
O show da cantora Shakira que aconteceu no último dia 02 de maio na cidade do Rio de Janeiro foi um grande sucesso de público e crítica. Reunindo mais de 2 milhões de pessoas, superando inclusive o público do show que Madonna realizou em 2024 na Cidade Maravilhosa, o evento encantou pela originalidade e força da sua estrela principal.
Com participações especiais de ícones do universo artístico nacional como Ivete Sangalo, Marita Bethânia e Anitta, Shakira se apresentou com uma enorme vitalidade no palco e demonstrou um sincero carinho pelo Brasil e pelo povo que há três décadas lhe recebe de braços abertos.
Mas, é claro, nem tudo foi música para os ouvidos. Houve percalços que, com mais planejamento e organização, poderiam ser evitados ou minimizados em sua quase totalidade. Se, o show de Shakira reforçou uma ampla diversidade de pontos positivos que encantam o público e fazem do país um destino atraente para a realização de eventos de grande porte, simultaneamente evidenciou importantes desafios e situações que precisam ser analisadas e enfrentadas pelo poder público e por quem atua no setor buscando ampliar a qualidade dos serviços e os resultados conquistados.
Expertise, belezas naturais, imagem institucional e mercado receptivo
Um dos aspectos que fazem do Brasil um destino interessante para a realização de ações das mais diversas naturezas é a expertise na produção de eventos. Vale lembrar, por exemplo que o Rock in Rio, festival se consolidou como uma referência mundial em organização e entrega de experiências marcantes para o público, teve sua primeira edição ainda na década de 1980.
O sucesso do maior festival de rock da América Latina fez com que os organizadores, inclusive, criassem uma escola de gestão que ensina aos profissionais do segmento alguns dos principais métodos de operações e o passo a passo para conquistar resultados tão expressivos quanto os do festival.
Grandes eventos globais, como as Olimpíadas, a Copa do Mundo e outros tantos mega festivais também já aconteceram por aqui com sucesso. Ainda que projetos e obras, especialmente ligados à mobilidade urbana, tenham tido sua conclusão prometida para antes de eventos como o mundial de futebol disputado no Brasil em 2014 e até agora ainda não tenham sido finalizados, a imagem institucional do país é positiva do ponto de vista internacional. Uma população acolhedora e a disposição dos organizadores em atender e superar as expectativas fazem dos eventos brasileiros uma opção interessante para visitantes de todo o mundo.
Outro aspecto fundamental que não pode ser desprezado nessa análise é o enorme painel de belezas naturais que o Brasil apresenta de norte a sul. Com experiências marcantes que vão da prática do surfe em belíssimas praias até vivências requintadas em localidades com ares europeus, e belezas naturais que encantam os mais exigentes viajantes, o país apresenta destinos incríveis que servem como cenários perfeitos para a criação de memórias inesquecíveis.
Sobre a importância dos eventos para a economia brasileiro, Celso Sabino, então ministro do turismo, destacou no ano passado que “2025 provou ao mundo a capacidade do Brasil de realizar, com excelência, eventos de qualquer magnitude. Não estamos apenas atraindo turistas, estamos gerando emprego, renda e infraestrutura que ficam para a população. A união entre grandes espetáculos culturais e agendas de Estado, como a COP30, mostra que o turismo é uma alavanca decisiva para o desenvolvimento econômico e social do nosso país. Estamos batendo recordes de consumo e ocupação hoteleira, consolidando o Brasil como um líder global na economia da experiência”.
Por fim, é necessário destacar ainda como ponto positivo a extrema receptividade do mercado publicitário para investir em ações de grande porte. Novamente citando o Rock in Rio, a última edição do evento contou com o patrocínio e o apoio de dezenas de marcas com destaques para alguns dos mais importantes ícones do mercado internacional como Coca-Cola, Doritos e Volkswagen.
Logística e estrutura
Como já mencionado, o show de Shakira na Praia de Copacabana gerou grandes resultados para a cidade, mas muitos também foram os aspectos que deixaram no público a impressão de que poderiam ser muito melhores.
O primeiro pode, de certa forma, ser considerada quase uma prática nacional: o atraso para o início do espetáculo. Ainda que a arte em geral não deva ter na rigidez uma de suas características, uma demora superior a uma hora para o início de um evento que já havia sido previamente informado tira do sério até mesmo o mais pacato participante.
A logística do evento carioca de maneira geral também pecou em algumas importantes falhas. Muitas ruas e vias de acesso ficaram parcial ou totalmente bloqueadas devido aos comerciantes que se instalaram na região. Além disso, a própria areia da praia, espaço que deveria ser inteiramente destinado ao público para viver experiências junto a uma das maiores popstars da atualidade, também foi invadido por vendedores informais. Um show de grande porte pode e deve ser um vetor de desenvolvimento econômico, mas é necessário o estabelecimento de regras claras que não comprometam o espetáculo.
Ainda no que diz respeito à estruturação do evento e do espaço reservado para a plateia, a tecnologia, ferramenta praticamente indispensável das grandes produções na atualidade, foi mal utilizada. O uso de telas de projeção, por exemplo, deixa de ser um diferencial para se tornar uma obrigação em um evento estimado em dois milhões de pessoas. Na orla carioca, sem os telões distribuídos de forma regular e longe do palco, uma grande parcela do público teve sua experiência prejudicada.
Um mercado amplo, mas que necessita de investimentos
Com um território continental e uma população superior a 213 milhões de pessoas, o Brasil é um mercado extremamente interessante para o setor de eventos. Além do alto contingente populacional, os brasileiros também se caracterizam por sua alta demanda por eventos e o interesse em viver novas experiências.
No que tange os prós do mercado, é importante constatar que no país a ampla experiência dos profissionais que atuam no setor de eventos, aliada a uma estrutura ampla com arenas e espaços adequados para ações dos mais diversos formatos e estilos, faz com as iniciativas conquistem rapidamente o interesse do público.
Entretanto, muito ainda precisa ser realizado e investido para que, de fato, o país se apresente em pé de igualdade para disputar eventos com outros importantes players do mercado internacional.
Necessidades como um transporte público consistente, eficaz e de qualidade para atender as demandas, uma mobilidade urbana que não transforme o trânsito em uma espécie de inimigo das ações, melhorias estruturantes nos aeroportos e reforços urgentes na segurança pública são alguns dos principais aspectos que carecem de investimentos e soluções urgentes.
Não resta dúvida que o potencial do Brasil para sediar grandes eventos é enorme. Com o poder público e as empresas privadas fazendo sua parte, esse potencial pode ser transformar em realidade o mais breve possível.
Crédito da imagem: CANVA
