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Tatuagem no trabalho. Pode?
13 de Março de 2012

Tatuagem no trabalho. Pode?

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Por Ligia Fascioni 13 de Março de 2012 | Atualizado 03 de Dezembro de 2021

Meu e-mail está parecendo consultório sentimental de rádio popular; parece que as pessoas combinam os assuntos. Agora meus consulentes querem saber se podem usar piercing e tatuagem no local de trabalho. A resposta não é tão simples quanto parece, vamos lá.

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As roupas, o corpo, a maneira como a gente se veste e se movimenta comunicam muito sobre o ser humano que está carregando isso tudo. A gente usa esses recursos para se expressar e se mostrar para o mundo; para marcar posição.

Não custa lembrar, isso nada tem a ver com recursos financeiros. Já cansei de falar aqui que uma das pessoas mais elegantes, dignas e com atitude profissional exemplar era uma varredora de rua que conheci; finíssima. E o programa "Mulheres Ricas" está aí para provar que boas maneiras e elegância não estão à venda nas lojas para quem quiser comprá-las.

Pois é, então nosso corpo é uma ferramenta poderosíssima para expressar quem a gente é e o que pensa dessa bagaça toda; fato. Quando a pessoa faz uma tatuagem, há um monte de mensagens implícitas e explícitas sobre como ela vê o mundo (depende do desenho, do tamanho, do lugar, da quantidade, da postura e da roupa que vai junto, entre outras coisas).

Geralmente quem faz uma tatuagem agressiva, usa um alargador na orelha ou um piercing no rosto, demonstra algum tipo de revolta com o estado vigente das coisas, algum inconformismo com as regras e "com tudo isso que está aí". É também uma forma de se destacar na multidão, de mostrar que é diferente, de não ser "enquadrado" no sistema. Claro que essa é uma interpretação genérica e há quem faça tudo isso por uma questão estética, apenas porque acha bonito.

Bom, o ponto em que eu queria chegar é que, quando a pessoa trabalha numa empresa, ela está sendo contratada para transmitir e compartilhar a identidade dessa empresa. E, como já cansei de falar aqui, a organização tem que ter um discurso coerente e bem encaixadinho para ajudar a construir uma imagem de credibilidade.

Pois então. Se a identidade da empresa também é de inconformismo, de mudança, de ousadia e de quebra de paradigmas, nada mais adequado do que contratar pessoas com um visual, digamos assim, mais alternativo. É mais que coerente; é desejável. Ficaria muito estranho um sujeito de terno azul marinho e gravata, todo lambidinho, trabalhando num estúdio de tatuagem ou numa sex shop, por exemplo. Mas um juiz de bermudão e com uma sereia na testa também não faz muito sentido (o trabalho dele é fazer com que as regras/leis sejam cumpridas; é uma incoerência da parte dele contestá-las).

Resumindo: empresas mais ousadas têm maior probabilidade de lidar bem com esses acessórios; por outro lado, em organizações mais conservadoras e totalmente adaptadas às regras, um alargador do tamanho de uma argola de baiana do acarajé não se encaixa; é um ruído grave na sua comunicação.

Então, a resposta é: estude seu cliente. A empresa compra a maior parte das suas horas e lhe contrata para ajudá-la a comunicar a identidade dela. Se todas as peças que ela distribui por aí forem ousadas e transgressoras, capriche no visual hardcore e vá firme para a entrevista.

Mas se ela parecer mais convencional ou você passou num concurso público (já sabia muito bem onde estava se metendo, não se faça de desentendido), há duas opções: ou você esconde as manifestações mais radicais de sua arte corporal (não mata ninguém; conheço um monte de gente que tira o piercing para trabalhar numa boa) ou reavalie se você quer mesmo trabalhar lá.

Talvez você e a empresa não tenham um conjunto suficiente de atributos comuns para garantir a sintonia e a convivência pacífica; acontece. Nesse caso, mude para outra que seja mais compatível com sua identidade profissional. Quem contrata (no caso, o cliente) tem o direito de escolher como quer ser representado no mercado; quanto a isso, não há discussão.

E perceba que não tem ninguém errado nessa história. É só uma questão de adaptação a cada caso.

Curiosidade: tenho duas tatuagens antigas que são administradas conforme o cliente; na primeira reunião elas sempre estão escondidas. Se tiver espaço e for conveniente, a flor atrás do pesçoço e a borboleta no braço podem aparecer. Eu as fiz, primeiro, por questões estéticas; mas confesso que elas fazem parte de minha história e também representam meu lado revoltadinho adolescente sim, não vou enganar vocês não….

OBS: A tatuagem da foto é minha.

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