Florianópolis vive um momento de transformação em seu planejamento urbano. A revisão do Plano Diretor atualizou as regras de uso e ocupação do solo e estabeleceu novas diretrizes para o desenvolvimento da cidade, priorizando o espaço público, a mobilidade e a qualidade de vida da população. O tema foi debatido no Palco Cidades Inteligentes do Summit Cidades 2026, em painel mediado pelo vereador Rafael de Lima e por Gustavo Bulcão Viana, diretor do Sinduscon Grande Florianópolis.
Entre os principais impactos da revisão está o aumento da arrecadação por meio da outorga onerosa. A receita, que antes ficava abaixo de R$ 10 milhões por ano, pode chegar a R$ 100 milhões anuais. Os recursos serão destinados aos fundos de desenvolvimento urbano e de habitação, financiando projetos voltados à construção de moradias de interesse social e à qualificação de áreas públicas. Pela primeira vez, Florianópolis passa a contar com uma fonte de financiamento prevista no orçamento para esse tipo de habitação. “Cada edifício erguido com potencial construtivo adicional contribui diretamente para esses fundos”, explicou Michel Mittmann, um dos coordenadores da revisão do Plano Diretor.
As mudanças também já começam a aparecer na paisagem urbana. Atualmente, mais de 17 ruas possuem projetos de melhoria em andamento. Outro mecanismo previsto é a fruição urbana, que determina que novos empreendimentos criem passagens e áreas abertas no térreo, ampliando em cerca de 15% os espaços destinados aos pedestres. A proposta também prevê a integração de antigas servidões, criando novos caminhos e áreas de convivência entre os bairros. Para Mittmann, ainda é cedo para medir todos os efeitos das mudanças. “O novo sempre causa medo. A hora que as coisas acontecerem, as pessoas vão entender”, afirmou.
Nesse processo, o Laboratório de Urbanismo Aplicado (LUA) atua como articulador entre arquitetos, urbanistas, empresas e poder público, promovendo boas práticas e soluções inspiradas em experiências nacionais e internacionais. A atuação do grupo busca qualificar os espaços públicos a partir da interação entre iniciativas privadas e planejamento urbano. Para Tatiana Filomeno, diretora executiva do LUA, essa mudança também altera a forma de atuação dos profissionais da área. “Os arquitetos estão virando urbanistas, desenhando para fora”, disse.
O empresário Daniel Dimas da Silva, CEO da Dimas Construções, destacou que a revisão do Plano Diretor ampliou o debate sobre o futuro da cidade ao envolver diferentes setores da sociedade. “A outorga deu um poder de transformação muito grande. A gente vê urbanistas, pesquisadores, pessoas que não são da construção civil, falando da cidade. Esse debate é fundamental para continuarmos crescendo com qualidade”, afirmou. Segundo ele, essa visão também precisa fazer parte da rotina do mercado imobiliário. “O empreendedor tem que olhar a cidade como um todo, não só para o empreendimento”, disse.
Durante o painel, os participantes também defenderam a importância de acompanhar continuamente os resultados das novas diretrizes. “Instrumentos novos exigem acompanhamento de indicadores, abertura para correções de rota e compromisso de longo prazo de todos os atores envolvidos, públicos e privados. Nos próximos cinco anos teremos a primeira onda concreta dos efeitos da revisão do Plano Diretor”, avaliou Daniel Dimas.
Michel Mittmann reforçou que os impactos da revisão precisam ser analisados ao longo dos próximos anos. “O grande legado é pensar a cidade a partir do espaço público, mas os conceitos precisam ser verificados no tempo. Acredito no monitoramento de longo prazo e no compromisso de todos”, disse. Segundo os especialistas, a consolidação desse novo modelo de desenvolvimento dependerá da avaliação permanente dos indicadores e da participação conjunta do setor público, da iniciativa privada e da sociedade.

Foto: Divulgação
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