
Natale Peter em cena no espetáculo “Aquelas que Moram Nela” | Crédito: Ruth Rodrigues
Em novembro, a atriz Natele Peter divulgou, presencialmente, o projeto de circulação “Roda-Roda: Teatro na Escola” do espetáculo “Aquelas que Moram Nela”, que foi apresentado para escolas públicas de 10 cidades catarinenses. O monólogo carrega uma mensagem de amor e respeito por si e pelo outro e fala, acima de tudo, de forma simples e poética, sobre a importância de cada indivíduo honrar a sua ancestralidade.
Natele conversou com a coluna de entretenimento sobre a circulação do projeto por Santa Catarina e contou sobre a reação de crianças e adultos ao entrar em contato com uma história de identificação e descobertas. A atriz reforçou, ainda, que apesar de essa turnê ter acontecido em Novembro, um mês marcante devido ao Dia da Consciência Negra, o espetáculo sugere a conscientização para além de uma data específica.
A peça, dirigida por Natália Curioletti, é indicada para crianças com idade a partir de seis anos e fala sobre uma menina que se muda para uma nova cidade, longe da avó com quem ela passava as tardes. Quando chega na casa nova e vai abrir as caixas, encontra brinquedos feitos pela avó e, a partir de memórias, revive as histórias que ouviu. Ela percebe que os ensinamentos contidos nas histórias vão ajudá-la nessa nova fase.
Leia a conversa com Natele e entenda um pouco mais sobre o espetáculo que traz arte, poesia e respeito ao próximo.
Natele, conta pra gente, por favor, como foi que surgiu a ideia desse projeto?
Eu sou atriz e pesquisadora de teatro infantil, principalmente. Então, fazia outros espetáculos e os apresentava em escolas. Os espetáculos eram sobre outros assuntos, mas toda vez que entrava em cena, os olhos das crianças negras brilhavam, elas vinham falar comigo depois, e eu percebia que era uma questão de representatividade mesmo. Foi a partir dessa reação que surgiu a vontade de fazer alguma coisa relacionada à representatividade.
Teve um episódio, inclusive, em que eu estava dando uma aula de educação financeira e as crianças que estavam assistindo eram da África. Durante a aula, percebi que elas tinham dificuldade de me entender, mas quando eu falei que sonhava em ir para a África, percebi que elas entenderam apenas a palavra África. Então, nesse momento, eu e a diretora do “Aquelas…”, a Natalia Curioletti, que estava comigo em cena no momento, nos olhamos e entendemos que realmente deveríamos criar algo.
Demos início à pesquisa, que começou pelo tecido Bogolan, natural da República do Mali, país da África, que é produzido pelos homens e ganha desenhos feitos por mulheres. A partir daí, fomos percebendo que a linha do espetáculo era a do resgate à ancestralidade mesmo. Então, a gente trouxe para o espetáculo a criança que precisa mudar de vida e fica lembrando da avó e seus ensinamentos.
E como tem sido a recepção do público?
Nas apresentações ninguém nunca questionou o gênero das personagens. Para as crianças o que “pega” emocionalmente é a questão das mudanças que precisam fazer. Em geral, as crianças não são consultadas ou não têm muitas explicações sobre a mudança que a vida delas vai sofrer quando a família precisa se mudar. Mas, elas acabam tendo que deixar a vida que construíram, do jeito delas, para trás.
Percebi que as crianças são afetadas em dois lugares: na questão das mudanças mesmo e na lembrança da avó, das pessoas que vieram antes delas. É importante observar que o espetáculo acessa as crianças negras de uma forma mais profunda, porque elas se sentem representadas na história. É um corpo negro falando sobre outro corpo negro. Assim, para as crianças negras – e outros espectadores negros também – tem uma representatividade importante.
O espetáculo foi feito para as crianças, mas acaba tocando pessoas de outras idades. Como é a reação das pessoas?
