Aconteceram nesta terça-feira, dia 2 maio, no Web Summit Rio, quatro conferências sobre o tema da Inteligência Artificial no mercado da publicidade, criatividade e os riscos e inseguranças que a IA está trazendo.
Na conferência da Chelsea Manning, consultora de segurança na Nym, ela comentou os desafios encontrados em questões de privacidade e segurança pela utilização da inteligência artificial pelo grande público. Chelsea comentou que a inteligência artificial utiliza dados vindos de diferentes fontes, dados dos usuários compartilhados por meio de aplicativos, redes socias e todo tipo de plataforma digital, assim como dados de todo conteúdo compartilhado de maneira pública ou não. Ela destacou que há um grande risco na má utilização desses dados, que podem comprometer a segurança dos usuários e da sociedade.
Chelsea comenta que esses dados reais podem ser manipulados e essa manipulação dos dados pode afetar a utilização das ferramentas de IA de maneira negativa. Por exemplo, ferramentas de IA podem não conseguir diferenciar uma Fake News de uma informação verídica e, com isso, acabar alimentando os resultados gerados por ferramentas de IA. Assim sendo, essa manipulação de dados pode ter um impacto direto no conteúdo que nós consumimos. E, se feita de maneira maliciosa e em larga escala, pode impactar diretamente a sociedade, manipulando opiniões e criando conflitos em vários aspectos da sociedade, cultura e economia.
Conferencistas
Na conferência realizada por Fernando Machado, CMO da NotCo e Daniela Braga, CEO da Defined.ai, a questão central era a transformação da publicidade e da criação, gerada pela utilização de IA na produção publicitária. Fernando Machado comentou que a IA vai trazer novas oportunidades, pois estamos em um processo de aprendizado, e devemos usar essas novas ferramentas a nosso favor. Teremos novas funções, e devemos estar prontos para mudar nossas rotinas e a explorar, aprender, desenvolver e evoluir juntos. Todos nós estamos aprendendo a utilizar a IA
Daniela Braga, comentou que a IA nos dá acesso a ferramentas criativas como geração de imagens 3D, geração de códigos de programação ou criação musical; onde uma única pessoa pode criar um projeto sem necessidade de toda uma equipe; por exemplo um designer pode criar linhas de código HTML para uma página web sem necessitar da ajuda de um desenvolvedor. De acordo com Daniela, isso criará asas para nossa criatividade e o tempo para pensarmos no lado humano da criação sem nos preocuparmos ou nos limitarmos aos aspectos técnicos.
Ela afirmou que a IA pode nos permitir também uma melhor análise de dados, pois muitas empresas ainda não exploram essa tecnologia em suas decisões estratégicas.
Para Fernando, a criação hoje se expandiu, desde o surgimento das redes sociais, qualquer um com um smartphone com uma câmera pode se tornar um criativo áudio visual. Ele afirmou que já vimos o território da criatividade se expandir nos últimos anos, que utilização da IA é uma novidade para muitos criativos, porém essa transformação em nossa maneira de criar, já vem acontecendo há anos. De acordo com Fernando, estamos agora vivendo um novo momento no qual devemos aprender a explorar e nos adaptar a essa nova maneira de trabalhar.
Daniela acrescentou que questões de direitos autorais são hoje algo com o qual devemos trabalhar, pois os materiais protegidos por direitos autorais, podem ser usados na criação com IA, contanto que os direitos sejam pagos. Ela afirmou que hoje estamos trabalhando na legislação da utilização de conteúdo protegido para criação com IA.
Fernando Machadou destacou que as agências de criação já estão usando ferramentas como ChatGPT e citou que em sua agência, certas campanhas usaram ferramentas de IA. De acordo com ele, isso é algo que já estamos vivendo, e é preciso encontrar a ferramenta correta e saber utilizá-la como alavanca, pois já estamos vendo o surgimento de empresas baseadas em criação com IA.
Daniela prosseguiu destacando que estamos vendo as diferentes formas de IA trabalharem de forma conjunta, IA alimentando IA, o que é chamado de ASI (Artificial Super Intelligence), a superinteligência artificial. Isso tem avançado com uma velocidade muito grande, ela nunca teria imaginado que essas ferramentas chegariam tão rápido. Ela concluiu sua sessão afirmando que agora vemos que com a IA e a ASI, as tecnologias podem avançar muito mais rápido do que estamos acostumados.
Pressão criativa
No período da tarde, Allex Collmer CEO da VidMob fez uma conferência com o tem “Os profissionais de marketing devem se sentir ameaçados pela IA?”
Ele comentou que hoje há uma omnipresença de pressão criativa, e que podíamos prever um futuro com essa overdose de criação. Mas ele questionou: qual o objetivo do marketing no longo prazo? E ele mesmo respondeu: “Criar conteúdo que conecte de maneira única com audiência fazendo um apelo às emoções”. Ele afirmou que o objetivo de um profissional de marketing não é só criar conteúdo, mas compreender como funciona a criatividade.
