Se você ainda é jovem, pergunto: quantas vezes você não se deparou com alguém mais velho falando isso? Ou, se já é mais experiente, não se pegou falando isso? Faltando pouco mais de um ano para alcançar os 40 anos, comecei a me pegar pensando dessa forma. Logo eu, que alguns anos atrás classificava expressões como essas de saudosismo. E aí? Será que é saudosismo? Ou quem sabe anacronismo? Ou ainda, memória seletiva?
por Virgilio Marques dos Santos*
Refletindo melhor sobre o porquê desse sentimento, cheguei aos conflitos. Na minha percepção, conforme vamos avançando na carreira e na vida, passamos a lidar com uma quantidade maior de conflitos e responsabilidades. Lá atrás, quando tinha que tomar uma decisão, o número de stakeholders era menor e as soluções geravam menos discórdia.
Não havia choque de opinião quando optei por ser um aluno disciplinado. Essa atitude agradou aos meus pais, que investiram seus parcos recursos em minha educação, e também aos meus professores. Minha decisão não incomodava ninguém e muito menos a mim. Talvez, um dia ou outro, ficasse frustrado por desejar estar com meus amigos praticando algum esporte ou brincadeira. Outras poucas vezes queria dedicar tempo a um filme ou algo do gênero, mas na maior parte do tempo, estava “pleno”. Não havia arrependimentos ou conflitos internos com a atitude tomada.
Mas o mundo começa a ficar complexo
À medida que a complexidade cresce, as decisões começam a ficar mais pesadas. Ao deliberar, você agradará alguns e desagradará outros. Às vezes, você terá que contrariar pessoas que respeita, admira e que serão fundamentais para as coisas darem certo. Por melhor que seja a literatura e os métodos de “fazer amigos e influenciar pessoas”, nem sempre você saberá “como chegar ao sim”.
E, somos brasileiros. Não me parece que saibamos bem “não levar para o pessoal”. Então, ao tomar uma decisão, um líder deve estar ciente do impacto que aquilo lhe trará, independentemente das suas boas intenções. Além disso, suas decisões não são estanques, isto é, o profissional vai transbordar para o pessoal e vice-versa. Então, uma decisão acertada na empresa poderá suscitar infinitos perrengues pessoais. E lidar com esses descontentamentos não é tarefa fácil.
E como tomar as decisões minimizando o desconforto?
Na minha percepção, decisões difíceis, quer dizer, que vão desagradar um número grande de pessoas, devem estar muito bem fundamentadas. Por fundamentadas, entenda-se alinhadas com seus valores, propósitos e objetivos. Fazer uma escolha impopular, que vai contra seus valores, não deixará você dormir em paz e o forçará a retroagir, se for pressionado.
Exemplo: se passar tempo com a família é um valor basal para você, ter de abrir mão disso fará com que você se sinta mal. Agora, se o tempo longe da família tiver um bônus financeiro, e seu núcleo familiar estiver alinhado a esse objetivo, o conflito será atenuado. Mesmo que alguém se oponha, ao ser lembrado de que a poupança para pagar a faculdade do filho ainda está pequena, irá entender sua decisão.
A mesma coisa acontece no trabalho. Se vocês não compartilharem dos mesmos valores e propósitos, suas decisões não serão compreendidas e nem aceitas. Um exemplo que institui em nossa empresa é os sócios terem salários fixos. Isso atenua demais os conflitos que podem ser gerados pelo resultado momentâneo do negócio. A criação desse mecanismo teve como objetivo reduzir a probabilidade dos sócios gastarem todo o lucro auferido pela empresa, não sobrando, assim, dinheiro para investimento e bonificação dos demais colaboradores. Colocar essa cláusula do acordo de sócios os protegerá de pressões externas.
Se gerenciar esses conflitos numa organização são complexos, imagina no governo. Aumentar o superávit primário ou aumentar o Auxílio Brasil? Indicar alguém “terrivelmente evangélico” para uma vaga no Supremo Tribunal Federal ou alguém com notável saber jurídico e reputação ilibada? Não é preciso ser “terrivelmente evangélico”, você poderia argumentar. Entretanto, outro poderia explicar que a comunidade que o apoiou gostaria dessa indicação, para salvaguardar alguma interpretação específica da Constituição Federal. Se você não possuir um conjunto de valores e propósitos, será impossível liderar.
Por isso, ao relembrar dos “bons tempos”, em que sofria menos pressão, rememore as regras para tornar o peso da liderança mais confortável. Sei que não será fácil, mas o fardo se tornará um pouco mais leve. E lembre-se: apesar dos inúmeros “memes” e “tirinhas” mostrando o quão legal, compreensivo, sábio, servidor é a pessoa no papel de liderança, você não será unanimidade. Esteja preparado para tomar essas decisões e ser questionado por seus subordinados e superiores. Elogiar e tomar a decisão “senso comum” é sempre mais fácil, mas nem sempre é o melhor a ser feito. Esteja fundamentado. Não tergiverse seus valores. Você irá longe.
*Virgilio Marques dos Santos é um dos fundadores da FM2S, doutor, mestre e graduado em Engenharia Mecânica pela Unicamp e Master Black Belt pela mesma Universidade. Foi professor dos cursos de Black Belt, Green Belt e especialização em Gestão e Estratégia de Empresas da Unicamp, assim como de outras universidades e cursos de pós-graduação. Atuou como gerente de processos e melhoria em empresa de bebidas e foi um dos idealizadores do Desafio Unicamp de Inovação Tecnológica.
