardião e defensor dos bons costumes. E pior: o sujeito tem a propensão a se entusiasmar com a própria voz e não se dá por satisfeito enquanto não esculhamba de forma inequívoca qualquer um incapaz de alcançar seu status moral.
Na máquina de produzir intolerantes em que se transformaram redes sociais e grupos de whattsap, o novo virtuoso é um personagem que veio para ficar e se popularizar.
Deus nos proteja de tantas qualidades!
