“Murillo é um homem de pele clara, cabelo e cavanhaque grisalhos, usa camiseta branca e está de headphone. Atrás dele, uma parede vermelha com um espelho e aparelhos de som. Mais ao fundo, uma cozinha e uma luz que entra pela porta. Eu, Márcia, sou uma mulher branca de cabelos castanhos presos no alto. Uso óculos de grau com aro redondo e estou de blusa preta.”
Essa foi a audiodescrição feita por Márcia Caspary, artista da voz, locutora e audiodescritora, a partir da nossa “call”, em que conversamos sobre um assunto relevante e fundamental para a inclusão de pessoas com deficiência visual: audiodescrição.

Audio Institute da mesma universidade. Em 1989, a audiodescrição foi aplicada em filmes no Festival de Cannes. A primeira peça de teatro com audiodescrição aconteceu em 1981. Margaret e Cody Pfanstiehl aplicaram a técnica ao vivo no Arena Stage Theater, em Washington, DC. A primeira rede de TV a disponibilizar regularmente a ferramenta foi a PBS, nos Estados Unidos, a partir de 1993, e, daí em diante, a expansão internacional foi inevitável. Nesse mesmo ano, surge o Projeto Audetel, coordenado pelo Royal Institute for the Blind, que pretende aprimorar os requisitos técnicos para a implementação da audiodescrição nas emissoras de televisão. Em 2008, o Brasil se tornou signatário da convenção da ONU pelos direitos das pessoas com deficiência. Desde então, o termo passou a denominar pessoas com algum tipo de deficiência. Esse foi um avanço, porque, em primeiro lugar, vem a pessoa e, depois, vem a sua condição, sua característica. As denominações, até então, eram pejorativas. Por exemplo: pessoas portadoras de deficiência. Ninguém porta uma deficiência. Deficiência não é um acessório, uma bolsa. A pessoa ou nasce ou adquire a deficiência. Em 2016, surge a LBI, Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), que vem para melhorar a condição dessas pessoas. Mas não basta ser lei, é preciso que seja aplicada e que existam políticas públicas que agilizem sua aplicação efetiva.
Márcia Caspary
Márcia Caspary é artista de voz, locutora premiada internacionalmente (você certamente já ouviu a sua voz na TV ou rádio) e uma apaixonada fervorosa pelo tema.
Márcia é pioneira na audiodescrição no Brasil e defende com unhas e dentes sua aplicação correta, alertando sempre para o cumprimento da lei e combatendo os oportunistas de plantão que tentam “faturar” sem as mínimas condições, estudos, métodos e recursos. Márcia Caspary participa de várias etapas no processo da audiodescrição: da redação e roteirização à própria narração.
Vamos ao papo!
Murillo: A Lei Brasileira de Inclusão tem sido cumprida à risca no caso da audiodescrição?
Márcia: Na produção audiovisual, nos meios de comunicação, a LBI diz que tem que ter um mínimo de horas de Audiodescrição e Libras; atualmente, são 20 horas semanais. Nos espetáculos, em eventos ao vivo, de qualquer tipo, esportivos, de dança, teatro, shows. Na verdade, o ideal seria que tudo tivesse audiodescrição, Libras e Legenda, mas a gente sabe que a realidade leva um tempo. O que importa é iniciarmos isso, educando as pessoas.
No caso da audiodescrição, há dois projetos de lei tramitando a fim de regulamentar a profissão. Mas uma outra saída seria levá-la para a educação, criar uma cadeira nas faculdades de jornalismo, pedagogia, entre outras.
Murillo: Essa era a próxima pergunta: existem cursos de audiodescrição?
Márcia: Hoje temos cursos de especialização no país, além de muitos cursos livres de audiodescrição. Na PUC Minas, há 4 ou 5 anos é oferecida a especialização em audiodescrição, que inicialmente aconteceu na UFJF em 2013 ou 2014 em Juiz de Fora e logo na UECE – Universidade Estadual do Ceará. Já temos um considerável número de profissionais formados. Estamos estudando como regulamentar a profissão de audiodescritor. Especificar em que nível ela deve estar, quantas horas e quem vai estipular os critérios. Os formadores, os profissionais mais antigos e qualificados, que, afinal, também são os professores, não tiveram qualificação. Eles começaram como profissionais nas suas áreas de formação e buscaram o conhecimento na prática.
