Atender uma ligação de número desconhecido virou um gesto de cautela para muitos brasileiros. Em meio ao crescimento de golpes e fraudes, o telefone (antes símbolo de confiança) perdeu espaço no cotidiano. Mas essa dinâmica deve mudar. A partir deste sábado (15/11), entra em vigor a nova regulamentação da Anatel que exige que grandes empresas autentiquem digitalmente suas chamadas por meio da tecnologia de origem verificada, conhecida como Stir Shaken.
A medida, prevista no Acórdão nº 201/2025 e aprovada em 14/11, representa um avanço importante no combate ao uso indevido de números falsos ou clonados, prática chamada de spoofing, e na redução de chamadas automáticas em massa, os famosos robocalls. Agora, companhias que fazem mais de 500 mil ligações mensais deverão validar cada chamada. A Anatel concedeu às operadoras de telefonia móvel um prazo de 90 dias para adaptação, independente da base de clientes.
Diante da repercussão gerada desde o início das discussões, é natural que muitos consumidores ainda tenham dúvidas: Afinal, o que é Stir Shaken? De que forma isso impacta meu dia a dia? Como identificar se uma ligação realmente vem da empresa que diz representar? E essa medida será suficiente para me proteger de golpes?
Para início de conversa é bom que fique bem clara a importância que toda essa mudança e adoção de sistema certificado pela Anatel representam para o futuro das telecomunicações. O Stir Shaken é identificado como uma tecnologia que cria um “carimbo digital” para cada ligação. Ao ser originada, a chamada passa por uma verificação que confirma se o número realmente pertence à empresa que está fazendo o contato. Quando chega ao celular do usuário, o sistema exibe o nome da instituição, o logotipo e o motivo do contato. Todas essas informações acessíveis garantem que o consumidor saiba exatamente quem está ligando.
De acordo com Willian Radin, COO da Ativos Capital – ecossistema de inovação que integra Martech, Comunicação e Cloud e detentor da marca Brasilfone, que incorporou a ferramenta ao seu portfólio –, a tecnologia representa um divisor de águas no setor de telecomunicações: “O Stir Shaken é uma virada de chave para a confiança nas comunicações. No lado das empresas, o sistema passa a oferecer ao cliente uma experiência de contato mais segura, transparente e personalizada. Já para o usuário final, ele permite que o cliente volte a atender o telefone com segurança, sabendo que está falando com uma empresa legítima.”
Nos últimos anos, o crescimento de fraudes telefônicas e ligações indesejadas levou o setor de telecomunicações a buscar soluções mais robustas. De acordo com dados da Truecaller, o Brasil está entre os países que mais sofrem com chamadas de spam. São mais de 20 ligações indesejadas por usuário por mês, em média. O Stir Shaken surge como uma alternativa definitiva a esse problema.
Implementado há alguns anos em países como Estados Unidos e Canadá, o protocolo reduziu drasticamente as chamadas fraudulentas e melhorou a imagem da telefonia como canal de relacionamento. Segundo Radin, a mudança também traz benefícios para o próprio mercado. “A autenticação eleva o padrão de qualidade. Empresas que investem em tecnologia e transparência sairão à frente. Já quem insiste em práticas ultrapassadas de discagem em massa ficará para trás.”
Com a implementação do Stir Shaken, a tecnologia abre espaço para novas formas de interação entre empresas e consumidores, integrando voz, inteligência artificial e canais digitais. “O telefone nunca deixou de ser um canal poderoso de relacionamento. O que faltava era confiança. Agora, com a autenticação, estamos reconstruindo essa ponte entre marcas e pessoas. Do ponto de vista do consumidor final, o que muda é a confiança de receber uma chamada verificada que vai alcançar o seu propósito de comunicar ou resolver um problema”, enfatiza Radin.
Mudanças e adequações que vieram com a medida
Responsável pela regulação do serviço de telefonia móvel no Brasil, a Anatel manteve uma postura firme na aplicação das novas medidas. Além de determinar um prazo para que o serviço começasse a ser oferecido pelas operadoras em todo o território nacional, sem prorrogações, o uso do prefixo 0303, que antes identificava ligações de telemarketing, foi oficialmente descartado por não oferecer segurança contra falsificações. A decisão reforça o compromisso do órgão com a rastreabilidade e autenticidade das ligações, tornando o Brasil um dos primeiros países da América Latina a adotar o modelo em larga escala.
Apesar do avanço regulatório, especialistas reconhecem que há desafios na implementação. Octávio Carradore, CEO da Ativos Capital, destaca que “a tecnologia existe e está pronta, mas ainda falta investimento por parte das operadoras para que a autenticação funcione em larga escala. Com a efetivação da operação do Stir Shaken, a expectativa é que esse problema seja resolvido e a população possa contar com o sistema funcionando plenamente.” Com isso, completa Carradore, “a meta da Anatel em requalificar a comunicação por voz, garantindo que cada ligação tenha um rosto, um nome e uma origem verificável seja alcançada.”
Brasilfone sai na frente
Com o desenvolvimento da tecnologia e os investimentos em melhoria dos serviços prestados, a Brasilfone, especialista em soluções de comunicação em grande escala, é uma das primeiras empresas do setor de comunicação do país a oferecer a tecnologia de forma comercial e estruturada. Para adesão, as empresas interessadas passam por uma validação junto à Anatel e à ABR Telecom, apresentando documentos que comprovem sua identidade. Após a homologação, a Brasilfone ativa o serviço em até dez dias, garantindo que todas as chamadas daquela marca passem a ser autenticadas.
“Para o mercado corporativo, além da segurança, o Stir Shaken representa um novo nível de hiperpersonalização onde o número de telefone deixa de ser um conjunto aleatório de dígitos e se transforma em um ponto de contato direto entre a marca e o cliente. Isso significa que, do ponto de vista comercial, a ligação passa a ser uma ferramenta de relacionamento de marca, e não apenas um canal de atendimento”, explica Willian Radin. Empresas de setores como bancos, e-commerce, saúde e educação poderão adotar o protocolo para tornar sua comunicação mais confiável.

Foto: Divulgação
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