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O Engenheiro que virou suco
13 de Dezembro de 2011

O Engenheiro que virou suco

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*por Daniel Argolo

Muito embora venha construindo meu histórico profissional no Paraná, nasci e me criei em São Paulo. Lá, lá mesmo onde tudo acontece, na Camundó, travessa da Av. Bandeirantes, bem atrás da conturbada pista de Congonhas.

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Como todo garoto de cidade grande, passei a ter que me virar sozinho. Pegar o busão, depois o metrô, e concluir a pernada até as escadarias do prédio da Gazeta rumo ao Objetivo da Paulista, faziam parte do meu dia-a-dia. Vez ou outra sobrava uma grana pra comer um número 5, na primeira loja Mc Donalds implantada no Brasil, e tempo para olhar o que acontecia ao meu redor. Certa vez, em uma dessas fugas escolares, passei em frente a uma lanchonete cujo nome era: O engenheiro que virou suco. Minha irmã, dois anos mais velha e algumas fugas a mais acumuladas, fez o comentário: e o diploma está pendurado na parede, bem atrás do caixa.

Hoje em dia tenho ido muito a São Paulo, mas naquelas correrias de vai pela manhã e volta no final do dia. Muitas vezes perto da Paulista, ou até mesmo nela, mas sempre carregado de pranchas num braço, máquina no outro, enfim: aquele circo que todo publicitário sabe e precisa armar de vez em quando. Por conta dessa brevidade de tempo, nunca mais tive notícias do engenheiro que virou suco. O fato é que esse estabelecimento me marcou.
Outro dia em uma existencial reflexão sobre a profissão, perdi o sono e lembrei desse tempo. É, esse papo de que toda vivência contribuí para a formação da personalidade profissional é pura verdade. Afinal, aqui estou eu impactado por uma cena empoeirada e arquivada em algum lugar do meu córtex. 
Bom, alimentando um pouco mais a minha retrospectiva 88, estabeleceu-se a insônia. Muito por conta da constatação de que nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Precisamos nos adaptar. O mercado mudou, evoluiu e quem pode se segura. Lulu Santos que o diga, a verdadeira metamorfose ambulante, que vem faturando até os dias de hoje.

As grandes novidades tecnológicas, as novas mídias e o novo comportamento do consumidor, têm nos deixado com a sensação de que estamos esvaziados de informação e conhecimento. A pressão é tamanha, que muitas vezes nos esquecemos de que também somos consumidores. David Ogilvy já dizia: não subestime o consumidor, ele é a sua esposa. Eu diria: não superestime o consumidor, ele não mudou tanto assim. 
A Internet vem mudando a forma dos consumidores trafegarem o consumo, mas não determinou a mudança de hábitos regidos pela natureza humana. Ainda gostamos de ser bem atendidos, fazer test drives, obter informações, expressar opiniões, enfim: seres relacionais.

Recente pesquisa realizada pela Carnegie-Knight Task Force, declarou que os jornais perderam espaço como fonte de informação nas escolas americanas. O estudo que ouviu 1.262 professores indica que 57% deles recorrem com freqüência a fontes de informação na web, 31% usam as redes de TV e 28% os jornais diários. Quando questionados sobre o papel dos jornais como fonte de informação para os alunos, 75% dos professores colocaram os diários impressos em último lugar. "Os alunos se relacionam com os jornais, tanto quanto se relacionam com discos de vinil" – comparou um dos professores entrevistados.

Esse fato não diz que as pessoas deixaram de consumir conteúdo jornalístico, e sim, que o news in paper deixou de ser a melhor forma. As pessoas não deixaram de lado as necessárias atualizações do dia-a-dia. Mudou a forma, não o conteúdo. Mas isso afeta os modelos de negócios e suas políticas comerciais? Claro, afinal de contas o produto nunca foi papel!

A comparação feita pelo professor entrevistado é extremamente elucidativa. Com a chegada do CD, as pessoas deixaram de consumir a mídia em vinil, não de ouvir música. Em breve, o bom e velho Compact Disc também será deposto, mas a música continuará a tocar. Steve Jobs que o diga.
Adaptação é a palavra de ordem. Nós, profissionais de marketing e especialistas em comunicação, precisamos substituir nossos players e rever o playlist. Vai dar mais trabalho, muito mais trabalho, pelo menos até dominarmos os novos formatos. Mas isso é bom, nos mantém vivos e em movimento. Quem resistir às mudanças, sucumbirá. Melhor virar suco, com um apelo charmoso, como fez lá nos primórdios o meu amigo engenheiro.

*Daniel Argolo é publicitário, diretor de planejamento da D/Araújo, em Florianópolis

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