Murillo: Essa falta de regulamentação não facilita a ação de oportunistas? Pessoas sem o conhecimento para exercer a profissão?
Márcia: Algumas pessoas tentam burlar os processos para ter vantagens financeiras, ainda mais com uma profissão tão recente e pouco explorada. Essas pessoas vão pelo mais fácil, com descrições equivocadas e simplistas, sem o aval do público-alvo que são os cegos.
Murillo: Qual o papel do deficiente visual na audiodescrição?
Márcia: O deficiente visual é o maior interessado e deve ser o maior beneficiado pela audiodescrição. Para isso, existem os consultores que são pessoas com deficiência visual, seja com baixa visão, cego congênito ou com cegueira adquirida. São eles que vão nortear e validar o nosso trabalho. É nessa etapa que os audiodescritores mal-intencionados aparecem. Sequer submetem o trabalho aos consultores.
Murillo: E na publicidade? Como aplicar audiodescrição em peças de 30 segundos onde a locução predomina?
Márcia: Em um filme publicitário, por exemplo, se não for viável inserir o recurso de acessibilidade na peça mixando o áudio da AD ao áudio original, usamos textos descritivos pois ferramentas como leitores de tela, onde a leitura se transforma em áudio, complementam o processo. Na audiodescrição, “menos é mais”, tem que ser sucinto. O que fica de fato na nossa memória quando nós, videntes, assistimos a um comercial? A gente lembra de tudo visualmente? Não. O que é o mais importante? A mensagem. A imagem é a parte menos importante em um comercial com locução.
Precisamos priorizar o que é relevante para a pessoa cega, e é aí que entra o papel do consultor.
Murillo: E a inteligência artificial nesse processo?
Márcia: A gente tem que se especializar para usar a IA a nosso favor. Ela não consegue passar emoção e acho que nunca vai conseguir. O ser humano precisa do ser humano. A IA é muito fria e a audiodescrição nunca vai, na minha percepção, alcançar esse patamar. No cinema, no teatro, no dia a dia, as pessoas cegas não suportam a IA para produtos mais artísticos, por exemplo. Elas não querem voz automática, querem voz humana.
Considerações finais de Márcia Caspary
A audiodescrição precisa ser levada a sério. Não basta ser redator para ser roteirista de audiodescrição. Não basta ser cego para ser consultor de audiodescrição. Não basta ser locutor para ser narrador de audiodescrição. Quem vai trabalhar com audiodescrição precisa estudar e entender a audiodescrição. É fundamental conhecer as diretrizes da audiodescrição e o que a norteia. A narração de audiodescrição, uma das etapas finais do processo, precisa ser harmonizada com o produto. É preciso ter sensibilidade. A linguagem tem que ser adequada, como também o tom de voz, o volume e a intenção. É mais a intenção do que a interpretação. Assim, você se aproxima da pessoa cega. A pessoa que está descrevendo é um canal entre aquilo que está sendo visto e a pessoa cega. A audiodescrição nunca vai substituir a visão. O que o cego quer é sentir. Se faço uma narração com verdade, com cumplicidade, o objetivo é alcançado.
Nenhuma política, tecnologia ou espaço deve ser planejado ou implementado sem a participação ativa e o protagonismo de Todos!
Nada sobre nós, sem Nós!
Para conhecer a Lei Brasileira de Inclusão:
● Lei federal LBI – Lei Brasileira de Inclusão
● Estatuto da Pessoa com Deficiência, Lei nº 13.146, de 6 de 2015
Para conhecer a ABAD:
● Associação Brasileira de Audiodescrição
Para conhecer os consultores em audiodescrição:
● Coletivo de Consultores em Audiodescrição Brasil @consultoresadbr
Para conhecer Márcia Caspary:
● [email protected]
● @marciacaspary
● @tagarelas.acessibilidade
