O marketing das grandes corporações brasileiras vive uma contradição reveladora: 73% reconhecem a IA como força central, no entanto, 60% das lideranças apontam a integração dessa tecnologia como um de seus maiores desafios no dia a dia.
A tecnologia chegou. A infraestrutura, ainda não. Os dados são de uma pesquisa realizada pela Makers, maior rede de CMOs do Brasil, em parceria com a Adobe, conduzida entre março e abril de 2026 com 115 líderes de empresas de peso no país, a maior parte com faturamento acima de R$ 500 milhões.
O relatório realiza um panorama inédito sobre as tendências e movimentos do setor de marketing, um ecossistema cada vez mais pressionado a dar respostas ágeis e onde a tecnologia desponta como fator determinante para definir estratégias, expandir metodologias e alcançar resultados. De acordo com o levantamento, a área vive uma transformação de natureza estrutural, na qual os líderes de sucesso são aqueles que desenvolvem uma capacidade contínua de adaptação organizacional e individual em um cenário de constante transformação.
IA redefine funções e eleva a exigência sobre as decisões autorais
A inteligência artificial não vai substituir equipes criativas ou profissionais com repertório, ela potencializa a atividade autoral de quem já pensa com profundidade. Para 74% das lideranças das organizações mais relevantes do mercado, a IA reforça o valor das funções existentes e eleva a exigência sobre o pensamento crítico, a curadoria e a tomada de decisão dos colaboradores.
O debate mais sofisticado, portanto, não é sobre substituição. É sobre reconfiguração do trabalho e sobre quais organizações construirão, a tempo, a infraestrutura técnica e cultural que permita à tecnologia gerar valor real.
Estratégia supera tecnologia
Um dos principais dados da pesquisa diz respeito à lacuna de competências vivida pelo setor. Ao contrário do que se poderia imaginar, o maior gap do marketing brasileiro está no pensamento estratégico (67%), à frente de habilidades técnicas como Data & Analytics (49%) e tecnologia & IA (47%). Em outras palavras, o mercado demanda cada vez mais profissionais capazes de transitar entre diferentes disciplinas, construir roadmaps com autonomia e agregar valor à jornada corporativa, mais do que especialistas técnicos limitados a uma única metodologia ou abordagem.
“O maior desafio enfrentado pelas organizações não é talento humano ou capacitação específica”, afirmou Fernando Teixeira, Diretor de Produtos e Estratégia de IA para a América Latina da Adobe. “O grande diferencial estará em construir uma estrutura que concilie os avanços tecnológicos com a cultura corporativa, e esse é exatamente o caminho que as empresas mais relevantes já começaram a trilhar. Os 66% que ainda buscam repertório, estrutura e velocidade para acompanhar o mercado representam uma oportunidade enorme de transformação”, completou.
“Essa assimetria entre expectativa e execução também aparece na experiência do cliente”, disse Thiego Goularte, fundador e CEO da Makers. “Para 67%, a experiência do cliente é determinante para se diferenciar no mercado, mas apenas 22% das organizações aplicam IA onde ela realmente acontece. O tema ainda é tratado como prioridade conceitual, não como uma capability estruturada. A diferença competitiva estará em quem conseguir transformá-la em sistema”, completou.
IA generativa, creators e IA agêntica
Quando perguntados sobre as forças que estão redesenhando o setor, os líderes não apontaram uma tendência dominante, mas um ecossistema em ebulição simultânea. A IA generativa lidera as citações com 73%, seguida de personalização em escala (53%), automação (40%) e conteúdo criativo (37%). O dado mais revelador, no entanto, está no que esses números carregam juntos: o mercado já compreendeu que IA sem direção criativa é apenas automação barata. Entre os que já utilizam a tecnologia na criação de conteúdo, 81% apontam análise de dados como principal alavanca de valor, e a personalização e a automação surgem como desdobramentos diretos dessa capacidade de interpretar dados com precisão.
Em paralelo, influenciadores e creators deixam de ser canais de distribuição para assumir um papel mais estrutural: o de infraestrutura de confiança. À medida que o conteúdo gerado por IA se expande em escala e volume, observa-se um efeito colateral inevitável: a homogeneização da comunicação. Nesse cenário, a voz humana, específica, contextual e construída ao longo do tempo, torna-se um ativo escasso e, como toda escassez relevante, passa a carregar valor crescente.
No horizonte, o relatório aponta ainda para um movimento ainda incipiente, mas com potencial transformacional: a IA agêntica. Diferentemente dos modelos atuais, focados em recomendação e suporte à decisão, esses sistemas evoluem para um novo patamar, atuando de forma autônoma em nome do consumidor, sendo capazes de tomar decisões, executar transações e negociar condições. Essa transição desloca o papel do marketing: não se trata mais apenas de influenciar escolhas humanas, mas de integrar-se a ecossistemas onde decisões passam a ser mediadas por agentes inteligentes.
A tecnologia muda o jogo
Em sua conclusão, o relatório estabelece que o marketing deste ano exige que empresas personalizem em escala sem perder a autenticidade, utilizem a IA sem serem genéricas, executem processos com velocidade sem abrir mão da coerência estratégica e, principalmente, estabeleçam critérios claros para medir o que realmente importa, sem cair na armadilha de otimizar o que não gera valor. Nesse contexto, o perfil dos tomadores de decisão bem-sucedidos e consequentemente de suas organizações, será o de quem lidera equipes prontas a aprender mais rápido do que o mercado muda.
“Embora 84% das lideranças não se digam prontas para o futuro, 78% são otimistas em relação ao desenvolvimento de projetos e iniciativas para a área”, afirmou Teixeira. “Isso diz muito sobre a nossa cultura e sobre a nossa capacidade de motivar equipes, de ir mais longe e de fazer a diferença com aquilo que temos. Não se trata de ser o primeiro a descobrir a próxima tendência ou ferramenta revolucionária, mas sim de atuar como um jardineiro nesses ambientes e cultivar sistemas, pessoas e culturas capazes de absorver cada nova mudança e transformá-la em resultado consistente”, completou.
“A liderança do futuro não será definida pela busca por previsibilidade, mas pela capacidade de construir resiliência organizacional e inovação tecnológica em um cenário de transformação permanente”, concluiu o fundador e CEO da Makers.

Foto: Divulgação/Makers
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