
Muito grato por contribuir com nossa coluna de carreira. Sua trajetória começou com experiências simultâneas em docência, pesquisa acadêmica e atuação em planejamento no setor energético. Olhando para o início da carreira, qual decisão tomada naquele período considera a mais determinante para impactar os demais passos de sua atuação que viriam no setor de energia?
No início da minha carreira, acredito que a decisão mais relevante foi buscar uma formação diversificada. Ao mesmo tempo em que desenvolvia minhas atividades acadêmicas no mestrado e, posteriormente, no doutorado, também lecionava em universidades e participava de projetos de consultoria em um setor elétrico que passava por profundas transformações com o processo de privatização e abertura de mercado.
Essa combinação entre academia, ensino e prática profissional permitiu que eu construísse uma visão ampla do setor desde muito cedo. Olhando em retrospectiva, foi essa diversidade de experiências que me deu a base necessária para transitar, ao longo da carreira, por diferentes áreas do mercado de energia, sempre conectando conhecimento técnico, visão estratégica e compreensão dos desafios reais enfrentados pelas empresas.
Você acumulou quase 15 anos no grupo ENGIE, passando por funções como Especialista em Regulação e Mercado, Coordenadora de Risco e Mercado para a América Latina e Coordenadora de Planejamento Comercial. Quais foram os aprendizados mais relevantes dessa longa trajetória? E como eles influenciaram suas escolhas profissionais posteriores?
Ao longo dos quase 15 anos em que atuei na ENGIE, um dos maiores aprendizados foi acompanhar a transformação da própria companhia. Tive a oportunidade de vivenciar a evolução de uma organização que, ao longo do tempo, passou de uma cultura predominantemente local para uma atuação cada vez mais internacional, o que exigiu adaptação constante, capacidade de trabalhar em ambientes multiculturais e compreensão de diferentes formas de gestão.
Outro aprendizado importante foi entender, na prática, como funciona uma grande corporação. Trabalhar simultaneamente em múltiplos projetos, interagir com profissionais de perfis muito diversos e navegar por processos e estruturas organizacionais complexas foram experiências extremamente enriquecedoras.
Esse período me mostrou que não existe um modelo organizacional perfeito: empresas grandes oferecem robustez, escala e recursos, enquanto estruturas mais enxutas proporcionam agilidade, proximidade com as decisões e maior flexibilidade. Compreender os benefícios e limitações de ambos os ambientes foi fundamental para as escolhas profissionais que fiz posteriormente.
Após duas décadas de atuação como executiva e C-level em multinacionais, você fundou a FSET Consultoria em Energia em 2021. O que motivou essa mudança para o empreendedorismo? E quais diferenças mais chamaram sua atenção ao passar da estrutura corporativa para uma consultoria própria?
A mudança para o empreendedorismo não foi uma decisão abrupta, mas a concretização de um projeto de vida construído ao longo de décadas. Antes mesmo de ingressar na ENGIE, enquanto cursava o mestrado e o doutorado, eu já atuava em projetos de consultoria e tinha grande afinidade com essa dinâmica de trabalho. Desde o início da minha trajetória profissional, sabia que em algum momento teria minha própria consultoria. Foram quase vinte anos acumulando experiência e maturidade profissional até que esse objetivo se tornasse realidade.
A pandemia funcionou como um catalisador desse processo. Ela trouxe reflexões importantes sobre carreira e qualidade de vida, além de acelerar a aceitação do trabalho remoto, ampliando as possibilidades de atuação junto a clientes de diferentes regiões. Na prática, ela apenas antecipou uma decisão que já vinha sendo amadurecida há muitos anos.
A principal diferença em relação ao ambiente corporativo foi a amplitude das responsabilidades. Em uma grande empresa, existem estruturas de suporte para diversas funções. No empreendedorismo, praticamente tudo depende de você, desde as decisões estratégicas até aspectos operacionais do negócio. É um desafio que exige resiliência, disciplina e disposição para aprender continuamente. Para mim, porém, essa transição representou muito mais do que uma mudança de carreira: foi a realização de um propósito construído ao longo de toda a minha vida profissional.
No mesmo ano em que fundou a consultoria, você também se tornou cofundadora da Head Energia, uma escola voltada à formação de profissionais que atuam com mercado e regulação de energia. Como surgiu a decisão de investir em uma iniciativa educacional paralelamente à consultoria?
A criação da Head Energia foi, em certa medida, uma surpresa, mas também uma consequência natural da minha trajetória. A educação sempre esteve presente na minha vida profissional. Antes de atuar como executiva no setor elétrico, fui professora universitária e sempre gostei de compartilhar conhecimento, formar pessoas e contribuir para o desenvolvimento de novos profissionais.
Quando fundei a FSET, minha sócia, Nathália, decidiu embarcar comigo nesse desafio. Em determinado momento, ela manifestou o desejo de criar um curso voltado para a área de regulação do setor elétrico. Apoiei a iniciativa e participei como professora. O sucesso da experiência nos mostrou que existia uma demanda muito maior por capacitação prática e especializada do que imaginávamos inicialmente.
