A escrita não é só para escritores. Sim, eles têm a capacidade de aproximar essa prática da perfeição, deixando obras que provocam transformações reais nas vidas de seus leitores e permanecem como legados para a humanidade.
Talvez, seja justamente o receio da comparação direta com os melhores um dos motivos para que tantas pessoas evitem uma ação que, comprovadamente, gera diversos benefícios.
“Escrever não é para mim”, já ouvi muitos expressarem. Alguns, com sincera humildade; outros, por mera preguiça. Desprezam, assim, um mecanismo eficiente para seu aprimoramento pessoal e a evolução na própria carreira. Estamos falando, em outras palavras, do fortalecimento de reputação.
Trata-se de uma dinâmica estabelecida, resumidamente, a partir de três fatores: quem você diz que é, quem você realmente é e quem as pessoas acham que você é. O grande desafio das lideranças de expressão e das marcas está em conduzir essas perguntas para uma única resposta.
Ou seja, uma imagem sólida exige a sintonia entre o que comunicamos, aquilo que somos de fato e o modo como somos percebidos pelos outros. Quando há conexão, estamos bem. Quando existe dissonância, prepare-se: a chegada da crise é uma questão de tempo. E a escrita é um recurso poderoso e até imprescindível para ambos os cenários — seja para construir a reputação, seja para conter os danos que surgem quando não se faz essa construção.
1. O texto ordena
As gerações anteriores tinham o hábito de escrever cartas – costume que, infelizmente, se foi perdendo com o processo da digitalização. É preciso recobrar essa prática, ainda mais com as facilidades dos dispositivos eletrônicos. Quem escreve está disposto a revelar e até eternizar seus pensamentos, atitude que requer preparação e coragem. Quando colocamos uma ideia no papel – ou na tela –, estruturamos os argumentos e organizamos os conceitos. Ativamos a consciência, empregamos a inteligência, depuramos informações, aprofundamos raciocínios e refletimos. Não à toa, na pirâmide de aprendizagem de William Glasser, escrever só perde para o ato de explicar ou dar aula. A escrita sedimenta o conhecimento.
2. O texto posiciona
A sociedade nunca demandou tanto que CPFs e CNPJs se manifestem como nos tempos atuais. Todos somos questionados sobre tudo, o tempo todo. Com a torrente do ESG, por exemplo, há uma cobrança ativa em cima das organizações – que, por um longo período na história, chegaram a viver sem serem incomodadas por seu ambiente social. Agora, o próprio Linkedin disponibiliza às companhias a oportunidade de elencar, sem seus perfis, os compromissos que abraçam. Nesse contexto, a escrita se potencializa como mecanismo de expressão de valores, princípios e visão de mundo. O que queremos e o que rejeitamos. É um canal para conectarmo-nos ao mundo ao nosso redor e mostrar que nos importamos.
3. O texto esclarece
Antes, os vetores de formação de opinião pública podiam ser contados nos dedos da mão. Bastava estar de olho nos veículos tradicionais – e que geralmente eram comandados poucos. Conhecíamos as pessoas e tínhamos certas condições de estabelecer relações diretas de confiança. Hoje, o cenário é de dispersão e descontrole. Um perfil digital fake com menos de cem seguidores pode desencadear uma tribulação reputacional e levar uma corporação listada na bolsa à ruína. Com todos os recursos da inteligência artificial, a mentira ganhará cada vez mais a forma de imagens e vídeos convincentes, com potencial de assolar a imagem de políticos a executivos. Estamos todos sobre a areia movediça. A redação de um posicionamento sólido e persuasivo é decisiva em uma gestão de crise.
4. O texto distingue
A carga de dados arremessada às pessoas nunca foi tão pesada. Da mesma forma, o ruído nunca esteve tão alto. Todos opinam, a torto e a direito, em suas redes sociais. Em sua grande maioria, coaches, gurus e seguidores apostam todas suas fichas na forma, deixando o conteúdo de lado. A vida humana se tiktokzou, no pior sentido do novo termo: ficamos rasos, imediatistas, sentimentalistas e infantilizados. A popularização do WhatsApp deu a cada um de nós a chance de praticar a escrita, mas preferimos enviar áudios prolixos e emoticons. Talvez, em alguns anos, voltaremos a grunhir como os primitivos. Faça o exercício: transcreva uma dessas mensagens de três minutos e veja o quanto sobressai de informação – e o quanto resta de mero barulho. Ou observe o que é possível realmente extrair de uma conversa pessoal ou de um discurso, retirando todas as camadas de eloquência. A frustração é quase sempre inevitável. A escrita, por outro lado, revela o pensamento em sua essência e estabelece distinções entre este e aquele.
5. O texto conduz para a virtude
Assim como aprender russo ou lutar esgrima, escrever demanda dedicação, rotina e exercício. Não se domina essa arte sem praticá-la com recorrência. Não há glória sem sacrifício. Quando direcionado corretamente, o hábito de manter um diário tem muito a ver com isso: é um encontro conosco mesmos – e, principalmente, com nossos pensamentos mais profundos e nossas misérias. Para quê, afinal? Sermos sujeitos melhores. Recém-lançado, o excelente documentário Elis & Tom: só tinha que ser com você recorda uma frase primorosa do maestro: “Gasto muito mais a borracha do que o lápis”. Fosse escritor atualmente, ele diria: “A tecla que mais pressiono no meu notebook é a delete.” A relação do pai da bossa nova com a composição musical traz lições valiosas para a interação de todos nós com a escrita. Escrever deve ser uma busca permanente pela verdade e pelo que vale a pena, e não uma ocasião privilegiada para a verborragia. Há um detalhe final: produzimos um texto para ser lido. É um ato de serviço e, consequentemente, de humildade. A palavra final acaba sendo a do leitor.
6. O texto cria autoridade
Quem escreve tem diante de si um meio para compartilhar suas expertises, gerando credibilidade nos seus públicos de interesse. É uma forma efetiva de gerar percepção social – e, assim, firmar-se como referência em determinado campo de conhecimento. Lembro, por exemplo, de quando lia a coluna “Gestão à vista”, assinada por Vicente Falconi na revista Exame. Milhares de executivos compartilhavam dilemas de seu cotidiano profissional com o professor, que respondia a partir de sua rica vivência pessoal. Entre outras ações, esse espaço fixou, entre o empresariado brasileiro, a imagem do fundador da Falconi como o guru da gestão. O colunismo reforçou o sentimento de admiração – e, sem dúvida, contribuiu para o sucesso de seus negócios.
Em suma, a questão é: um profissional de alta performance deve incorporar a escrita à sua rotina, assim como faz com tantas outras atividades para seu êxito na carreira. É uma ação totalmente conectada ao fortalecimento reputacional. E, para facilitar, o mundo contemporâneo oferece variadas oportunidades para isso – desde canais proprietários até espaços disputados na opinião pública. Portanto, comece o quanto antes.
por Rafael Codonho, jornalista, sócio-diretor da Critério – Resultado em Opinião Pública e especialista em reputação.
