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Pobre país rico
24 de Maio de 2012

Pobre país rico

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Por Ligia Fascioni 24 de Maio de 2012 | Atualizado 03 de Dezembro de 2021

Outro dia, enquanto caminhava pela rua com a queridíssima Rosana Hermann, ela comentou comigo que aqui em Berlin até os mendigos eram chiques, pois ela tinha visto um recolhendo as garrafas do lixo a bordo de uma bicicleta bem bacana.

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Hoje vi outro e me dei conta. Aquela pessoa não é mendiga. Ela apenas está precisando de dinheiro. Então, recolhe as garrafas nas lixeiras, leva até o supermercado, coloca nas máquinas de reciclagem e recebe um troco de volta. Problema (pelo menos parcialmente) resolvido.

 

É isso que as pessoas aqui fazem quando precisam de dinheiro, sem vergonha nenhuma (não é vergonha precisar de dinheiro; ou é?).

 

No Brasil, o cidadão se afunda em dívidas de cartões de crédito para manter as aparências e se sente humilhado em fazer coisas que não são consideradas "dignas" para alguém de sua "classe".

 

E não estou falando hipoteticamente não; estou incluindo eu e você. Pelo menos, não me imagino catando garrafas nas lixeiras sem me sentir constrangida. E isso deveria ser encarado como uma coisa absolutamente normal. Steve Jobs, no seu famoso discurso em Stanford, disse que viveu meses dessa maneira quando abandonou a universidade. No Brasil, as pessoas que fazem isso são invisíveis, quase como se pertencessem a uma subcategoria de gente. A cena nos constrange tanto que nem sequer olhamos para essa gente, como se eles estivessem fazendo algo vergonhoso. Não estão.

 

Depois, na aula, estava comentando com o professor que no Brasil não temos tradição de comprar objetos usados. Ele perguntou: “Como assim? E o que vocês fazem com as coisas antigas?”. Eu disse que a gente jogava fora e comprava outras novas. Entendi a cara que ele fez e confesso que fiquei com vergonha. Principalmente porque é verdade…

 

Aqui, qualquer coisa que tenha uma história, mesmo que não seja tão antigo, conta mais. Você pode comprar xícaras e pires comuns que perteceram a uma senhorinha da outra quadra num mercado de pulgas, por exemplo, pelo mesmo preço ou até um pouco mais caro do que pagaria numa IKEA. Mas o povo curte mais. Acontece a mesma coisa com roupas e sapatos. Não se trata de antiguidades, mas de coisas que não tem em qualquer esquina para vender; na HM você compra uma camiseta a preço de banana feita na China seguindo as tendências, mas o pessoal prefere uma usada pelo mesmo preço porque não tem outras 500 iguais no cabide. É uma abordagem totalmente diferente, menos consumista, mais consciente. Esses dias teve até uma manifestação onde as pessoas levavam camisetas usadas na Alexander Platz para trocar; pena que eu tinha aula, senão teria participado.

 

Vejo isso e fico pensando no quanto a gente no Brasil ainda é pobre. E pobre daquele jeito que a Coco Chanel falava: "tão pobre, mas tão pobre, que só tem dinheiro e mais nada".  Temos muito, mas muito dinheiro; muitas riquezas, de todos os tipos imagináveis.

 

 

Mas é só isso. Como não temos cultura e nem educação, não sabemos gastar essa fortuna toda. Desperdiçamos tudo, de água a espaço urbano, de comida a material de construção, de combustível a eletricidade. As pessoas chegam a sentir vergonha até de levar para casa as sobras de um jantar caríssimo no restaurante (as que fazem, dizem que são para o cachorro ou para o porteiro).

 

A displicência é tão grave que não nos preocupamos nem sequer como o dinheiro fruto do nosso suor, aqueles dos impostos, que é desviado escandalosamente todos os dias e ninguém liga. No final, vira piada.

 

Pobres de nós, crianças ricas, mimadas e sem nenhuma noção do perigo…

 

*** Fotografia: Jean Louis von Dardel

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