Foi então que surgiu a ideia de transformar um curso em uma escola. A proposta era criar um ambiente de formação contínua, capaz de aproximar o conhecimento técnico da realidade do mercado. Assim nasceu a Head Energia. O que começou como uma iniciativa relativamente simples acabou se transformando em um projeto muito maior, que hoje contribui para a capacitação e o desenvolvimento de profissionais de diferentes segmentos do setor elétrico.
Em 2025, você passou a integrar o Corpo de Árbitros do Centro de Arbitragem e Mediação da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil). Como surgiu essa oportunidade? O que despertou seu interesse por essa área e de que forma sua experiência acumulada em regulação, contratos e disputas do setor elétrico contribui para essa atuação?
A oportunidade surgiu inicialmente com o convite para integrar o corpo de árbitros do CBMA e, posteriormente, da Amcham Brasil, em um momento em que as disputas envolvendo contratos e questões regulatórias no setor elétrico passaram a ganhar cada vez mais relevância. Para quem atua há muitos anos na interseção entre regulação, mercado e contratos, o interesse pela arbitragem acaba surgindo de forma bastante natural.
Ao longo da minha trajetória, participei de inúmeras discussões técnicas e contratuais, além de atuar em projetos que exigiam uma compreensão profunda dos impactos regulatórios e econômicos das decisões empresariais. Essa experiência me permitiu desenvolver uma visão bastante abrangente sobre os temas que frequentemente aparecem em disputas do setor.
Embora eu tenha grande interesse pela arbitragem e considere essa experiência extremamente enriquecedora, percebi que minha contribuição mais natural está no papel de especialista técnica. Gosto especialmente de apoiar as partes e os tribunais arbitrais na compreensão de questões complexas do setor elétrico, colocando à disposição a experiência acumulada ao longo dessas décadas de atuação profissional.
Ao longo da trajetória, você conciliou atividades executivas, consultoria, docência, participação em conselhos, arbitragem e produção de publicações técnicas. Você identifica algum fio condutor entre estas diversas áreas de atuação? Até que ponto, o fato de você ter buscado doutorado em engenharia elétrica, ainda numa fase inicial da carreira, lhe permitiu incorporar novas frentes de atuação sem se afastar do foco no setor de energia?
O fio condutor sempre foi a curiosidade intelectual. Desde o início da minha carreira, procurei compreender o setor elétrico em toda a sua amplitude e complexidade. Para responder às grandes questões que me interessavam, percebi que não bastava observá-las por uma única perspectiva. Por isso, busquei experiências complementares: atuei na academia, trabalhei dentro de empresas, participei de conselhos, desenvolvi projetos de consultoria, escrevi artigos e me envolvi em discussões regulatórias. Cada uma dessas experiências me permitiu enxergar uma nova dimensão do mesmo setor.
Nesse processo, o doutorado e a academia tiveram um papel fundamental. Mais do que aprofundar meu conhecimento técnico, me ensinaram um método de trabalho baseado em rigor analítico, investigação estruturada, ética e busca pela excelência. Acredito que essa formação me deu a base necessária para incorporar novas frentes de atuação ao longo da carreira sem perder o foco e a coerência da minha trajetória profissional.
Diante da sua larga experiência na área de planejamento no setor energético, qual seria sua mensagem final para esta entrevista para quem está no início de carreira ou em transição e considera esta área de atuação?
Minha principal mensagem é que ninguém cuidará da sua carreira melhor do que você mesmo. Independentemente da fase profissional em que esteja, é fundamental assumir o protagonismo das suas escolhas, refletir sobre seus objetivos e buscar continuamente o desenvolvimento das competências necessárias para alcançá-los. Mentores, cursos e programas de desenvolvimento podem ser excelentes aliados nesse processo, mas a responsabilidade pelas decisões continua sendo sua.
Também recomendo que as pessoas conheçam profundamente os ambientes onde desejam atuar. Antes de aceitar uma oportunidade, procure entender o negócio da empresa, seus valores, sua reputação e a forma como ela trata seus profissionais. Muitas vezes, a qualidade da experiência profissional está tão relacionada à cultura organizacional quanto às atribuições do cargo em si.
Por fim, mantenha a curiosidade intelectual e a disposição para aprender ao longo de toda a carreira. O setor de energia está em constante transformação, e aqueles que permanecem relevantes são justamente os profissionais que conseguem evoluir junto com ele. Carreiras sólidas não são construídas por acaso; elas são resultados de escolhas conscientes e consistência ao longo do tempo.
Lições de carreira
Da pesquisa acadêmica ao empreendedorismo, da atuação executiva à arbitragem, a trajetória de Fabiola Sena revela como a curiosidade intelectual pode abrir caminhos e conectar diferentes oportunidades profissionais. Sua história reforça que o aprendizado contínuo e a disposição para explorar novas perspectivas permanecem entre os ativos mais importantes para quem deseja construir uma carreira relevante em um mundo em constante transformação.
Grato pela leitura. Nos encontramos no próximo artigo!
Abraço, Jonny