Sim! Recebo muitos retornos de outras pessoas mais velhas também, e é curioso porque nos adultos a peça acessa outros lugares; muitas vezes, quem é mais velho, lembra da infância. Costumo dizer que o teatro acessa um lugar poético nas pessoas. Alguns adultos relataram que se mudaram muitas vezes e nunca entenderam como esse movimento realmente mexe na estrutura das crianças. Afinal, os adultos da família decidem se mudar e a criança apenas tem que aceitar, porque ela não tem um lugar de escolha.
O público adulto da peça acaba se questionando, também, sobre o que a criança está sentindo ou querendo.
E como é apresentar um espetáculo no Mês da Consciência Negra em Santa Catarina?
É muito importante, primeiro, destacar que o projeto “Roda-Roda” trabalha, também, na conscientização do contato com o teatro em si, que muitas vezes não chega a cidades mais afastadas que não têm tanto acesso ao teatro como os maiores centros. Esse projeto faz o espetáculo teatral circular nesses locais.
O espetáculo, em si, é muito importante para gente entender a nossa sociedade atual, principalmente nos últimos anos, quando aumentou muito o racismo no Brasil. Novembro é uma data marcante, mas o espetáculo traz essa conscientização para além de uma data específica.
Em Nova Veneza, São Pedro de Alcântara, Brusque e Balneário Barra do Sul rolou uma conversa com o público depois da apresentação, para falar sobre a profissão ator/atriz. Qual é sua experiência com essas conversas? O que as crianças pensam sobre essa profissão?
Essa roda de conversa aconteceu com algumas turmas específicas dentro da escola, o Eder, da equipe, faz a mediação dela, enquanto eu vou respondendo, e as crianças perguntam muitas coisas.
A pergunta que mais sai é “isso tudo é de verdade?”. Eu respondo que sim, quando estamos apresentando o espetáculo tudo é de verdade. Acabo entrando nessa ideia deles e perguntando se eles já brincaram de imitar outras pessoas, outros bichos… elas acabam entendendo que é verdade enquanto a brincadeira durar, como o teatro. Eles perguntam sobre os desenhos, se minha avó faz mesmo bolo de milho…
O cenário, feito pelo Felipe Coff, é todo cheio de risquinhos e eles querem saber o que significam aqueles risquinhos, eles ficam chocados com detalhes e se surpreendem com as respostas, às vezes.
A apresentação e a conversa mudam alguma coisa dentro da criança, principalmente nos dias de hoje, em que as crianças estão muito conectadas ao mundo virtual. Apenas o fato de elas pararem para assistir um espetáculo do início ao fim, já é um momento muito rico, de atenção e novas trocas e referências. Sinto que a fala da avó, durante o espetáculo: “vou te ensinar outras histórias”, faz muito sentido para essas crianças após a apresentação.
Aproveitando o gancho, é possível viver de arte no Brasil? Como?
É suado! O país está passando por um processo muito difícil politicamente falando, de políticas públicas que não pensam em cultura, então não tem sido fácil, mas ainda há uma esperança de fazer acontecer porque existem pessoas e empresas que ainda acreditam no teatro e na cultura.
Quais serão os próximos passos depois dessa turnê?
Então, o “Roda-Roda: Teatro na Escola” é o projeto de circulação do “Aquelas que moram nela”. Foram 32 apresentações do espetáculo, sendo que duas foram abertas ao público com roda de conversa ao final. O projeto acabou, mas a peça continua. Afinal, ela foi premiada por editais de cultura, tanto municipal quanto estadual, e vai circular em comunidades quilombolas, também por ter ganhado incentivo de edital de cultura.
Vale destacar que o espetáculo é acessível em Libras e que o projeto é patrocinado pela Lei de Incentivo à Cultura e tem o apoio da SCGás.
É possível assistir ao espetáculo por aqui:
FICHA TÉCNICA “Aquelas que Moram Nela”:
Atuação e Concepção: Natele Peter
Direção Geral e Dramaturgia: Natália Curioletti
Cenário: Felipe Coff
Sonoplastia: Jowe Schurt
Voz em off: Nubia Lopes
Produção do Espetáculo e Operação de Sonoplastia: Taly Lima
Envie sugestões de entrevista para: [email protected].