Nos últimos dias, o mundo acompanha atordoado uma mudança total de paradigmas provocada pelo novo governo americano. Mas quais são os principais pontos que devemos olhar? E como o Brasil fica no meio desse tiroteio?
No pós-guerra, os EUA se tornaram os guardiões do mundo livre. Isso ficou demonstrado de diversas maneiras:
- a sede da ONU foi estabelecida em Nova York, com livre acesso inclusive para representantes de governos inimigos americanos;
- o Dólar se transformou na moeda universal, usada para tudo e por todos;
- investimentos em dólar, mesmo de países inimigos dos EUA, sempre foram preservados.
Essa estrutura sofreu um primeiro abalo muito importante no início do conflito Rússia x Ucrânia. Uma das maneiras que o governo Biden usou para pressionar o governo russo foi bloquear a movimentação e os recursos russos em dólar nos bancos americanos. A ideia, apesar de aparentemente ser boa, gerou um efeito colateral muito importante. A luz amarela piscou forte para outros países, como China, que em algum momento podem estar contra os interesses americanos ou, até mesmo, em conflito com os EUA.
Essa simbiose entre China e EUA, que marcou o mundo nos últimos 30 anos, começou a ruir. China, exportadora de produtos industrializados, que tem nos EUA seu maior cliente, gerou superávits comerciais astronômicos nesse período. Boa parte desse dinheiro era reinvestido em títulos públicos americanos, tornando a China também uma das maiores credoras do Tesouro americano. A partir do conflito no leste europeu, China começou a diversificar esses investimentos, com o receio crescente de ficar sem acesso aos seus recursos em algum momento de confronto no futuro. Prova disso é a valorização estupenda do ouro nos últimos 3 anos. Também usou esse dinheiro para aumentar a presença em diversos países, seja com investimentos em produção, ou em imóveis.
O novo governo americano entende esse movimento de expansão chinês como uma ameaça a sua soberania. Casos isolados, como a discussão sobre anexação do Canal do Panamá ou a tomada da Groenlândia, podem parecer não importantes para um observador menos astuto, mas somente demonstram que o xadrez da geopolítica está sendo jogado. O Canal do Panamá é importantíssimo para qualquer país, mais ainda para o país que mais movimenta matérias-primas. A Groelândia é o caminho mais curto para a entrada no continente americano, em um possível ataque vindo de Rússia ou China.
Dentro do jogo de xadrez, Trump tenta trazer a Rússia para o seu lado, fragilizando a posição da Ucrânia no conflito. Em rede mundial e ao vivo, discute abertamente com o presidente ucraniano dentro do Salão Oval da Casa Branca. Força a Ucrânia a aceitar termos piores. Ao mesmo tempo que empurra a responsabilidade da defesa da Europa para os próprios europeus, em mais um aceno para Putin.
Agora, o governo Trump então mexe mais um pouco as suas peças. Dispara um aumento tarifário contra todos, amigos e inimigos. Porém, com alíquotas diferentes e, claramente, mirando atingir a China em cheio. A China, de imediato, anuncia uma retaliação, que somente a coloca em situação de isolamento. Os EUA nesse momento discutem acordos comerciais com todos os países amigos. Japão e Coréia do Sul já se manifestaram a favor de conversas. União Européia também já declarou estar aberta para discutir novos termos.
A jogada pode dar muito certo ou muito errado. Afinal, a China é vista por todos com um competidor feroz no comércio internacional. Usando às vezes de artifícios questionáveis, como ausência de direitos trabalhistas. Em cada setor da economia, existe uma empresa chinesa prestes a dominar o mercado, seja uma montadora de carros, ou uma fábrica de aparelhos celulares. Se o governo Trump conseguir contornar esse sentimento anti-americano, renegociar acordos de comércio e voltar a trazer os países para boas práticas comerciais, terá feito um golaço. Caso contrário, o mundo pode ter uma nova Ordem Mundial com repercussões ainda desconhecidas, com o isolamento americano e a crescente influência chinesa.
Do ponto de vista brasileiro, temos um ponto negativo e um positivo. O positivo, obviamente, ficou por conta do nosso aumento tarifário ser um dos menores. Então se abre uma janela de oportunidades de negócios com os EUA. Porém, o ponto negativo é muito perigoso. China com certeza terá uma retração grande de PIB, com a eventual diminuição do comércio com os EUA. Portanto, compraria menos commodities. E por conta disso, teríamos um impacto forte também no nosso PIB.
Tudo ainda muito no início. Como costumo dizer, tem bastante água pra passar debaixo dessa ponte. As próximas semanas serão muito importantes para definirmos as verdadeiras intenções do governo Trump e as prováveis consequências que virão dessas medidas.
O mundo é dinâmico. Temos fatos novos todas as semanas. Deixo o convite para vocês assistirem ao meu programa semanal no YouTube da ActivTrades. O programa se chama “Markets Warm Up”, onde faço literalmente um aquecimento para a semana, todas as segundas, ao vivo, às 08h30 da manhã. Deixem comentários, perguntas, sugestões. Vamos fazer juntos um espaço em que possamos discutir idéias e alternativas para o Brasil, além de comentar operações que possam ser lucrativas.
Eduardo Boechat
Eduardo Boechat é engenheiro civil formado pela UFMG, participa desde 2000 do mercado financeiro, tendo trabalhado em diversas empresas de investimentos, entre bancos e gestoras de fundos, brasileiras e estrangeiras. Foi também professor universitário, especializado em mercado de capitais.