Na VidMob eles tentaram conectar todas as ferramentas e plataformas de criação (mídias sociais, plataformas de streaming…), e usaram a IA para cruzar esses dados e ranquear quais conteúdos possuíam as melhores práticas nas plataformas.
Eles inventaram uma ferramenta de análise de criatividade, a Creative Analytics, que ajuda a entender o comportamento criativo dos usuários. Essa ferramenta permite obter-se análises importantes do conteúdo que os usuários produzem e consumem, mas também permite que a criação do conteúdo se adeque as tendências de consumo de conteúdo, aumentando o impacto e os resultados das criações.
De acordo com Allex, no futuro a diferença entre o sucesso e a derrota será a eficácia criativa. Para as empresas que desejam ter sucesso único, é necessário ter dados únicos. Ele afirmou que o seu desafio é criar uma arquitetura de decisão humana, que criará uma rota das decisões criativas, passando pelos processos criativos e os insights criativos, a fim de obter um feedback humano, que será reenviado para alimentar a ferramenta de IA que fornecerá em contrapartida um output, e este retornará para retroalimentar o flow dessa ferramenta de arquitetura humana, criando um loop.
O resultado dessa ferramenta permitirá que um ser humano colete esses dados afim de ter um insight estratégico. Allex comenta que na realidade a ciência de dados é a criatividade.
De acordo com ele, em um mundo onde a IA vem em primeiro lugar, a singularidade é a chave para o sucesso. Allex questionou “como você alimentará essa máquina de criação e quais resultados você irá obter?” e replicou “essas questões são o ponto crucial na evolução da IA”.
Em seguida ele fez uma última questão “como a IA pode ameaçar nossos trabalhos, empregos?”
E respondeu: “a IA não vai, mas alguém que saiba utilizar a IA melhor do que nós, poderá roubar nosso emprego”. Para concluir ele afirmou que devemos acreditar no potencial da IA, não tentar fugir dela, mas abraçá-la, para não ficarmos para trás.
Sobre esse último aspecto, da ameaça da IA em nossas carreiras, a Cassie Kozyrkov, Chief Decision Scientist do Google fez uma conferência sobre quais trabalhos a IA irá automatizar, quais carreiras podem desaparecer, quais perigos e oportunidades estão envolvidos com a expansão da IA.
Chelsea iniciou citando que no passado (nos anos 40) a profissão de “computador” existia, ou seja, havia pessoas computando dados manualmente, e essa profissão já não existe mais, pois foi substituída pelos “computadores”. Ela explicou a diferença entre a programação tradicional, e machine learning e IA, onde os dados são processados de maneira automática sem necessidade de instruções.
Chelsea explicou como a IA está evoluindo, pois existem diferentes tipos de IA, e nós não estamos todos falando da mesma IA quando nos referimos a “inteligência artificial”. De acordo com Chelsea a IA generativa ainda não chegou em um ponto onde podemos considerar “generativa”, ou seja, ainda não tem a autonomia necessária para gerar resultados perfeitos, isso por falta ainda de instruções na construção do seu código.
Ela afirmou que agora não vivemos uma revolução da IA, mas uma revolução do design. Ela citou vários exemplos de usos de IA na última década que todos nós tivemos acesso sem a consciência que estávamos usando IA. Porém somente agora os usuários tem acesso a IA, e lhe dar com IA como uma forma de inteligência e não somente como uma ferramenta automatizada a qual não tinham nem consciência.
De acordo com Chelsea, a IA evoluiu da teoria, para as empresas e agora chegaram nas mãos dos usuários. Essa evolução transformou a percepção do público sobre o que é IA e a existência da IA, mesmo ela existindo já por décadas. Chelsea comentou que hoje não podemos mais falar de IA como a 5 anos atrás. Ela deu alguns exemplos de ferramentas de IA acessíveis ao público, como o text-to-speech e o Google Bard (nova ferramenta do Google similar ao ChatGPT) que ela usou para fazer o script do seu speech sem necessidade de escrever.
Por meio desse exemplo, ela quis destacar, que existe muito mais além de ChatGPT e Midjourney, e aconselhou o público a não se questionar tanto sobre essas ferramentas, somente as utilizar, pois estamos vivendo uma revolução na produção individual, que ela nomeou de “indivíduos aumentados” (Augmented Individuals).
De acordo com Chelsea, essas novas ferramentas podem aumentar nossa produção economizando nossos esforços e tempo. Isso pode causar sérios problemas econômicos e um caos no mercado de trabalho. Porém, se pensarmos, que quando caminhamos 5km, tanto faz se somos bons em caminhada, nunca iremos tão rápido quanto um veículo a 50km/h, ou seja, a IA não veio roubar nossos empregos, assim como os carros não roubaram nossas pernas. Então não devemos nos preocupar com nossas carreiras e entrar em pânico, mas nos adaptar a essa nova realidade, pois existem questões bem maiores com as quais devemos nos ocupar e a IA nos trará a possibilidade de nos dedicarmos ao que realmente importa.
Repórter: Rodrigo Conceição

